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Sexualidade

Com ou sem máscara

"Nossas máscaras caíram... as de dentro e as de fora. As de dentro quando, depois de muito conversar pelo WhatsApp, fomos desvelando nossos gostos, nossas visões de mundo, sobre política e religiões"

Publicado em 01 de Agosto de 2020 às 08:00

Públicado em 

01 ago 2020 às 08:00
Carlos Boechat

Colunista

Carlos Boechat

carlosboechat@ebrnet.com.br

Mulher com máscara, como se fosse uma calcinha: as novas regras do sexo em época de pandemia
"A intimidade começou a tornar-se verdadeira, mesmo na virtualidade" Crédito: Shutterstock
Nossas máscaras caíram... as de dentro e as de fora. As de dentro quando, depois de muito conversar pelo WhatsApp, fomos desvelando nossos gostos, nossas visões de mundo, sobre política e religiões. Muitas trouxeram discussões calorosas e até alguns chingamentos. Chegamos a fechar a conversa com ódio mútuo, mas voltamos, nos desculpamos e, dessa forma, nos conhecemos mais. A intimidade começou a tornar-se verdadeira, mesmo na virtualidade. Trocamos fotos da nossa nudez. No início tinha um objetivo de excitação, autoerotismo, com a desculpa de que era para que nossos corpos fossem tão conhecidos quanto nossos diálogos. E a excitação foi se tornando cada vez maior. No isolamento era o prazer possível.
Nos aventuramos, sentindo nossos próprios corpos, estimulados pela visão na telinha. Parecia tempos antigos, quando as revistas pornográficas eram nossas companheiras da solidão juvenil. Depois de tantas “brincadeiras” sérias, resolvemos usar o vídeo do aplicativo e, assim, tornamos os movimentos mais reais, com olhares e sons. Nossa! Como nosso prazer era intenso, contava as horas para os próximos encontros.
A fantasia crescia, usávamos objetos, roupas diferentes compondo um cenário próprio para o erótico. Antes da pandemia, não fazia nada disso. Tudo era tão rápido e prático. Bastava entrar em um aplicativo de encontros, selecionar quem queria e dirigir-se ao prazer. Hoje, no isolamento, percebo como o prazer que eu tinha era frio e vazio. A pandemia nos deixou “presos em casa”, o que estimulou nossa criatividade para a busca de um prazer com sentido. A limitação do abraço nos fez buscarmos nossa essência.
Estávamos cada vez mais íntimos, mas faltava o toque. O cheiro. O beijo. Embora estejamos em isolamento social e sejamos pertencentes ao chamado grupo de risco, não aguentávamos mais. Sonhos de viagens, morar junto, ter um animal.... Um dia, resolvemos correr o risco. Marcamos um encontro real. Quando nos vimos, retiramos a mascara do rosto e trocamos só algumas palavras. O medo ainda era tão forte que nos despedimos e voltamos ao nosso encontro possível. Passo um tempo fiz o convite para que viesse à minha casa. Tiramos novamente a máscara. O beijo surgiu. O cheiro, o toque, tudo o que almejava surgiu. O medo acabou e se ocorresse a doença cuidaríamos um do outro e, juntos, também daríamos apoio às criticas familiares que, com certeza, surgiriam.
Uma noite incrível. Duas noites fantásticas... Duas semanas depois percebemos que o risco valeu a pena. Zero sintomas, mas... não éramos os mesmos sem a máscara. Choramos, nos despedimos, colocamos nossas máscaras (as de dentro e as de fora) e voltamos a namorar pelo WhatsApp. Acho que, agora, tiramos mesmo a máscara (as de dentro).

Carlos Boechat

É psicólogo formado em Brasília, sexólogo e terapeuta de casais. É educador de sexualidade em escolas da rede pública e privada e pai da Stephenie

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