A bicicleta cuida do pedestre, a moto de ambos, o carro dos três e a carreta de todos
Trânsito
A bicicleta cuida do pedestre, a moto de ambos, o carro dos três e a carreta de todos
Não é incomum constatarmos diversos comentários, em redes sociais e rodas de bate-papo, replicando narrativas de culpa da vítima, um pedestre ou um ciclista que violou alguma regra de trânsito, quando mortos nas ruas
Publicado em 03 de Maio de 2022 às 02:00
Públicado em
03 mai 2022 às 02:00
Colunista
Cássio Moro
cassiomoro@gmail.com
Ato em Camburi pede justiça pela morte de Luísa LopesCrédito: Fernando Madeira
Ok, não é minha área de estudos, mas o debate público é imprescindível, especialmente no mês do movimento Maio Amarelo, para chamar a atenção da sociedade para o alto índice de acidentes de trânsito. E, embora eu não goste do termo, tenho algum “lugar de fala” sobre o tema, já que, com uma boa dose experiência e hábito diário, sou pedestre, ciclista, motociclista e motorista, além de neto de caminhoneiro e, quando criança, fui aprendiz de tratorista, a bordo de um Massey Ferguson 1978. Com a vida dedicada ao trânsito e à estrada, posso tecer algum pitaco sobre o assunto.
Não é incomum constatarmos diversos comentários, em redes sociais e rodas de bate-papo, replicando narrativas de culpa da vítima, um pedestre ou um ciclista que violou alguma regra de trânsito, quando mortos nas ruas, ignorando o fato de o motorista estar com excesso de velocidade, embriagado ou algo do tipo. Mas, meu dileto amigo Sr. Motorista, será que essa tenebrosa estatística tem como culpada a vítima?
Não precisa ser especialista para concluir que o trânsito brasileiro é caótico. Quase todos que transitam descumprem a legislação. Pedestres atravessam fora da faixa, ciclistas pedalam na contramão e motoristas dirigem além do limite de velocidade. Convido o leitor a andar por dez minutos em uma avenida qualquer e certamente observará diversas violações ao Código de Trânsito Brasileiro. Quem aqui nunca ultrapassou pela direita, furou um semáforo às 2h da madrugada ou excedeu ao limite de 40km/h da rua de seu bairro?
Mas será que podemos violar uma lei conforme nossa conveniência?
As autoridades mal fiscalizam, multam coisas desimportantes e passam vista grossa em casos sérios. Em complemento, a legislação brasileira é ruim (ainda que com grande avanço trazido pelo Código de Trânsito Brasileiro de 1997). Como se o foco prioritário fosse o transporte automotor privado, certamente o código foi escrito por motoristas com pouco conhecimento sobre os problemas enfrentados no ciclismo, seja na estrada, seja na cidade, seja pelo esportista, seja pelo trabalhador que se desloca diariamente para a labuta. Em razão da falta de atenção legislativa e por amor à vida, diversas são as faltas cometidas pelos “bikers”. Vamos ver algumas delas.
Ciclistas insistem em não andar no acostamento. Ora, tal lugar se destina à parada de veículos automotores em caso de emergência. O legislador motorista, contudo, também o considera como local de tráfego de bicicletas e pedestres. Em razão disso, diariamente motoristas xingam ou “dão fina” em ciclistas forçando-os a se jogar para o canto.
Ocorre que acostamento é luxo de poucas rodovias. E, quando existem, são estreitos, feitos com asfalto de péssima qualidade, com desníveis, esburacados e cheios de mato. E mais, não bastasse toda sujidade da pista que é jogada ao bordo, como pedras, areia e carcaças de pneu, com seus arames perfurantes, existe um excesso sobrenatural de lixo produzido por motoristas. O número de cacos de garrafas de cerveja arremessados em alta velocidade é maior do que você imagina. Enfim, o risco de queda, quebra de rodas e pneus furados é imenso. Com uma bicicleta é impossível transitar 100% do tempo no acostamento, dado o número de obstáculos, especialmente quando se usa pneus de 23mm, 110 psi e sem suspensão. Portanto, Sr. Motorista, quando o senhor força o ciclista a retornar ao acostamento, o senhor o está jogando no lixo.
Ciclovias urbanas não são muito melhores. São escassas, e, em sua maioria, feitas com o que há de pior em termos de material (salvo raras exceções, como aquelas ótimas da Rio Branco e Leitão da Silva). Além de esburacadas, ainda existe um péssimo hábito de pintá-las de vermelho, com uma tinta que as torna escorregadias. E tudo isso sem falar que além de bicicletas, por ali transitam corredores, patinetes, motos elétricas, patins, triciclos, motos de ifood, quadriciclos, cachorros e até, pasmem, velotrol, o que é uma irresponsabilidade dos pais.
Ciclistas também têm o hábito de furar o sinal. É comum ver uma bicicleta avançar no cruzamento antes do semáforo ficar verde. Isso acontece porque motoristas, achando que são o Vin Diesel em "Fast and Furious", largam a toda velocidade. Se o ciclista sair com eles, fatalmente os carros passarão por cima. A Alemanha, preocupada com essa situação, coloca semáforos exclusivos para bike, que ficam verde alguns segundos antes do sinal para os carros. Por aqui, salve-se quem puder.
Mas o que há de mais grave em nosso trânsito é a falta de educação. Certa vez eu estava pedalando às 5h30, indo para o treino, quando um carro de autoescola, com o aluno dirigindo, passou quase raspando em mim, e o instrutor me mostrou o dedo (foi isso mesmo). O cidadão esquece daquela principal lei, praticamente um direito natural e universal do trânsito: “Omaior protege o menor”.
A bicicleta deve cuidar do pedestre, a moto de ambos, o carro dos três e a carreta de todos, independentemente de qualquer outra norma. Isso significa que culpar uma ciclista morta, atropelada por um motorista alcoolizado e em alta velocidade, por qualquer conduta cotidiana que seja, é o mesmo que culpar uma vítima de estupro por usar minissaia.
Cássio Moro
E juiz do Trabalho, doutorando em economia, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e economista. Professor de graduacao e pos-graduacao da FDV. Neste espaco, busca fazer uma analise moderna, critica e atual do mercado e do Direito do Trabalho