O Brasil passa por um dos piores cenários socioeconômicos de sua história, notadamente quando em comparação com países desenvolvidos. Torna-se consenso entre economistas a presença de estagflação, aliada a um distanciamento do seu risível crescimento com aquelas nações ricas que já reativaram suas economias depois da vacina.
O cenário de estagflação, conceito cunhado por Milton Friedman (Inflation and Unemployment, 1976), é aquele de uma forte alta inflacionária num cenário econômico resfriado e, embora o vencedor do Nobel tenha feito seus estudos com base na realidade dos anos 70 nos EUA, com causas distintas, cá estamos
com os preços de tudo subindo, enquanto
temos 14 milhões de desempregadostemos 14 milhões de desempregados, sem falar que a parcela mais vulnerável da população, além da baixíssima renda, não possui qualquer proteção, como o trabalho formal ou previdência.
De um lado, portanto, tem-se a inflação assombrosa: segundo o IBGE,
em setembro o IPCA acumulado dos últimos 12 meses atingiu 10,25%, batendo o recorde inflacionário dos últimos 27 anos, ou seja, desde o implemento do plano Real. As causas vão do preço de commodities à taxa de câmbio. Com o Real desvalorizado e a política de preços internacionais (PPI), implementada por
Michel Temer em outubro de 2016, o combustível, que empurra a inflação para cima, vem subindo constante e drasticamente. O diesel, apenas em 2021 (CNN, 28/09/2021) já subiu 49% nas refinarias. A
gasolina já alcança R$ 7 o litro em alguns locais do país.
E tem a a
crise hídrica. Sem investimento em fontes renováveis baratas que não dependam de São Pedro, novamente o país volta a depender do acionamento de usinas termoelétricas. Segundo o IBGE, em agosto a luz já tinha acumulado alta de 20,86% nos últimos doze meses, superando em muito, portanto, o acumulado do IPCA.
Modelos de negócio inovadores — como a plataforma Uber que, ainda que precariamente, trouxe algum alento a milhares de trabalhadores durante a pandemia, mantendo uma ocupação que lhes garantiria um mínimo de sustento — estão perdendo o interesse, já que o alto preço do combustível, que não consegue ser totalmente repassado ao usuário, deixa o motorista no prejuízo. A ironia é que o receio seria que as condenações trabalhistas pudessem forçar o Uber a fazer as malas e sair do país (a Cabify nem quis arriscar, Valor, 23/04/2021).
Em termos de desigualdade, a situação é tão desoladora e extremada que, de um lado, a indústria de alimentos está rindo à toa com forte exportação a preços altos, enquanto de outro, a população brasileira, que deveria ser a principal destinatária do alimento que produz, passou a comprar subprodutos para seu sustento, como fragmentos de arroz (Estadão, 25/07/2021) ou ossos de boi (El País, 25/07/2021).
Como soluções, a economista Julia Braga (IG, 09/10/2021) sugere alguns pontos para conter a inflação e melhorar a renda das famílias em seguida: o primeiro passo seria uma política contracionista, com alta da Selic, que deve terminar o ano em 8,25% (lembrando que em outubro passado estava em seu patamar histórico mínimo de 2%). É uma medida dura, pois desincentiva o mercado e gera mais desempregos, mas necessária, como fez FHC com o plano Real. Para amortecer o efeito recessivo, o governo teria que fortalecer os programas de transferência de renda, uma terceira e decisiva rodada do benefício e do auxílio emergencial.
Para melhorar a renda e baratear alimentos, a economista sugere apoio financeiro à agricultura familiar que, destinada ao mercado interno, consegue de uma vez reduzir custos e auxiliar no combate à desigualdade social. Por fim, o país tem que repensar o setor energético, investir em energia limpa, barata e constante.
Quanto ao combustível fóssil, Julia Braga sugere a recompra de ações da Petrobras pelo Estado e que suas decisões sobre preços, já que é uma estatal, sejam pautas no que é melhor para a economia como um todo ao invés dos interesses apenas dos acionistas.
Enfim, o que o Brasil precisa urgentemente é de lideranças comprometidas com os fins socioeconômicos, ou seja, de um governo que faça aquilo para que foi eleito e o faça para o bem-estar de todos, que pense coletivamente e não somente em determinados grupos. O que temos? Um ministro da Economia protegendo seus bens numa offshore e um presidente que prefere o discurso conflituoso do "nós e eles", ambos se esquecendo (e parafraseando R. Waters) que afinal, somos todos iguais, apenas homens comuns.