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Mercado de trabalho

Quais as perspectivas do trabalho no futuro?

Segundo o Fórum Econômico Mundial, mesmo com um desenvolvimento ético das novas tecnologias e um certo otimismo, 83 milhões de postos de trabalho serão extintos, enquanto apenas 69 milhões criados

Publicado em 27 de Junho de 2023 às 00:10

Públicado em 

27 jun 2023 às 00:10
Cássio Moro

Colunista

Cássio Moro

cassiomoro@gmail.com

Um dado preocupante e infelizmente preciso apresentado pelo editorial do jornal O Globo semana passada: o “Brasil está despreparado para a mutação do trabalho na era digital”. Pode-se ir mais longe: O Brasil está despreparado para toda a mudança no meio produtivo e na economia mundial, impulsionadas não somente pela revolução tecnológica, mas também por toda transformação política e esgotamento do atual modelo econômico como ele é.
Segundo o Fórum Econômico Mundial, que busca uma aliança entre os países para a exploração de inteligência artificial com maior responsabilidade, mesmo com um desenvolvimento ético das novas tecnologias e um certo otimismo, 83 milhões de postos de trabalho serão extintos, enquanto apenas 69 milhões criados. A perda não é só de 14 milhões. Haverá uma profunda transformação no perfil do trabalhador, grande parte focado nas áreas tecnológicas, ou seja, mão de obra qualificada.
E aí vem o problema brasileiro. Que mão de obra qualificada?
Uma imensa dose de trabalhadores brasileiros ou não são qualificados, o que faz de uma política séria de salário-mínimo e programas de renda mínima algo crucial para o sustentáculo da economia pátria (e o custeio virá de onde?), ou possuem alguma skill em vias de extinção.
Desde aqueles já na berlinda como o raspo de tacho dos cobradores de lotação, frentistas por um fio da revogação da lei que obriga postos a tê-los, até secretárias executivas, agentes de viagem, caixas de banco ou vendedores de tíquetes em teatros, cinemas ou de lanches em redes de fast-food.
Com os chats inteligentes, as perdas serão das profissões exclusivamente intelectuais. A propósito, enquanto a robótica não estiver tão avançada como a IA, algumas profissões braçais ganham uma sobrevida (peça ao GPT para construir uma casa).
Disso fica fácil concluir que, se numa média mundial, haverá uma perda na ordem de 17% nos postos de trabalho (ainda segundo Davos), a queda será muito maior no Brasil, pela falta de qualificação para a reposição, pela falta de preparo e expectativas do país para a mudança. Uma trivial aplicação para a máxima de que uma marola nos países desenvolvidos vira uma tempestade por aqui.
Imagine-se então quando a tormenta gira em torno das grandes economias. A lentidão na recuperação pós-pandêmica chinesa tem gerado problemas para as suas pequenas e médias empresas, que empregam quase 250 milhões de pessoas. Por aqui, pela burocracia, arcabouço legal confuso (tributário e trabalhista), falta de tecnologia e produtividade, nem sequer conseguimos competir ou, ao menos, ocupar o espaço deixado pelas pequenas companhias afetadas no oriente. Ao contrário, como a China é grande importador de nossas commodities, sua falha sistêmica representa forte risco ao Brasil.
E o problema não pode ser atribuído somente ao trabalhador. Ok, no Brasil não temos uma educação básica de qualidade, poucas são as faculdades que se destacam no cenário mundial e, embora cursos técnicos venham ganhando espaço, ainda não atendem a toda demanda, isso quando ou o aluno é muito despreparado no fundamental para entrar num curso técnico de excelência (como os institutos federais) ou foca seu aprendizado na preparação para ingresso numa faculdade e só aprende a marcar X) ou, ainda, como eu, descobre no meio do curso profissionalizante que não tem a mínima habilidade para aquilo.
Ocorre que, além da falida tentativa de se dar uma igualdade de partida aos trabalhadores, é certo que nossa economia ainda gira em torno das commodities. Nosso setor produtivo também é de baixa qualificação. Desde o descobrimento, com alguma oscilação no século XX, somos um país de exploração e sem indústria relevante.
Oportunidade de trabalho para pedreiro
Trabalho Crédito: Freepik
Ainda que a exportação nacional tenha aumentado substancialmente de 2019 a 2022 (69,8%), concentramos essa escalada no petróleo e alimentos, com declínio na já pequena parcela da indústria de transformação (Valor, 19/06/2023). Esse fenômeno é chamado, entre os especialistas, de “reprimarização”.
Com isso, aliado ao dualismo econômico, de que falamos por aqui recentemente, o país não só perde postos de trabalho, mas bons trabalhos. O aumento do desemprego traz alguns efeitos deletérios de ordem econômica, social e política. Além da redução de receita e aumento da criminalidade, a perda da crença nas instituições e a polarização política dificultam a vida de quem deve colocar o país nos eixos (nos novos eixos).
Sem uma política unificadora focada na qualificação e produção, independente de ideologias e oportunismos políticos, o país não tem chance nenhuma nessa mudança global de ordem política e econômica. Tempos sombrios.

Cássio Moro

E juiz do Trabalho, doutorando em economia, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e economista. Professor de graduacao e pos-graduacao da FDV. Neste espaco, busca fazer uma analise moderna, critica e atual do mercado e do Direito do Trabalho

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