Terminada uma palestra sobre “os entraves para se fazer negócios no Brasil”, iniciadas as perguntas, um empresário disparou: “Dr. Danilo, por mim, colocava fogo em tudo isso que tá aí”. Confrontado com a proposta de incineração generalizada e com o risco de que eu estivesse incluído no “tudo isso que tá aí”, meio constrangido, aceitei a provocação: "Concordo com você, meu caro. Vamos queimar tudo isso mesmo. E o que colocaremos no lugar das cinzas?!"
Seguiu-se o silêncio breve e uma certa perplexidade. Ele, então, respondeu: “Pouco me importa, se queimar tudo já está muito bom!”. Então, diante do empresário “Nero”, respondi, educadamente, que iria refletir sobre a “proposta alvissareira”. Não havia muito mais a fazer. Alguns sorrisos contidos, um ensaio de aplausos e o vazio...
Tem sido assim. Em algum momento sangramos a nossa veia propositiva. Nas conversas, nas manifestações de rua e nos grupos de WhatsApp tudo, o que se vê é “fecha isto”, “quebra aquilo” e “fora fulano”. Não há linhas, nem cartazes ou faixas sobre o que abrir, onde fechou, como consertar o que se quebrou e quem colocar no lugar de quem saiu. Não há propostas, só apostas!
Efetivamente, pouca gente tem discutido com argumentos próprios. A mecânica é a seguinte: como em rinha de galos de briga, os participantes dos grupos colocam seus “vídeos” e “textões” para disputar “qual que é o mió”. Vence quem estiver do lado da opinião dominante no grupo. É a ditadura do grito! E aí nada importam fatos e argumentos. Os veredictos são sempre ligeiros e nada analíticos. Os vencidos são banidos ou autoexilados para fora do grupo. Assim, instala-se a paz na rede social.
Os convertidos celebram a pregação sem o importuno dissidente. A pobreza do debate aniquilou a capacidade de ouvir, ponderar, argumentar, rever posições e, se for o caso, mudar de ideia. Aumenta, perigosamente, o número daqueles que estão cristalizados, prostrados e intoxicados ideologicamente. Parece que já não há eleitores e cidadãos. Agora são, com toda a carga semântica, “seguidores”. E seguem mesmo. Até o abismo se for preciso!
Porém, ainda pior, é o nível dos “influencers” (os galos). Como disse o grande Umberto Eco, “a TV já havia colocado o idiota da aldeia em um patamar no qual ele se sentia superior. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade. Uma legião de imbecis antes falavam apenas em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade e eram imediatamente calados. Mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”.
Ficou assim: Colocam fogo nas pontes, mas não apresentam barcos ou alternativas de travessia. Houve época em que ainda era possível fazer uma provocação intelectual, instigar o pensamento, apimentar com ironia inteligente. Agora... isso pode causar agressão física. Cruz-credo! Só nos resta lembrar o poeta e acreditar que “amanhã há de ser outro dia”!