O Senado aprovou no último dia 24 o “novo” marco legal do saneamento básico por uma margem de 65 votos a 13. O resumo do projeto é universalizar o saneamento, com previsão de coleta de esgoto para 90% da população e fornecimento de água potável para 99% até o fim de 2033.
O resumo da tragédia é que 35 milhões de brasileiros não têm acesso à água tratada e 100 milhões estão sem coleta de esgoto. Essa população não pode cumprir um preceito básico de higiene pessoal: lavar as mãos. A previsão é que o projeto deve atrair mais de R$ 700 bilhões em investimentos e gerar 700 mil empregos no período previsto para implantação.
Então, como alguém pode ser contra algo assim?! Pois é, como sempre, teve de tudo: “Vão privatizar a água; Vão entregar o patrimônio público para as elites”; “Vão piorar a coleta de esgoto” - é possível? Vozes ideológicas sem qualquer compromisso com dados de realidade. Ideias emboloradas e intoxicadas sem o mínimo de pragmatismo funcional. Com o smartphone nas mãos, cada brasileiro virou um especialista em tudo e, sobretudo, em emitir opiniões inflamadas e “incontestáveis”.
Vejamos um exemplo bem-sucedido de pragmatismo: Deng XiaoPing foi exilado três vezes por ser considerado uma ameaça ao governo e às políticas da época. Quando assumiu plenamente o controle na China, em 1979, quase 100% de toda a produção do país estava concentrada em matéria-prima e/ou produtos com baixíssima industrialização e pobres no quesito “inteligência embarcada”.
Importante registrar que, considerado como marco o início da década de 1980, o ponto de partida da China estava muito, muito abaixo do nosso. A renda per capita era pelo menos cinco vezes menor do que a nossa e quase todos os indicadores sociais eram mais precários. Ele resolveu investir obsessivamente em tecnologia e educação, ignorando, inclusive, as críticas por utilizar modelos tecnológicos japoneses e norte-americanos.
Lembravam-no da invasão japonesa na Segunda Guerra Mundial e do abuso sexual sofrido pelas mulheres chinesas pelos soldados japoneses. DengXiaoPing foi, então, bastante objetivo e pronunciou a célebre frase: “Não interessa a cor do gato, contanto que ele cace o rato”. Produziu assim, provavelmente, a mais exuberante evolução tecnológica e econômica de que se tem notícia (sobretudo considerando ser a maior população do planeta); Inverteu radicalmente a relação entre produtos primários e industrializados (privilegiando fortemente estes últimos) e pavimentou o caminho para, em 2015, ultrapassar a nossa renda per capta (sempre se deve incluir a variável população - aí o problema fica ainda mais sério).
No mesmo período, nós (Brasil) perdemos um caminhão de oportunidades: o boom das commodities, as últimas ondas de pós-industrialização e estamos perdendo a janela demográfica. Ficamos todos preocupados com a com a cor, o peso e a raça do gato. Aí, os ratos foram escapando, um a um. Ah, também ficamos preocupados se o gato é destro ou é canhoto. Bom, pelo menos os ratos, têm aplaudido efusivamente as nossas decisões.