Quando a Dilma saiu, ou melhor, quando saíram com ela, um amigo declarou em tom de festejo: “Somos indestrutíveis, meu caro! Termos resistido à essa criatura é a prova inconteste da nossa força.”
Confesso que mesmo com algumas dúvidas aqui e ali sobre a legalidade do processo de impeachment, senti certa paz e até partilhei da “adolescente” sensação de ser indestrutível. Trocando em miúdos, a pergunta era simples: O que poderia ser pior? E a resposta parecia igualmente simples: Nada!
Então... como não se tem notícia de alguém que tenha morrido de tédio no Brasil, no último domingo recebi vídeos do nosso presidente, na carroceria de um veículo, gritando palavras de ordem para uma multidão que pedia intervenção militar, AI-5, fechamento do Congresso e do STF, dentre outras excentricidades.
Não fosse o histórico recente de coisas “do gênero” eu teria a certeza de que se tratava de montagem de vídeo (deepfake). As imagens, em quase tudo, lembravam as de “um tal” sindicalista que avisou sobre os “300 picaretas com anel de doutor”. Fiquei empenhado em encontrar as diferenças. Deve haver, não é possível... Tentei, mas, em essência, não as há! E é triste.
Porém, este momento duplamente trágico parece trazer uma grande notícia. A Covid-19, assim como os preços do barril de petróleo e da tonelada de ferro fizeram com a Dilma, está acelerando o nosso encontro com a realidade. Esse vírus tem sido um grande catalisador da “química” social. É possível até mesmo relembrar Juscelino e falar nos “50 anos em 5”.
O Brasil sairá deste momento com a economia desorganizada, as reservas minadas e com um forte abalo institucional. Contudo, amadurecerá em alta velocidade. Aposto que reconstruiremos a economia rapidamente, faremos as reformas tributária e administrativa (que até hoje o governo não mandou para o Congresso) e olharemos para a desigualdade como um problema “de todos”, não como um problema “dos outros”.
Já consigo ver uma alvissareira luz para as próximas eleições. Provavelmente, não estaremos tão sedentos por um “salvador” e prestaremos mais atenção aos projetos e à efetiva condição de implementá-los, ao invés de ficarmos nessa guerrinha pobre e rasteira que dissipa as forças nacionais e trava o nosso progresso.
Talvez o Brasil seja mesmo o país que mais aprenderá com este momento e, pela sua vocação, poderá ter ampla vantagem na nova demanda internacional por alimentos e commodities. Precisaremos da institucionalidade funcionando e de, pelo menos, mais de dois neurônios conduzindo o país. Pois, sob o filtro do ridículo, pedir o fechamento do Congresso equivale a saudar a mandioca, e estocar vento é tão burlesco quando exigir o fechamento do STF. Desse jeito “não acho que quem ganhar ou quem perder, nem vai ganhar nem perder, vai todo mundo perder...”. Lembram?!