Só pode ter “uma cabeça de bode enterrada” nos campi das universidades brasileiras. Causa vergonha (e não é alheia) a leitura da mais nova publicação do QS Wold University Ranking – prestigiadíssimo relatório que analisa mais de 5.500 universidades pelo mundo e classifica as mil primeiras colocadas.
Entretanto, antes de anunciar o resultado, são necessárias algumas premissas, pois o desempenho acadêmico de um país não costuma ser algo muito desconectado da economia e de outros indicadores de qualidade de vida.
Analisemos: o Brasil é a oitava economia do mundo, o quinto país em extensão territorial, tem um dos maiores mercados consumidores, a melhor janela demográfica, junto com o Canadá tem 60% da água potável da terra, a maior área agricultável do planeta e, segundo dizem, Deus ainda é brasileiro! Com todos esses cartões de visita, o péssimo desempenho das nossas universidades parece oferecer uma pista sobre as razões do nosso atraso.
Temos cinco universidades entre as 500 melhores do mundo. A nossa tão celebrada USP está em 115ª colocação, enquanto a Universidade de Buenos Aires está em 66ª e a Universidade Nacional Autónoma do México em 100ª - é de doer! Não vamos considerar aqui Estados Unidos, Inglaterra e Suíça, porque seria até impróprio e poderia causar depressão.
E antes que iniciemos o nosso mais pernicioso vício ocupacional (culpar o carteiro pelo conteúdo da carta), é importante saber que o ranking é extremamente respeitado e tem pouquíssimas contestações. A análise é feita utilizando seis métricas com diferentes pesos. São elas: reputação acadêmica, reputação entre empregadores, proporção entre estudantes e professores, citações por acadêmico, proporção de professores internacionais e proporção de estudantes internacionais.
O que impressionou muito na publicação deste ano foi o fato de a Ásia (China, Hong Kong, Japão, Coreia do Sul, Taiwan e Malásia) ter 26 entre as 100 melhores. Vale lembrar que alguns desses países tinham indicadores sociais bem piores do que os nossos há menos de três décadas. Como sempre, temos algumas alternativas: sentar e chorar, culpar o governo, culpar os alunos, culpar os professores, os professores culparem o salário, acusar o ranking de ser uma facção comunista ou.... Corarmos pela vergonha, arregaçarmos as mangas, colocarmos a faca entre os dentes e, juntos, iniciarmos a solução do problema.
A minha sugestão? Copiemos! O benchmarking está aí para isso. Vamos escolher dez universidades com características que possam servir de modelo, e “importar” tudo o que for possível (inclusive arroz). Ah... Mas isto tiraria a nossa originalidade e a possibilidade de estarmos na vanguarda... É verdade, temos sido bastante originais na falta de financiamento à pesquisa (público e privado), no abismo de formação das crianças e jovens e na produção de conteúdo acadêmico irrelevante. É que a roda foi inventada no final do período neolítico, mas há aqueles que insistem em reinventá-la. Gostam de viver, como se diz, na vanguarda do atraso.
Vamos tentar, pelo menos, reduzir a mediocridade. Roberto Campos fez uma bela observação sobre o Congresso que pode, com adaptações, ser aplicada às nossas universidades. Ele disse: “Quando cheguei ao Congresso, queria fazer o bem. Hoje, acho que o que dá para fazer é evitar o mal.” Conseguíssemos isso na nossa academia, parte do trabalho já estaria feito!