Estamos vivendo um momento bem curioso. Sei que há muitos adjetivos sendo utilizados para definir o instante: desafiador, complicado, aterrorizante, delicado, confuso, único, decisivo etc... Eu escolhi “curioso” porque sou brasileiro.
Aqui estamos sempre alternando entre esperança e desespero, comédia e tragédia, euforia e depressão. Estabilidade é para países chatos. Nós conservamos o sedutor colorido da aventura e dos extremos. O “futuro” para nós é apenas um substantivo masculino que só serve para atrapalhar o nosso “hoje”.
Somos imprevidentes e acreditamos que poupança e investimento são luxos ou falta de fé. Compramos carros, geladeiras e fogões em financiamentos intermináveis, fazendo cálculo, quando muito, das primeiras dez prestações. Aprendemos a conviver com o “curto prazo” que nos foi imposto desde a Colônia e a estratégia de sobrevivência esteve sempre presente na nossa história.
Considerando que sobreviver é, por definição, uma emergência, forjamos, para o bem e para o mal, alguns traços marcantes da nossa identidade: Nós não projetamos/planejamos; somos os reis do improviso, o que nos faz valorizar muito mais o drible desconcertante do que o gol “de bico”; fazemos um churrasco na laje com cerveja e carne de terceira, comprometendo o orçamento do mês inteiro, mas mantendo uma alegria genuína e a certeza de que “dias melhores virão”.
Herdamos da pressão inflacionária o sentimento de urgência em ter que consumir hoje, para evitar a “remarcação” dos preços. É quase atávico. Mesmo os brasileiros que não presenciaram as maquininhas de “colar” todos os dias, novos preços nos produtos, sentem, inexplicavelmente, a comichão da pressa na hora de comprar.
Então, veio a pandemia e, com a recessão, temos a mais baixa Selic (taxa básica de juros) da história (2% ao ano e caindo). Experimentaremos a realidade “impensável” dos juros negativos (há muito praticados na Europa)? Difícil dizer. Mas se há algo que vai mudar é o nosso horizonte de planejamento financeiro. Estou seguro disso.
O brasileiro está fazendo um curso intensivo de educação financeira e vai aprender, com o “corona” e seus efeitos, que o futuro chega e que poupança e investimento são itens de primeira necessidade. Ainda seremos cobaias de políticas excêntricas e equivocadas, mas o vírus “pedagogo” vai harmonizar a nossa relação com essa coisa escura que é o futuro (Toquinho).
A nossa calculadora financeira passará a ser utilizada mais amiúde e diminuiremos o hábito de “descontar” o futuro a taxas obscenas. Não acredito que nos tornaremos entusiastas do longo prazo, até porque, como dizia Keynes: “No longo prazo, estaremos todos mortos”. O médio prazo já seria um salto de qualidade para nós!