Quando estreei esta coluna, tinha acabado de chegar da Áustria (Salzburg), onde um jornal local ocupava-se de comentar, monotematicamente, há quase 90 dias, acidente envolvendo alguns trens (com feridos e sem mortes). Envolto naquele ambiente de país estável, com um noticiário considerado até “enfadonho”, fiquei imaginando como seria encontrar um tema atual e envolvente para discorrer todas as semanas.
O tempo mostrou que no meu temor inicial eu não considerei a “variável” Brasil. Agora, difícil tem sido selecionar um, dentre tantos temas “atuais e envolventes”. Eis que, esta semana, deparo-me com a seguinte notícia: o número de Cadastros de Pessoas Físicas (regulares) supera em 12,5 milhões o número de habitantes. São 223,8 milhões de CPFs regulares contra uma população estimada em 211,4 milhões pessoas.
Ah, só lembrando que cada pessoa tem um único CPF. A notícia, por si só já seria uma piada pronta. Todavia, resolvi levar a sério e fazer as seguintes perguntas: Onde está o erro? Temos mesmo mais 12,5 milhões de irmãos brasileiros? São CPFs criados para fraudar programas sociais? Isto é possível? Há algum outro lugar no planeta onde isto também acontece?
Pois é, a informação consta de um relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) que será analisado ainda esta semana pelo colegiado do órgão. Acompanharei os próximos capítulos não para avaliar o absurdo do tema (isto já está dado), mas apenas por curiosidade cidadã. Certamente aparecerão aqueles, os de sempre, que não enxergam gravidade no assunto, acham números coisas muito chatas e impertinentes e/ou preferem escondê-los na esperança (tosca) de que, com eles, os problemas também desapareçam.
Definitivamente, o Brasil não gosta de números. Basta ver os nossos resultados em testes internacionais de matemática (estão entre os piores do mundo). Tratamos estatística com jocosidade e ao sabor das ideologias. É comum, quando queremos desqualificar pesquisas eleitorais ou números que não nos agradam, repetirmos as seguintes frases: “Estatística é como biquíni. Mostra tudo menos o essencial”; “Existem três tipos de mentiras: as mentiras, as mentiras deslavadas e as estatísticas.”
Roberto Campos e Benjamin Disraeli devem revirar no túmulo todas as vezes em que são utilizadas as suas frases, retiradas de contexto e para desqualificar evidências que não nos são favoráveis. Por aqui, chegamos até a acreditar que escondendo números da pandemia poderíamos diminuir os mortos. Incrível!
Tornamo-nos especialistas na estratégia do avestruz que quando percebe o perigo enfia a cabeça no buraco. O problema é que, no mesmo ato, levanta o rabo que é por onde a “história entra”, lembrava Amilton Bueno! Tenho torcido para que a história congestione de “fatos” a cloaca dos nossos avestruzes até que, o peso do “conteúdo” os obrigue a levantar a cabeça!