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Conflito

A Bíblia não legitima a guerra: por que cristãos apoiam Netanyahu?

No meio de todo esse alvoroço e temor internacional, uma constatação causa espanto, especialmente, no Brasil, qual seja, o apoio manifestado por cristãos às investidas bélicas de Netanyahu

Publicado em 17 de Junho de 2025 às 02:00

Públicado em 

17 jun 2025 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

O mundo todo se encontra em estado de tensão e apreensão em razão dos últimos acontecimentos relacionados aos ataques de Israel às supostas centrais nucleares e militares do Irã que se iniciaram no ultimo dia 12 de junho e que foram imediatamente revidados.
As razões são conhecidas e se relacionam a disputas por poder, influência e territórios, em região estratégica do Oriente Médio. As justificativas, nesse caso, são conhecidas e já serviram como argumentos em outras guerras, qual seja, o alegado avanço do programa nuclear Iraniano.
Os risco de que esses conflitos possam dar início a uma terceira guerra mundial paira em todas as análises, mesmo naquelas vindas de setores mais otimistas quanto ao futuro da humanidade.
Independentemente da guerra de narrativas, o certo é que os riscos de que o conflito se expanda e cause graves danos à paz mundial é uma realidade a qual não podemos ignorar.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu Crédito: Alan Santos/PR
No meio de todo esse alvoroço e temor internacional, uma constatação causa espanto, especialmente, no Brasil, qual seja, o apoio manifestado por cristãos às investidas bélicas de Netanyahu, seja no massacre do povo palestino, seja nas investidas contra o Irã, sob a justificativa de que Israel é o povo escolhido por Deus e que, portanto, deve ser sustentado em orações e apoiado incondicionalmente, independentemente da natureza e dos fundamentos de suas ações.
Na minha opinião, esse apoio se sustenta em três premissas falsas ou equivocadas.
Em primeiro lugar, é preciso compreender que o Estado de Israel que foi reconstituído em 1948, não é a mesma coisa que o Israel de Deus de que a Bíblia fala. De uma maneira muito singela, é possível afirmar que os israelenses, de um modo geral, não são cristãos.
De acordo com o Escritório Central de Estatísticas de Israel (2024), apenas 2% da população é cristã, sendo que esse percentual é composto, principalmente, por árabes. A questão é complexa e não cabe nesse curto espaço de opinião, mas o certo é que, na perspectiva bíblica, o próprio conceito se altera, na medida da afirmativa paulina, de que “portanto não há mais judeu ou grego...”.
Em segundo lugar, o Novo Testamento, diferentemente do Velho Testamento, tem sua mensagem escorada nos ensinamentos de Cristo que estão baseados, fundamentalmente, na busca pela paz e pelo amor ao próximo. Jesus, o “príncipe da paz”, jamais apoiaria a morte de crianças inocentes, como o faz Netanyahu com as crianças palestinas.
Poderiam os cristãos orar por Israel, mas também pelos palestinos e por todos que sofrem no mundo. Estimular a guerra e as ações  por poder, território e interesses pessoais e políticos de Netanyahu e do Estado de Israel, fortemente armado, é antes de tudo anticristão.
Em terceiro lugar, ainda que o Estado de Israel representasse, efetivamente, o Povo de Israel referido na Bíblia como nação santa, povo escolhido e Netanyahu fosse o seu líder, o que de fato não é, Deus nunca legitimaria a perversidade e o tratamento desumano e cruel que vem sendo dado ao povo palestino.
As guerras encetadas por Netanyahu nada tem a ver com as guerras espirituais consideradas no Novo Testamento. A história bíblica é recheada de casos nos quais os líderes do povo de Deus, ao agir com perversidade, foram fortemente repreendidos e penalizados por sua crueldade. O Deus dos cristãos, amor em essência, jamais legitimaria a crueldade praticada por cristãos, contra quem quer que fosse, ainda que inimigos.
A beligerância de Netanyahu nada tem a ver com a paz referida pelos ensinamentos do Cristo que afirma serem bem aventurados os pacificadores. Aliás, a ingenuidade e a fragilidade cognitiva de muitos cristãos é reflexo da preguiça intelectual pela leitura e compreensão dos acontecimentos e dos cenários que têm sido uma tônica no meio cristão nos últimos tempos.
Deixar-se conduzir por fake news disseminadas por políticos e donos do poder econômico, que manipulam os algoritmos, se deixando levar, sem qualquer discernimento acerca da verdade por falta de leitura e conhecimento seja da Bíblia seja do conhecimento humano, é abrir mão da própria autonomia intelectual e espiritual, tornando-se massa de manobra de interesses que nada têm de sagrados ou éticos.
Acreditar que lutas por poder e por dominação, tais quais têm sido travadas por Israel, nas disputas políticas no Brasil e nos EUA e em várias partes do mundo, ou lutas espirituais do mal contra o bem, é de uma ingenuidade assombrosa.
A ambição desmedida por poder e interesses econômicos tem levado ao uso da força que mata, destrói o homem e a natureza e que oprime com crueldade incomensurável.
O verdadeiro cristianismo se compromete com a paz e não se coloca a serviço de interesses espúrios de políticos e do poder econômico que a tudo controla e manipula, inclusive a fé. A tentativa de justificar guerras em nome de Deus ou de apoiar Israel em suas investidas bélicas não encontra respaldo nas doutrinas cristãs.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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