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Sociedade

A incômoda realidade das estatísticas sobre o racismo no Brasil

Argumentos como a existência do racismo reverso demonstram falta de leitura para compreender o assunto pelas lentes da racionalidade científica

Publicado em 10 de Maio de 2022 às 02:00

Públicado em 

10 mai 2022 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Kevinn, 16 anos, morreu após esperar horas dentro de uma ambulância em Vila Velha
Kevinn, 16 anos, morreu após esperar horas dentro de uma ambulância em Vila Velha Crédito: Arquivo pessoal
Os números revelam aquilo que muitos se esforçam para negar. O racismo existe e não há como ocultar suas trágicas e injustas consequências. Durante todos esses anos em que tenho me manifestado publicamente sobre o racismo, seja  por meio de artigos, seja em  entrevistas, tenho  sido sistematicamente confrontada por pessoas brancas que, incomodadas com minhas afirmações, utilizam-se de exemplos de situações idênticas ocorridas com pessoas brancas para provar que o racismo não existe e que há uma tentativa dos negros de se “aproveitarem” disso para obterem vantagens pessoais ou criarem situações nas quais se coloquem como vítimas. 
Eu escuto a todas as pessoas com respeito e atenção. Procuro dialogar com elas de forma racional por meio de argumentos lógicos e evidências científicas que atestam minhas afirmativas. Não tem sido tarefa fácil, entretanto, já que, para muitos, não importam os números, mas o sentimento que têm a respeito do assunto.
De um modo geral, são pessoas boas, honestas e comprometidas com a justiça,  que não enxergam o problema a partir de uma análise teórica e metodológica, mas exclusivamente pautada em seus sentimentos do que é justo e do que não é justo. Não conseguem compreender a histórica discriminação e desigualdade que, no Brasil, tem início com a colonização e a escravidão dos negros africanos. 
Certamente não pararam para analisar o contexto político e social no qual se deu a  abolição da escravatura, no qual negros foram jogados na extrema miséria, absolutamente vulnerabilizados, abandonados pelo Estado, enquanto os senhores brancos foram indenizados, perpetuando as condições de escravidão agora sobre o nome de liberdade.   
Vivemos em uma sociedade na qual o racismo está estrutural e institucionalmente consolidado. Ele está cristalizado de tal forma que se naturalizou entre nós. Negá-lo é quase uma obrigação para pessoas brancas, já que afirmá-lo implica em reconhecer a necessidade de mudanças sociais que poderiam levar à perda de privilégios que não percebemos como tal. Admiti-lo seria aceitar que temos nos beneficiado de uma condição de tratamento injusto e não nos percebemos como pessoas injustas. 
Olhamos para nós mesmos a partir das lentes afetuosas e amorosas de pessoas que se imaginam boas, honestas e justas. E somos, já que não o fazemos de forma dolosa e que não há uma intencionalidade racional de prejudicar alguém.  O argumento que usa a existência de  racismo reverso a partir do qual se tenta afirmar um pretenso racismo de negros contra brancos é falta de leitura suficiente que permita compreender o assunto pelas lentes da racionalidade científica e da compreensão teórica necessária a uma fundamentação lógica.
Os números estão aí a nos mostrar que o racismo é uma cultura a ser combatida e que ele é injusto, cruel e que depõe contra a nossa humanidade. Afirmar uma condição de desigualdade e injustiça em razão da raça não implica em  negação de que brancos também passem por condições  de sofrimento. O problema que se apresenta é que negros sofrem mais do que brancos em qualquer análise que se proponha a fazer. Se não vejamos:

  1. Crianças negras tem 25% mais risco de morrer antes de fazer um ano do que crianças brancas. Como justificar esse dado que nos é fornecido pela Unicef (Fundo  das Nações Unidas para a Infância) fora de uma análise que contemple  a vulnerabilidade social e o racismo?
  2. Mulheres negras têm 50% mais chance de não receber anestesia durante a “episiotomia” (prática não mais recomendada de incisão na região do períneo durante o parto, mas ainda praticada  no Brasil) do que mulheres brancas. Considerando que a pesquisa em tela, realizada pela Fiocruz,  acompanhou 23 mil mulheres no Brasil, chegando a essa conclusão, torna-se difícil encontrar justificativa outra que explique essa “opção preferencial” das mulheres negras por não receber anestesia em um momento tão crítico de suas vidas. 
  3. Mulheres negras tem 33,8 % mais chance de não terem acompanhantes durante o parto do que mulheres brancas. Esse dado, que nos é fornecido pela mesma pesquisa desenvolvida pela Fiocruz, aponta para o descaso e desconsideração para com mulheres negras. Certamente que a solidão nesses momentos  não é uma opção dessas  mulheres, mas um condicionamento do sistema que lhes impõe esse estado de abandono e vulnerabilidade.
  4. 67% das crianças e adolescentes que estão trabalhando no Brasil são negras.  Além de negras são pobres. A associação entre negritude e pobreza acaba por tornar as ruas o lugar de acolhimento de grande parte delas. O abandono social amplia as condições de vulnerabilidade, determinando o futuro incerto, precário  ou a criminalidade como único caminho previsível.
  5. Apenas 1,8 % dos médicos se declararam negros no levantamento da Demografia Médica no Brasil realizado em 2018. 16,2 % se declararam pardos. Em um país com predominância de pessoas negras e pardas, que totalizam 56,2% da população, dividida respectivamente em 46,8 % e 9,4%, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE),  torna-se quase impossível encontrar fundamentação para essa radical desigualdade. Não há como justificar esses dados  com base na ideia de que exista uma vocação natural maior para o exercício da medicina entre pessoas brancas e de renda familiar elevada que fizeram o ensino médio em escolas particulares. 
O inventário  de evidências científicas que comprovam a desigualdade racial e o racismo estrutural, institucionalizado, enraizado   e cristalizado na sociedade brasileira tornam frágeis quaisquer negativas de ocultamento dessa injusta condição que fragiliza nossa democracia, confronta nossos discursos de igualdade e nos coloca diante da falta de credibilidade argumentativa daqueles que persistem em recusar-se a enxergar o óbvio.
Nesse sentido, quando afirmamos que determinada situação, como a morte de uma criança negra dentro de uma ambulância na porta de um  hospital, é fruto de desprezo por corpos negros, não estamos afirmando  que esse ou aquele profissional é, individualmente, racista. Estamos reconhecendo, sim,  que o racismo estrutural e institucionalizado em nosso país nos constrange a situações como essas.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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