Os números do estupro no Brasil são assustadores e o silêncio conivente de tantos sustenta a histórica cultura de violação dos corpos femininos. Segundo os dados do Mapa de Segurança Pública de 2025, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, tivemos, entre os anos de 2020 e 2024, um aumento de 25,8% nos casos de estupros no país.
Em 2024, por exemplo, a cada 6 minutos, uma mulher foi estuprada, sendo que, desses estupros, 76,8% foram considerados estupros de vulneráveis, por terem sido cometidos contra meninas menores de 14 anos. Registre-se, ainda, que 61,3% delas tinham entre 10 e 13 anos.
Essas meninas e mulheres não são objetos que estão ao dispor dos desejos ditos incontroláveis dos homens e, por isso mesmo, considerados culturalmente como “desculpáveis” ou ocasionais. São corpos objetificados, transformados em coisa sem valor, que podem ser usados e desprezados, na mesma medida em que servem como manifestação de poder de homens, quase sempre, impotentes em essência.
Mais da metade delas, 55,6%, são meninas pretas já multiplicadamente vulnerabilizadas. A casa, lugar no ideário social considerado como refúgio e segurança, é, na realidade, a “rua escura” que provoca medo e desespero, já que 65,7% desses estupros são cometidos dentro das próprias casas.
Esses números, à primeira vista assustadores, são, de fato, apenas uma pequena parcela da dimensão inimaginável do problema. A subnotificação é uma questão real, concreta, incontestável.
O silêncio é a estratégia utilizada pelas vítimas para não se revitimizarem infindavelmente, expondo-se a críticas e culpabilização por uma sociedade machista e patriarcal, que joga sobre os ombros femininos a responsabilidade por suas próprias tragédias e violações.
Arma protetiva da privacidade, guardiã da dor e da vergonha, o silêncio é a garantia masculina da validação por uma sociedade hipócrita e insensível, não disposta a sair de sua zona de conforto para oferecer proteção e dignidade.
Manter olhos e ouvidos vendados é a estratégia utilizada pelos “homens” de bem, conservadores, guardiões da família, da religião e da honra, de uma sociedade falsamente comprometida com valores do cristianismo de conveniência política e social.
O problema não é local, é global. Segundo o Unicef, uma em cada oito meninas e mulheres sofreram estupro ou abuso sexual antes dos 18 anos. Se incluirmos nessa estatística os crimes de natureza virtual e verbal, esse número sobre para um em cada cinco.
São milhões de meninas e mulheres em todo o mundo, cerca de 650 milhões, segundo o Unicef, que ficarão com suas vidas marcadas para sempre, considerando que não há como apagar da memória uma violência dessa natureza, especialmente quando ocorre na infância.
Impactos múltiplos decorrentes desses estupros se manifestarão ao longo da vida das mulheres, comprometendo seu futuro, sua felicidade, sua dignidade, sua saúde, sua vida profissional. Estudos científicos publicados em periódicos altamente respeitados na comunidade científica internacional, apontam que os traumas causados por esse tipo de violência levam as mulheres a sofrerem com altos índices de ansiedade, depressão, problemas de saúde mental dependentes de medicação, dificuldades de estabelecer relações amorosas saudáveis, isolamento social, abuso de álcool e outras drogas, bem como risco de suicídio.
Enfim, vidas comprometidas para sempre pelo descaso público e por uma cultura que se sustenta em imperativos categóricos, inclusive religiosos, que vulnerabilizam as mulheres e as tornam vítimas fáceis desse tipo de crime.
Um dado alarmante que precisa ser repetido todos os dias, para que não nos esqueçamos dele, é o número de meninas menores de 14 anos que engravidam vítimas de estupro e que por não saberem de seus direitos, ou por serem desaconselhadas criminosamente, seja por religiosos, seja por familiares, seja por profissionais de saúde, seja por representantes do próprio estado, mantêm gravidezes que comprometerão suas vidas para sempre, interrompendo sua infância, seu direito à educação, à saúde, a ser criança, a ter um futuro digno, sem terem que conviver para sempre com a lembrança viva da violência que sofreram ou que ainda sofrem.
Apesar do aborto ser legal no Brasil em caso de gravidez decorrente de estupro, cerca de 11 a 14 mil meninas menores de 14 anos se tornaram mães nos últimos anos. Apenas 1,1% das gravidezes decorrentes de estupro conseguiram ter acesso ao seu direito ao aborto legal.
A pergunta que fica é: por que nossos parlamentares, membros do Legislativo, do Executivo, dos órgãos do sistema de justiça, dos médicos, religiosos e tantos outros, se preocupam tanto com as questões relacionadas ao aborto, muitas delas já decididas no arcabouço normativo brasileiro como legais, e se preocupam tão pouco com as milhares de meninas e mulheres estupradas todos os dias, sem que nada seja feito para reverter esse horror que nos envergonha, que compromete nossa consciência moral, nos brutalizando e nos apequenando enquanto humanos que tentam construir uma sociedade justa, onde a dignidade seja direito de todos e dever do Estado?