O fetiche pela ocupação de uma cadeira no STF ou de um dos ministérios no governo Bolsonaro tem levado à desmoralização e à exposição pública vexatória personagens antes respeitados em seus campos originários de atuação.
Esses personagens são protegidos, no exercício de suas funções anteriores, das investigações da imprensa e da cruel curiosidade de um público que escrutina cada área da vida daqueles que se inflamam no desejo de ascensão e reconhecimento, em busca de poder, prestígio e respeito, além, claro, do alargamento dos caminhos que levam a status econômico superior.
Muitos têm visto suas imagens de respeitabilidade sendo destruídas a partir da exibição de seus frágeis e, muitas vezes, inflados indevidamente, currículos, de seus discursos demonstrativos da subserviência calculista àquele que desejam agradar com vistas a obtenção do cargo almejado e de sua ignorância histórica, cultural, social, jurídica e, até mesmo, pasmem, seus parcos conhecimentos teológicos, que vivem a ensinar em suas comunidades religiosas.
André Mendonça, um pastor presbiteriano, provavelmente amado e respeitado em sua comunidade, afável no trato, servidor público respeitado nos limites das exigências de seu cargo, professor universitário, sucumbiu, como tantos, ao fetiche do poder e, em especial, à promessa de que a próxima vaga do STF seria ocupada por alguém terrivelmente evangélico.
Pobre André, peça da engrenagem de desmonte do Estado laico. Antes, defensor da laicidade e agora, protagonista do aparelhamento do Estado por uma direita cristã, de discurso falso moralista, característico e reprodutivo do neoconservadorismo norte-americano que, irrefletidamente, importamos.
Pobre André, que mais se imiscui em práticas autoritárias, violentas e sectárias do que propriamente em práticas sustentadoras do ideal cristão de amor, compaixão e solidariedade.
Pobre André que, no fetiche do poder e do sonho da cadeira do STF, vê sua credibilidade como cristão ser arranhada ao chamar o presidente Bolsonaro de profeta, demonstrando raso conhecimento teológico e envergonhando os cristãos que diz representar.
Pobre André, advogado da União, com 20 anos de carreira sólida, que se vê na estapafúrdia condição de ressuscitador da Lei de Segurança Nacional para a defesa do indefensável.
Pobre André, que em atendimento à determinação presidencial contrária ao fechamento das igrejas, e à imposição de grupos religiosos que preferem ver a população sucumbir à Covid 19 a assistir a queda vertiginosa de seus dízimos, se vê constrangido a utilizar o frágil argumento de que o transporte público e os voos aéreos continuam lotados.
Pobre André, que em recente discurso no STF, imaginando-se, talvez, em um templo religioso, abdica da racionalidade necessária como Advogado Geral da União de um Estado laico para fazer uma pregação de sua fé, sem considerar que o destaque que deveria ter dado à Constituição em nada seria desmerecedor de uma fé prática, vivida no compromisso ético-profissional e no respeito àqueles que professam outras crenças.
Assustados com a debilidade jurídica de André Mendonça e com seu desvario fundamentalista, não evidenciado tão acintosamente antes da premência em agradar ao presidente, ministros do STF já se organizam no sentido de alertar para o risco do declínio jurídico constitucional do STF tendo que conviver com mais um ministro da lavra de Jair Bolsonaro.
Pobre André, vergonha do Evangelho e das carreiras jurídicas, que no fetiche do sonho de ser ministro do STF se vê exposto em seu saber teológico e jurídico, fragilizado pelo conflito de interesses que o faz perder a dignidade e a honra.