Durante o ano de 2019 e início de 2020, assistimos a diversos ataques às instituições de ensino superior nos quais a comunidade científica brasileira foi alvo de agressões e assédio de todas as naturezas.
Sugestões de que professores fossem filmados e denunciados foram feitas por membros do Executivo e alimentadas nas redes sociais por grupos conservadores que tentavam constranger os educadores, colocando a liberdade de cátedra, direito tão caro à construção de um pensamento livre e crítico, como algo a ser restringido em nome da instalação de um modelo educacional de base limitada, ultraconservadora e com vistas a um retorno a teses que fazem sucumbir a ciência a um proselitismo religioso, incompatível com o paradigma inaugurado com a revolução científica no século XVI.
Os objetivos por detrás dessas narrativas de desqualificação das instituições de ensino superior e da ciência estavam claramente evidenciadas para os mais atentos. Entretanto, para a grande maioria das pessoas, que se deixam capturar por discursos, falsos e fáceis, disseminados pelas redes sociais, o que se colocava como verdade era que as instituições de ensino haviam se transformado em antros de perdição e desperdício de recursos, fossem eles públicos, fossem privados.
O obscurantismo toma conta das narrativas e o retorno ao Período das Trevas se apresenta de forma impositiva e aparentemente irreversível. O discurso religioso de matriz única, incompatível com a laicidade do Estado, assume a liderança, violando direitos elementares, tais como o da liberdade religiosa e o da separação Estado x Igreja.
A educação deixa de ser o caminho para a construção de um futuro iluminado pelo conhecimento para se transformar em um modelo rígido de transmissão de um padrão único de formação de uma massa não crítica, não reflexiva e reprodutiva exclusiva de dogmas já há muito superados pela ciência.
A fé, ou a falta dela, condição demarcatória de nossa liberdade religiosa e de nossa individualidade na relação com o transcendente, passa a ser condição obrigatória de submissão do Estado a um único ditame, qual seja, o cristianismo, violando o direito daqueles que creem em outros deuses ou até que não creem em nenhum.
Cientistas são colocados de pires nas mãos, tendo que interromper suas investigações, dispensar seus orientandos e arquivar projetos de pesquisa que poderiam representar soluções inovadoras e avanços em todas as áreas do saber humano.
Recursos de pesquisa são desviados para outros setores por meio de políticas de favorecimento ao mercado em detrimento da educação e da ciência. Os programas de concessão de Bolsas passam por restrição orçamentária, reduzindo-se o incentivo à ciência e tecnologia.
Sem qualquer justificativa minimamente razoável, até a participação de pesquisadores em eventos científicos, ainda que custeada por eles próprios, passa a ser objeto de restrições em instituições públicas.
As torneiras se fecharam e educadores e pesquisadores passaram a sofrer desqualificações e descréditos alimentados por um governo que prefere se submeter aos ditames autoritários de grupos religiosos, sempre interessados na manipulação das massas em nome de Deus. Submete-se também a pseudoeducadores/filósofos que, incapazes de sustentar o debate acadêmico, científico, se utilizam de argumentos de autoridade, em razão de sua influência ou dos cargos que ocupam, sem qualificação para tal, com vistas a impor verdades sustentadas em suas crenças e interesses.
Mas eis que surge a Covid-19 e os cientistas, com suas pesquisas e investigações, antes desvalorizadas e desqualificadas, com seus laboratórios desmontados e sem equipamentos, com suas equipes desfalcadas e desmotivadas, seja pelos repetidos açoites e massacres verbais, seja pelo assédio e violação de direitos, são chamados a encontrar soluções para um pequeno, incontrolável e irreverente organismo vivo, chamado coronavírus, que teima em desafiar a fé dos que de forma arrogante e prepotente desconsideraram seu poder destruidor de vidas e de economias, parando o mundo em razão do que eles denominaram de “gripezinha” .
A ignorância, estupidez do saber, mais uma vez se manifesta. A ciência não se faz por determinação, por decreto ou por vontade dos governantes. Ela tem um tempo lógico, métodos, técnicas e sistemáticas que não se submetem aos desejos e tempos daqueles que se julgam superiores e a desqualificam.
Não fosse a nobreza dos cientistas e sua avaliação crítica, inteligente e ética da gravidade do momento, esta seria a hora de uma vingança perversa. Diferentemente daqueles que os aviltaram, os cientistas se colocaram, com rapidez, a investigar os caminhos possíveis de controle, cura e prevenção.
Ainda que os interesses econômicos estejam intermediando esses movimentos, é a capacidade inventiva dos cientistas, não apenas daqueles que se debruçam nos laboratórios para descobrir vacinas e medicamentos, mas também de todos os cientistas, em todas a áreas do conhecimento, que deverão agora se colocar em movimento para descobrir caminhos para aplainar os ônus de uma condição social de extrema desigualdade que faz agravar a crise.
São os epidemiologistas, os cientistas sociais, os da saúde coletiva, os psicólogos, os médicos, os enfermeiros, os educadores, os cientistas políticos, os juristas e tantos outros que deverão ser ouvidos com respeito e humildade por economistas, políticos e pelos agentes do mercado.
Há um tempo cronológico impossível de ser superado. Ainda demoraremos a ter as vacinas e os medicamentos para a cura dessa enfermidade que nos devora o corpo, a alma e as economias.
De nada adiantou a arrogância do presidente da nação mais poderosa do mundo ao determinar que os cientistas de seu país descobrissem a solução para o problema em tempo recorde.
Nem sempre o dinheiro e o poder político são as soluções para todos os problemas que haveremos de enfrentar. Um pequeno vírus nos humilha e submete. Ainda temos muito a aprender. Talvez, entre os muitos aprendizados necessários e urgentes, possamos valorizar educadores, cientistas e cada pessoa humana que conosco compartilha o mundo da vida.