Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Coronavírus

Antes desacreditados, cientistas são chamados para encontrar solução

Nesta crise, são os epidemiologistas, cientistas sociais e os da saúde coletiva, psicólogos, médicos, enfermeiros, educadores e tantos outros que deverão ser ouvidos com respeito e humildade por economistas, políticos e agentes do mercado

Publicado em 20 de Abril de 2020 às 05:00

Públicado em 

20 abr 2020 às 05:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Um exame sorológico capaz de identificar a contaminação pelo vírus Zika mesmo depois da infecção por dengue começou a ser comercializado no país
Ciência busca curas e tratamentos para a Covid-19 Crédito: Sumaia Villela/Agência Brasil
Durante o ano de 2019 e início de 2020, assistimos a diversos ataques às instituições de ensino superior nos quais a comunidade científica brasileira foi alvo de agressões e assédio de todas as naturezas.
Sugestões de que professores fossem filmados e denunciados foram feitas por membros do Executivo e alimentadas nas redes sociais por grupos conservadores que tentavam constranger os educadores,  colocando a liberdade de cátedra, direito tão caro à construção de um pensamento livre e crítico, como algo a ser restringido em nome da instalação de um modelo educacional de base limitada, ultraconservadora e com vistas a um retorno a teses que fazem sucumbir a ciência a um proselitismo religioso, incompatível com o paradigma inaugurado com a revolução científica no século XVI.
Os objetivos por detrás dessas narrativas de desqualificação das instituições de ensino superior e da ciência estavam claramente evidenciadas para os mais atentos. Entretanto, para a grande maioria das pessoas, que se deixam capturar por discursos, falsos e fáceis, disseminados pelas redes sociais, o que se colocava como verdade era que as instituições de ensino haviam se transformado em antros de perdição e desperdício de recursos, fossem eles públicos, fossem privados.
O obscurantismo toma conta das narrativas e o retorno ao Período das Trevas se apresenta de forma impositiva e aparentemente irreversível. O discurso religioso de matriz única, incompatível com a laicidade do Estado, assume a liderança, violando direitos elementares, tais como o da liberdade religiosa e o da separação Estado x Igreja.
A educação deixa de ser o caminho para a construção de um futuro iluminado pelo conhecimento para se transformar em um modelo rígido de transmissão de um padrão único de formação de uma massa não crítica, não reflexiva e reprodutiva exclusiva de dogmas já há muito superados pela ciência.
A fé, ou a falta dela, condição demarcatória de nossa liberdade religiosa e de nossa individualidade na relação com o transcendente, passa a ser condição obrigatória de submissão do Estado a um único ditame, qual seja, o cristianismo, violando o direito daqueles que creem em outros deuses ou até que não creem em nenhum.
Cientistas são colocados de pires nas mãos, tendo que interromper suas investigações, dispensar seus orientandos e arquivar projetos de pesquisa que poderiam representar soluções inovadoras e avanços em todas as áreas do saber humano.
Recursos de pesquisa são desviados para outros setores por meio de políticas de favorecimento ao mercado em detrimento da educação e da ciência. Os programas de concessão de Bolsas passam por restrição orçamentária, reduzindo-se o incentivo à ciência e tecnologia.
Sem qualquer justificativa minimamente razoável, até a participação de pesquisadores em eventos científicos, ainda que custeada por eles próprios, passa a ser objeto de restrições em instituições públicas.
As torneiras se fecharam e educadores e pesquisadores passaram a sofrer desqualificações e descréditos alimentados por um governo que prefere se submeter aos ditames autoritários de grupos religiosos, sempre interessados na manipulação das massas em nome de Deus. Submete-se também a pseudoeducadores/filósofos que, incapazes de sustentar o debate acadêmico, científico, se utilizam de argumentos de autoridade, em razão de sua influência ou dos cargos que ocupam, sem qualificação para tal, com vistas a impor verdades sustentadas em suas crenças e interesses.
Mas eis que surge a Covid-19 e os cientistas, com suas pesquisas e investigações, antes desvalorizadas e desqualificadas, com seus laboratórios desmontados e sem equipamentos, com suas equipes desfalcadas e desmotivadas, seja pelos repetidos açoites e massacres verbais, seja pelo assédio e violação de direitos, são chamados a encontrar soluções para um pequeno, incontrolável e irreverente organismo vivo, chamado coronavírus, que teima em desafiar a fé dos que de forma arrogante e prepotente desconsideraram seu poder destruidor de vidas e de economias, parando o mundo em razão do que eles denominaram de “gripezinha” .
A ignorância, estupidez do saber, mais uma vez se manifesta. A ciência não se faz por determinação, por decreto ou por vontade dos governantes. Ela tem um tempo lógico, métodos, técnicas e sistemáticas que não se submetem aos desejos e tempos daqueles que se julgam superiores e a desqualificam.
Não fosse a nobreza dos cientistas e sua avaliação crítica, inteligente e ética da gravidade do momento, esta seria a hora de uma vingança perversa. Diferentemente daqueles que os aviltaram, os cientistas se colocaram, com rapidez, a investigar os caminhos possíveis de controle, cura e prevenção.
Ainda que os interesses econômicos estejam intermediando esses movimentos, é a capacidade inventiva dos cientistas, não apenas daqueles que se debruçam nos laboratórios para descobrir vacinas e medicamentos, mas também de todos os cientistas, em todas a áreas do conhecimento, que deverão agora se colocar em movimento para descobrir caminhos para aplainar os ônus de uma condição social de extrema desigualdade que faz agravar a crise.
São os epidemiologistas, os cientistas sociais, os da saúde coletiva, os psicólogos, os médicos, os enfermeiros, os educadores, os cientistas políticos, os juristas e tantos outros que deverão ser ouvidos com respeito e humildade por economistas, políticos e pelos agentes do mercado.
Há um tempo cronológico impossível de ser superado. Ainda demoraremos a ter as vacinas e os medicamentos para a cura dessa enfermidade que nos devora o corpo, a alma e as economias.
De nada adiantou a arrogância do presidente da nação mais poderosa do mundo ao determinar que os cientistas de seu país descobrissem a solução para o problema em tempo recorde.
Nem sempre o dinheiro e o poder político são as soluções para todos os problemas que haveremos de enfrentar. Um pequeno vírus nos humilha e submete. Ainda temos muito a aprender. Talvez, entre os muitos aprendizados necessários e urgentes, possamos valorizar educadores, cientistas e cada pessoa humana que conosco compartilha o mundo da vida.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Lula fala em 'reciprocidade' após EUA pedirem saída de delegado da PF envolvido em caso Ramagem
Alemão do Forró grava novo audiovisual em comemoração aos 15 anos de carreira.
Alemão do Forró grava novo projeto audiovisual em Goiânia: “Carrego o ES no DNA”
Ana Paula Renault na casa do BBB
BBB 26: Ana Paula relembra conversa com o pai antes de entrar no programa

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados