O castelo está a ruir e o circo pegando fogo, mas o espetáculo continua a movimentar atores que, atraídos pelo poder, ainda que cientes de seu curto tempo de reinado, em razão dos humores e interesses presidenciais, se submetem à expropriação de sua dignidade, honra e credibilidade, por um ou por nenhum momento de glória.
Teich saiu sem ter tido um momento que seja de reconhecimento, prestígio ou honraria pública.
A saída do ministro da Saúde, na última sexta-feira (15), humilhado, envergonhado e exposto em suas fragilidades, vilezas e deslustres, até então ocultados por seu sucesso empresarial, leva-nos a indagar as razões que têm sustentado essa fila infindável de pessoas, que caminham para a forca, sabendo, de antemão, que não haverão de fugir do destino comum a todos que se oferecem ao projeto bolsonariano de poder.
" O esvaziamento técnico do Ministério da Saúde, em plena crise sanitária, com a ocupação por militares de cargos que exigem expertise epidemiológica, sanitária, de gestão de crises e de pandemias, aponta no sentido de que iremos mergulhar em um estado incontrolável de ascensão do número de mortes e de descontrole sanitário, capaz de dizimar uma parcela significativa da população que luta e resiste na expectativa de encontrar segurança e esperança"
O problema se agudiza no Ministério da Saúde. Em plena crise sanitária, a maior e mais grave já vivida no Brasil, considerando sua dimensão, complexidade e condução política, o presidente faz uma opção declarada e sustentada pelo obscurantismo, por uma política de governo pautada nos pressupostos da anticiência e na lógica militar de base autoritária.
Não importa o nome, ou a pessoa que ocupe o gabinete ministerial, e ostente o título de ministro. O que conta é que o desmonte técnico do Ministério da Saúde já alcançou níveis críticos, permitindo-nos afirmar que sua ocupação militar já coloca em risco a vida e a saúde de todo cidadão brasileiro. Essa ocupação, em certa medida, acarreta consequências irreversíveis, que se avolumam na medida em que se amplia o lapso temporal no qual o problema perdura.
Acompanhamos, ao longo do último ano e início de 2020 a ascensão de um modelo de política de governo que não respeita políticas de Estado e nem o paradigma da Ciência moderna que, nas últimas décadas, notadamente após a redemocratização do país e a promulgação da Constituição da República, vem regendo a história sanitária brasileira.
Aqueles que alimentam expectativas e sonhos otimistas da ocorrência de uma possível reversão, por tomada de consciência dos riscos de manutenção do modelo de economia capitalista, em razão do desnude das consequências do modelo ultraliberal, que levou o Brasil a transferir renda para bancos, banqueiros e empresários, de forma a constituir uma realidade de perversa desigualdade social, começam a perceber que os que estão no topo da pirâmide, e que concentram as riquezas nacionais, não se intimidarão com a Covid-19 e a possibilidade de uma avalanche de mortes, especialmente se elas ocorreram na base da pirâmide.
O esvaziamento técnico do Ministério da Saúde, em plena crise sanitária, com a ocupação por militares de cargos que exigem expertise epidemiológica, sanitária, de gestão de crises e de pandemias, de conhecimentos acerca de complexo econômico e industrial da saúde, de negociações internacionais e, com nenhuma ou quase nenhuma compreensão acerca do Sistema Único de Saúde, aponta no sentido de que iremos mergulhar em um estado incontrolável de ascensão do número de mortes e de descontrole sanitário, capaz de dizimar uma parcela significativa da população que luta e resiste na expectativa de encontrar segurança e esperança.
Um cego em meio ao tiroteio talvez fizesse uma gestão mais adequada da pandemia do que os militares estão fazendo desde a entrada de Teich e, certamente, continuarão a fazer a partir de agora.
" Implantar uma política de saúde militarizada é agravar as condições de saúde da população, exigindo que a abertura de covas, cuja imagem tanto choca as nossas retinas, transforme-se em uma política pública fomentada por um governo fascista, cruel, que se sustenta na ignorância de uns e no medo de outros"
A militarização nunca se mostrou eficaz no controle sanitário, em qualquer lugar do planeta, em qualquer tempo da história. A formação militar, rígida e controlada por sólida concepção hierárquica, não possibilita a compreensão necessária do intricado e multifacetado mundo do SUS.
Implantar uma política de saúde militarizada é agravar as condições de saúde da população, exigindo que a abertura de covas, cuja imagem tanto choca as nossas retinas, transforme-se em uma política pública fomentada por um governo fascista, cruel, que se sustenta na ignorância de uns e no medo de outros.
Defender a anticiência em pleno século XXI, quando o mundo científico, em sua quase totalidade, aponta no sentido de fortalecimento dos pressupostos técnico-científicos, com submissão radical e consistente às evidencias científicas, constitui-se razão de angústia e desesperança.
A anticiência, atrelada e ideologizada por interesses espúrios, de uma religiosidade atrasada, amante do cabresto e de uma dogmatização da vida, capitaneada por alguns militares de matriz violenta e saudosa do poder, pode nos levar à uma dizimação jamais imaginada a partir de parâmetros racionais de análise.
Não adianta trocar de ministros enquanto a luz não iluminar a política e as trevas prevalecerem sobre a claridade.
Enquanto a ignorância nos tentar convencer de que cientistas não são relevantes, de que universidades são lugares de viciados, desocupados e marginais, e que a cloroquina e o “isolamento vertical” são mais importantes do que condutas pactuadas na comunidade científica nacional e internacional e definidas como o único caminho para a minimização da crise, o destino que se nos apresenta é de dor, sofrimento, choro e morte.