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Fim do estado de emergência

Brasil está mais uma vez na contramão da OMS e da ciência

Aqueles que deveriam se manifestar neste momento - considerando sua expertise e acumulação técnico-científica, capacidade de análise epidemiológica, sanitária - nem sequer foram consultados

Publicado em 19 de Abril de 2022 às 02:00

Públicado em 

19 abr 2022 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Marcelo Queiroga, ministro da Saúde
Marcelo Queiroga, ministro da Saúde Crédito: Valter Campanato / Agência Brasil
Com o pronunciamento do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, no último domingo, decretando o fim do Estado de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional, o Brasil se distancia, mais uma vez, das diretrizes internacionais no enfrentamento da pandemia de Covid-19.
Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) propõe um plano estratégico para a saída da fase emergencial da pandemia, a partir de uma análise da conjuntura internacional que contemple a aceitação da impossibilidade do alcance de resultados eficazes de forma setorizada, localizada em países com maior ou menor capacidade de vacinação e controle sanitário, considerando a capilaridade e capacidade de difusão do vírus, o Brasil, de forma açodada e irresponsável, toma decisões fundamentadas exclusivamente nos interesses eleitoreiros do presidente da República.
Aqueles que deveriam, de fato, se manifestar nesse momento - considerando sua expertise e acumulação técnico-científica, capacidade de análise epidemiológica, sanitária - não foram sequer consultados.
Ao afirmar que saímos de uma pandemia para uma endemia, Marcelo Queiroga se esquece, ou finge esquecer, no afogadilho de atender, de forma irrestrita e subserviente, ao seu chefe, que esses conceitos estão consolidados na comunidade científica internacional, presentes nos principais manuais de epidemiologia e saúde coletiva do mundo, e que não cabe a ninguém, isoladamente, ainda que seja um ministro da Saúde, decretar o fim de uma pandemia e o nascimento de uma endemia.
Elas se constituem enquanto condições sanitárias reconhecidas pela comunidade científica, ainda que se possa admitir sua utilização política. Não podem ser o mero resultado do atendimento a um desejo do governante, comunicado à sociedade com um discurso de aparente valorização do SUS e submissão à ciência.
Para além das recomendações da OMS, países como os Estados Unidos reforçaram suas medidas sanitárias demonstrando que ainda não é hora de abandonar as máscaras e o investimento pesado em vacinação .
Olhando para o próprio umbigo, Queiroga e seu chefe genocida esquecem-se, ou demonstram não saber, que 34,4 % da população mundial ainda não recebeu nenhuma dose a vacina.
Em sua falta de empatia, solidariedade e inteligência olham para os países africanos, pobres e sem condições econômicas de alcançarem o patamar vacinal de países ricos, como se estivessem confinados em uma ilha sem comunicação com o restante do mundo.
Não conseguem perceber que no mundo global, pertencemos, todos, ao mesmo universo sanitário e, portanto, em codependência de condições de saúde. Ainda que não o fizéssemos por solidariedade e respeito humanitário, que o fizéssemos por inteligência sanitária. A OMS foi clara ao afirmar que "a Covid-19 representa um risco contínuo de propagação internacional e requer uma resposta internacional coordenada”.
Ao decidir na contramão das diretrizes emanadas pela OMS, o Brasil mais uma vez opta pela condição de pária internacional, colocando-se à margem das normas. Aliás, essa condição de marginalidade parece se confirmar como uma preferência do atual governo, em todas as áreas que nos colocarmos a analisar.
Estamos ainda lidando com um vírus relativamente desconhecido, que não respeita barreiras geográficas. Um vírus que pode comprometer o nosso futuro na Terra, se continuarmos a agir da forma como temos agido.
Sob o comando de mentes apequenadas e contaminadas, seja pelo fanatismo religioso que de tudo desdenha, seja pelos interesses econômicos que continuam a conduzir os destinos da nação e do Ministério da Saúde, em particular, certamente voltaremos a viver a trágica e dolorosa experiência de 2020 e 2021 na qual vimos partir a tantos que nos eram caros e cujas partidas deixaram órfãos de afetos e cuidados a tantos ao redor do planeta.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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