Na festa da “alegria”, aguardada por tantos com ansiedade e, para alguns, já iniciada há dias com os festejos pré-carnavalescos, o risco continua, certamente, a existir. Não é possível afirmar que a pandemia acabou e que já é possível circular livremente, sem qualquer tipo de restrição. Não voltamos ainda ao status quo anterior à decretação da Emergência Sanitária Internacional pela Organização Mundial de Saúde.
O ciclo de horror que vivenciamos em 2020, 2021 e parte de 2022, com as mortes sendo contabilizadas diariamente, provocando dor, medo, desestabilização social, econômica, política e de saúde física e mental, certamente está encerrado. O número de óbitos e de internações de pessoas nas UTIs do país é menor e as autoridades sanitárias já flexibilizaram as medidas de segurança como isolamento social e uso de máscaras.
Saímos da fase mais concentrada de responsabilidade pública para a fase de responsabilidade individual, onde o centro das decisões de controle parece deslocar a centralidade do Estado para o indivíduo.
O risco da contaminação pela Covid-19 ainda existe e isso é de conhecimento de todos. Entretanto, não há razões sanitárias para impedir qualquer tipo de realização de eventos como o carnaval, festa típica da cultura brasileira e marca de nosso país, registrada no calendário turístico internacional.
A questão a ser destacada é que a pandemia, de fato, ainda não acabou. O vírus continua presente, circulando livremente em várias partes do mundo e, ainda, haveremos de conviver com ele e suas variantes por longo tempo.
No típico carnaval brasileiro, festa das ruas por excelência, no qual o ajuntamento de pessoas se dá ao ar livre, os riscos são certamente menores do que aqueles eventos realizados em salões fechados e com alta concentração de pessoas.
O que não dá para esquecer, entretanto, é que, na mesma medida e tempo em que o controle estatal se reduz, amplia-se a necessidade da responsabilidade individual do cidadão.
A máscara precisará fazer parte de nossa cultura ainda por longo tempo e, talvez, para sempre. Os vírus, mutantes por excelência, continuarão a fazer estragos na saúde pública nacional, em menor ou maior grau, dependendo do processo de educação sanitária que conseguirmos implementar.
O problema sai da dimensão quase que exclusiva da responsabilidade estatal para uma dimensão mais educativa e de responsabilidade compartilhada entre o Estado e a pessoa.
Apesar do desejo intenso, reprimido por alguns há 3 anos, de comemorar o carnaval de forma intensa e livre, é preciso haver uma conscientização acerca da responsabilidade de cada cidadão na prevenção da doença. A propagação de vírus continua a ser um risco em eventos dessa natureza. É algo que estará presente em nossas vidas, considerando não apenas a Covid-19 mas todos os demais vírus de natureza respiratória, como a influenza, por exemplo.
Colocar em risco a vida e a saúde de outros, participando dos festejos com sinais característicos de doenças respiratórias, é, no mínimo, insensato e leviano. Recolher-se, utilizar máscaras e aguardar o tempo certo para divertir-se é sinal de educação cidadã, de respeito e solidariedade.
Fomentar uma cultura de responsabilidade social, na qual o outro ocupe lugar de importância na minha vida e na vida da comunidade, é algo que precisamos alimentar de forma gradativa e sistemática e não meramente impositiva.
A política de vacinação, tão desprezada pelos negacionistas da ciência, terraplanistas por interesse e conveniência, precisa ser uma das políticas de saúde com mais investimento público e esforço concentrado do Ministério da Saúde. Construir um projeto de educação sanitária consistente que se capilarize por todas as faixas etárias e núcleos sociais talvez seja o grande desafio da política pública de saúde no Brasil em 2023 e para os próximos anos.