O carnaval, símbolo máximo no país da alegria de um povo e de sua capacidade de se divertir, mesmo diante da maior dor, é sem sombra de dúvidas a festa por excelência da alegria, do congraçamento e da tentativa, meramente aparente, de construir uma igualdade solidária e afetiva que, de fato, não existe.
Ricos e pobres, homens e mulheres, brancos e pretos... se reúnem na avenida, fantasiados ou não, desfilando nas escolas de samba como se pertencessem todos a um mesmo núcleo social e a desigualdade fosse uma narrativa sem sentido, sem sustentação no mundo real.
O racismo, a machismo, o classismo, o capacitismo, e tantos outros ismos, ficam temporariamente em suspenso enquanto a escola desfila ou os blocos de carnaval vão sendo seguidos por uma multidão em êxtase, envolvida pela alegria contagiante e o batuque cadenciado dos tambores e bumbos operados com maestria pelos puxadores de samba.
São momentos de arrebatamento e deslumbre com as fantasias multicoloridas e conceitualmente concebidas por artistas especializados nesse tipo de vestimenta. A alegria é contagiante, a fantasia explode, os sonhos parecem se realizar com naturalidade. A alegria permite esquecer, ainda que temporariamente, as mazelas e desgraças que atingem a muitos dos que sambam felizes, esquecidos de sua miséria, exclusão e dor. Entre um fevereiro e outro a vida segue no mesmo ritmo e no mesmo tom que existia antes de a música tocar.
O certo é que o samba, assim como muitas expressões da cultura brasileira, não são criações originais nossas, tendo sido importadas dos povos africanos que aqui chegaram para serem escravizados e tornados objetos da exploração e objetificação dos corpos negros.
O samba é manifestação inequívoca de resistência ao apagamento da cultura, à opressão que se impõe no processo de escravização. É o grito de liberdade de quem se afirma sujeito da história, capaz de criar, impondo sua própria matriz identitária, sem sujeitar-se à cultura do colonizador que oprime, ofende, violenta e mata, seja o corpo, seja a subjetividade, seja a esperança.
É cultura de negros que com coragem enfrentam o desafio de denunciar as injustiças e a opressão, gritando, para que todos ouçam, que rejeitam a histórica desigualdade que lhes impuseram.
Diferentemente do que tentam nos inculcar, o carnaval não é a festa da inclusão e da igualdade. É a festa da alegria e da coragem de um povo que, apesar da tirania, do abuso e da opressão e da injustiça, foi capaz de preservar sua subjetividade, sua cultura, seus saberes e seus modos de ser no mundo.
É uma festa de negros que foram escravizados e jogados nas periferias das cidades, humilhados, desprezados, despossuídos, abandonados e desprotegidos pelo Estado brasileiro. Uma festa encantadora que os brancos invejam e querem tomar para si, ainda que inconscientemente, por se sentirem possuidores de direitos e de autoria criativa da cultura que desfila pela avenida, enquanto nos camarotes de luxo, a festa corre solta, regada a vinhos caros e o conforto, sem imaginar os sacrifícios feitos pela maioria para pagar a conta das fantasias sofisticadas que lhes permitem concorrer a campeãs do carnaval.
Em alguns estados, inclusive de maioria negra, como a Bahia, a festa dos negros está sendo cooptada pela elite branca, perdendo em muito seu caráter identitário de resistência e de denúncia das opressões que ainda permanecem e que têm se ampliado em nossos dias.