A pobreza moral, o déficit cognitivo, a falta de senso, a perversidade como modus operandi, a cegueira e a falta de empatia tomaram de assalto a muitos que antes eram respeitados em suas profissões, ou que, pelo menos, gozavam de uma imagem de credibilidade, hoje, totalmente desconstruída, sendo desveladas as incapacidades mentais, morais e as vilezas de caráter, expostas em gestos obscenos, palavras insensatas e ações criminosas.
O ministro Queiroga é o típico modelo representativo de homens que, em razão da sede de poder e do desejo de ocuparem cargos que consideram importantes e socialmente valorizados, venderam sua dignidade e honra, ficando totalmente expostos a uma condição de humilhante sujeição para se manterem em cargos que consideram maiores do que verdadeiramente são.
Se a linguagem é, de fato, a morada do ser, desveladora da intencionalidade da consciência, como afirmava Heidegger, o ministro Queiroga expôs publicamente os valores nos quais acredita e que conduzem seu agir no mundo.
Ao afirmar que o óbito infantil pela Covid não exige decisão emergencial para a vacinação de crianças de 5 a 11 anos, o ministro ignora, ou menospreza, as estatísticas que indicam a ocorrência de uma morte de criança por Covid-19 a cada dois dias no Brasil. Com essa afirmativa Queiroga foi ao fundo do poço na demonstração de sua desonra, insensibilidade e falta de caráter.
Um ministro empobrecido de qualificadores morais e intelectuais, subordinado a um presidente ainda mais desqualificado, afirma que a morte de uma criança a cada dois dias não é motivo suficiente para que o governo se apresse a tomar decisões com vistas a impedir que qualquer criança a mais venha a ser vítima do desgoverno que levou o Brasil à vexatória condição na qual nos encontramos hoje.
Uma criança só que seja vale um mundo inteiro, senhor ministro,e por ela o senhor deveria lamentar sua vergonhosa atuação à frente do Ministério da Saúde. Deveria trazer à memória e ser fiel ao juramento Hipocrático que fez quando de sua formatura.
Não bastasse a omissão assassina e despudoradamente criminosa com que o senhor e o governo ao qual o senhor serve e se submete em uma vassalagem obscena, que levou milhares a morte em uma política ora negacionista ora em negociatas corruptas e corruptoras, agora quer repetir o feito com as crianças brasileiras, indefesas por si mesmas.
Enquanto parte do mundo civilizado já está vacinando crianças de 5 a 11 anos sem que haja qualquer reação negativa que aponte para a existência de riscos, o senhor se recusa, mais uma vez, a seguir a ciência, por fidelidade canina àquele que o mantém no poder.
DESRESPEITO À CIÊNCIA
O presidente da República, a quem o senhor subordina seus conhecimentos e sua dignidade profissional e pessoal, sabidamente, não respeita a ciência e nem a vida daqueles que deveria proteger com políticas públicas reconhecidamente necessárias e indispensáveis diante da atual crise sanitária na qual continuamos mergulhados.
Após a aprovação da Anvisa para uso da vacina contra Covid 19 em crianças de 5 a 11 anos, o ministro da Saúde, cumprindo seu papel de gestor maior do Sistema Único de Saúde, deveria, em regime de urgência, colocar em ação um plano nacional para distribuição das vacinas, por meio do Programa Nacional de Imunização, com organização logística capaz de, em breve tempo, garantir que todas as crianças nessa faixa etária estivessem protegidas no país.
Ao contrário, movimenta-se no sentido de apoiar o processo de deslegitimação da Anvisa fomentado pelo presidente da República que, com ameaças veladas a seus técnicos, estimulou a ocorrência de intimidações concretas que estão sendo investigadas pela Polícia Federal.
A Anvisa cumpriu o seu papel que era o de analisar a eficácia, a segurança e a qualidade da vacina da Pfizer para crianças nessa faixa etária. Ela não o fez de forma política, mas a partir de análise da farta documentação apresentada pela produtora da vacina que cumpriu os requisitos éticos e metodológicos por meio de ensaios clínicos randomizados.
A aprovação também está respaldada em decisões anteriores de agências internacionais europeias e americanas, conforme é de conhecimento da comunidade científica e do público em geral.
CONSULTA PÚBLICA
A Consulta Pública convocada pelo ministro da Saúde de forma tardia, e sem qualquer justificativa plausível, neste momento é apenas mais uma estratégia típica de meninos teimosos que não aceitam os resultados contrários às suas ordens e aos seus desejos.
Ela é, por si mesma, inócua, servindo apenas para adiar ações que serão tomadas independentemente da diretriz do Ministério da Saúde, deixando mais uma vez evidente que a sociedade brasileira quer se vacinar e os secretários estaduais e municipais de saúde não se curvarão a ordens desprovidas de sentido e de fundamentação científica.
As principais entidades representativas da saúde coletiva no Brasil, como a Abrasco, o Cebes, a Rede Unida, a Sociedade Brasileira de Bioética e outras, que se unem na Frente pela Vida, repudiam a decisão do Ministério da Saúde em convocar a Consulta Pública afirmando ser a mesma extemporânea e desproposital.
A consulta pública é, de fato, importante instrumento de participação da sociedade na tomada de decisões governamentais, entretanto, não foi essa a intencionalidade do governo nesse caso. Não havia razão para tal.
A sociedade já demonstrou que deseja a vacina. Mesmo diante do esforço hercúleo do presidente da República no sentido de desqualificar a vacina o povo brasileiro disse sim a ela e vacinou-se a despeito de todas a investidas de Jair Bolsonaro em sentido contrário.
Além disso, necessário registrar que as principais sociedades médicas do país envolvidas com o tema, como a Sociedade Brasileira de Pediatria, A Sociedade Brasileira de Imunologia, a Sociedade Brasileira de Imunização e a Associação Médica Brasileira já haviam se manifestado favoráveis à vacinação quando da convocação da Consulta Pública.
Exigir Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e prescrição médica para que as crianças sejam vacinadas é de uma disparate típico de pessoas sem qualquer conhecimento da área, o que não é, certamente, o caso do ministro.
Ele sabe que isso é contraditório com todo o histórico de vacinação no país. Milhares de crianças são vacinadas todos os dias com as mais diversas vacinas, sem que se tenha exigido TCLE ou prescrição médica. Seria esse um protocolo criado, tipicamente, para inviabilizar a vacinação.
Expôs-se o ministro, mais uma vez, fragilizando-se como o gestor maior da saúde no Brasil. Desmoralizado e desautorizado pela desobediência de Secretários Estaduais e Municipais de saúde que já declararam que não irão cumprir essas exigências.
O STF também não se furtará nesse caso, já que são de domínio público as razões políticas que têm levado o presidente e seu ministro da Saúde a transformar em caos aquilo que poderia ter sido construído como uma política pública sanitária eficaz e exemplar.
Todas as evidências científicas que apontam para a necessidade de que a vacinação dessas crianças se dê de forma rápida e com a segurança necessária vêm sendo negadas e ignoradas pelo presidente e seu ministro.
É preciso que eles saibam que a sociedade não perdoará as mortes evitáveis de suas crianças e que responderão criminalmente por cada uma delas que deixarem partir sem a proteção vacinal.
A vida de uma criança, qualquer que seja, vale mais do que um mundo inteiro e o Direito e a Justiça haverão de ser chamados à defesa da vida e da saúde dos vulnerados pela inconsequência política daqueles que estão com a caneta nas mãos e que se furtam de suas responsabilidades.