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Igualdade de gênero

Cuidar não é atributo feminino: é responsabilidade de homens e mulheres

A naturalização do cuidado como dever feminino perpetua desigualdades e adoece gerações de mulheres. É hora de repartir responsabilidades e reconstruir uma cultura que ainda associa amor à submissão

Publicado em 28 de Outubro de 2025 às 04:30

Públicado em 

28 out 2025 às 04:30
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Enquanto os homens não compreenderem, e aceitarem, que cuidar é responsabilidade de todos e não apenas das mulheres, não será possível falar em igualdade de gênero.
Enquanto as mulheres não se conscientizarem de que cuidar não é um atributo feminino, uma responsabilidade inerente ao ser mulher, mas uma construção social que pode e deve ser desconstruída, continuaremos a conviver com a condição de sobrecarga de trabalho que adoece as mulheres, produz culpa e violências das mais diversas naturezas.
Enquanto o Estado não assumir o cuidado como uma necessária política pública a ser pensada e planejada a partir de uma perspectiva que contemple a igualdade entre homens e mulheres como condição de justiça social, continuaremos a colocar o cuidado como manifestação feminina de amor familiar, naturalizado no imaginário social como “privilégio das mulheres” que foram presenteadas por Deus com o dom do amor e do cuidado e que, portanto, deve ser realizado com resignação, prazer e alegria.
Mulher, estresse, trabalho
Mulher exausta: tempo é algo que não sobra para as mulheres Crédito: Pixabay
O certo é que a cultura de invisibilização do trabalho de cuidado e de sua naturalização como condição inerente ao ser mulher, tem produzido dor, doença, sofrimento e injustiças que precisam ser pensadas e analisadas na perspectiva de um enfrentamento urgente e necessário com vistas a interromper séculos de injustiça que impede as mulheres de vivenciarem de maneira plena sua condição de ser mulher no mundo.
Ainda que não se mude uma cultura por decreto, a existência de políticas públicas que estejam empenhadas em reverter essa histórica condição de injustiça precisa ser objeto de um esforço do Estado, no sentido de implementar programas, projetos e ações direcionados a uma educação emancipatória de mulheres e homens, que se inicie desde os níveis mais elementares de ensino fundamental até as universidades, prosseguindo na educação informal.
Paralelamente a um processo educativo de cunho alargado e capilarizado, a implementação de políticas públicas voltadas ao cuidado precisa ser urgentemente pensada e incorporada como prioridade na agenda pública dos governos municipais, estaduais e federal.
A estratégia de invisibilização do trabalho do cuidado foi, certamente, uma das mais eficientes táticas do patriarcado. A associação de todo e qualquer trabalho de cuidado ao amor das mulheres por seus familiares se constituiu uma vitoriosa conquista que, ao longo dos séculos, estabeleceu os padrões normativos nos quais as mulheres deveriam se enquadrar sob pena de serem taxadas por diversos qualificadores indesejáveis, que humilhavam, desvalorizavam, culpabilizavam e as tornavam indignas aos olhos da sociedade e, muitas vezes, aos seus próprios olhos.
A instituição Igreja, aprimorou essa estratégia e encarcerou as mulheres no mundo da casa, condicionadas que estão à submissão a seus próprios maridos, como se isso fosse desígnio divino que dá aos homens o poder de dominá-las, subjugando-as aos seus próprios caprichos e desejos.
Desconsiderando todos os avanços alcançados em nosso processo civilizatório que alçou as mulheres a lugares antes inimaginados, o patriarcado, que foi se adaptando e tomando novos formatos para resistir ao longo dos séculos, manteve firme a vinculação entre trabalho de cuidado e o ser mulher no mundo como condição de existência.
Os números revelam aquilo que o imaginário social teima em não aceitar. Não é natural que, em pleno século XXI, as mulheres, que ocupam todos os espaços e trabalham tanto quanto, ou até mais que os homens, no mercado profissional, continuem a destinar quase o dobro de tempo que eles a trabalhos de cuidado não remunerados, realizados, especialmente, em casa.
Segundo o IBGE, em 2022, as tarefas de cuidado consumiram 21,3 horas semanais das mulheres contra 11,7 dos homens. Essa situação se agrava ainda mais com as mulheres pretas ou pardas, que gastam 1,6 hora a mais do que as mulheres brancas nesse tipo de trabalho. Essa diferença não se reproduz entre homens brancos e negros.
Se considerarmos o recorte de classe iremos constatar situação ainda mais desigual. As mulheres pertencentes ao grupo com 20% menos rendimento, dedicam 7,3 horas a mais nos trabalhos domésticos do que as 20% pertencentes ao grupo com maior rendimento.
Esses trabalhos de cuidado, denominados de trabalhos domésticos não remunerados, invisibilizados ou, até mesmo, desconsiderados como se trabalho fossem, são realizados todos os dias por mulheres, em seu cotidiano, no mais das vezes, sem qualquer tipo de questionamento ou reclamações, sendo assumidos por elas como se fossem de sua inteira e exclusiva responsabilidade.
Os homens, na maioria das vezes, se levantam, fazem a barba, tomam seus banhos ou se arrumam, sentam-se para o café, que já está preparado por elas, se levantam e vão trabalhar. Se forem pertencentes ao grupo de trabalhadores economicamente menos favorecidos, levarão suas marmitas previamente preparadas por elas, na noite anterior, depois que retornam de seus trabalhos. À noite, aos voltarem para casa, tomarão seus banhos, se sentarão diante da televisão e se alimentarão com alimentos, mais uma vez, preparados por elas. Após, irão dormir, cansados, esperando e reclamando de suas mulheres que ficam demorando para vir servi- los, também, na cama.
Já as mulheres, se levantarão, normalmente, uma hora antes de seus companheiros, adiantarão o café, e o alimento para a família, lavarão as roupas, suas, dos maridos e dos filhos, acordarão as crianças, arrumarão as camas, darão café a todos, prepararão as mochilas, levarão as crianças na escola ou ao ponto de ônibus, trabalharão horas, muitas vezes em pé, seja como domésticas, enfermeiras, professoras, ou qualquer outra profissão, retornarão ao final do dia para sua segunda ou terceira jornada, esgotadas, mas ainda firmes para dar conta de tudo que lhes espera.
Nos finais de semana, enquanto seus maridos jogam bola e tomam uma cervejinha com os amigos, pois “ninguém é de ferro”, terão que arrumar a casa, fazer compras, ver o dever das crianças, lavar e passar roupas, deixar comida pronta para a semana, ir à igreja e tantas coisas mais.
E, ao final de tudo, quando os pais envelhecem, os seus ou de seus companheiros, serão elas a cuidar deles, com carinho e desvelo, porque os homens, naturalmente, não sabem muito bem como cuidar de pessoa idosas e doentes. Não apreenderam a cuidar, pois cuidar é coisa de mulher.
O processo emancipatório depende de reflexões e de tempo para refletir. E tempo é algo que não sobra para as mulheres.
Há, ainda, um longo caminho a ser trilhado e as mulheres precisam saber que direitos não são dados, são conquistados. São fruto de lutas por reconhecimento e visibilidade.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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