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Triste realidade

'Custo Bolsonaro' 3: violência contra as mulheres explode no Brasil

Ao votar em um presidente que assumia publicamente posições de desrespeito, desqualificação e objetificação das mulheres, eleitores decidiram correr o risco de um resultado que não poderia ser diferente

Publicado em 27 de Julho de 2021 às 02:00

Públicado em 

27 jul 2021 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Violência doméstica: mulheres clamam para viver longe das agressões
As estatísticas revelam que: feminicídios, que são homicídios em razão de gênero, aumentaram em 14 das 27 unidades da federação Crédito: KamranAydinov/Freepik
As múltiplas formas de violência que se abatem sobre as mulheres na atualidade brasileira, em tempos de Bolsonaro e de Covid-19, evidenciam os riscos decorrentes da opção por um governo ultraconservador, radical, que se afirma em uma pseudo defesa da família e dos bons costumes, enlaçando, por meio de narrativas distópicas, mentes e corações desavisados (alguns), e, outros, interessados na manutenção de privilégios que permitam aos mais bem posicionados na escala social e econômica continuarem a gozar de regalias insustentáveis, moral e legalmente falando.
Ao votar em um presidente que assumia publicamente posições de desrespeito, desqualificação e objetificação das mulheres, relegadas a um plano subalterno, de natureza inferior, que merecem ou não serem estupradas dependendo de suas qualificadoras estéticas, ou da vontade soberana dos homens, eleitoras e eleitores de todo o Brasil que fizeram opção pelo número 17 nas eleições de 2018 decidiram correr o risco de um resultado que não poderia ser diferente. Ser eleito presidente não muda o caráter de alguém. Pelo contrário, o poder tem o condão de ampliar o que de negativo já se anunciava.
Bolsonaro continua sendo o mesmo que sempre foi. Ele não mudou. Continua fiel aos pressupostos éticos imorais sobre os quais assentou sua vida pessoal e política. Os que votaram nele sabiam o que podiam esperar a partir de sua eleição e decidiram correr o risco do resultado.
Não há que se falar em engano, equívoco decisório, surpresa com o resultado, falta de opção ou traição do candidato que mudou sua plataforma de governo. A maior parte dos que por ele optaram, o fez de forma consciente e racional, devendo, portanto, assumir os ônus do resultado. São partícipes da tragédia anunciada.
A violenta arrogância, implícita na afirmativa relacionada aos filhos, de que “foram quatro homens. A quíntupla eu dei uma fraquejada e veio uma mulher”, denota sentimento de desprezo e desconsideração. O que se poderia esperar de um presidente que assume publicamente sua defesa de que diferenças salariais entre homens e mulheres são justificáveis em razão destas engravidarem e os homens não? O que se poderia esperar de um presidente que afirma que uma mulher não “merece” ser estuprada, somente pelo fato de não corresponder aos seus padrões de beleza feminina? Dentro desta lógica, se esta não “merece”, há outras que merecem.
O que se poderia esperar de um presidente que assume como sua política prioritária o armamento da população?
As estatísticas revelam que: feminicídios, que são homicídios em razão de gênero, aumentaram em 14 das 27 unidades da federação. Só no mês de abril de 2021 o Rio Grande do Sul assistiu a um aumento de 55,6 % do número desse tipo de crime quando comparado com o mesmo período de 2020.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, foram 1.350 mulheres vítimas de feminicídio em 2020. Ou seja, a cada seis horas e meia, uma mulher morre pelo simples fato de ser mulher.
Mulheres jovens (19 a 44 anos) e negras ( 61%) estão entre as principais vítimas de feminicídio. Destas, cerca de 81% foram mortas por seus companheiros ou ex-companheiros que não aceitaram o término de um relacionamento que não mais fazia sentido para a mulher, seja pela convivência diária com a violência, seja por outras razões que não precisam ser justificadas. Grande parte dessas mortes se caracterizou pelo alto grau de violência com que foram perpetradas. O uso de facas, canivetes, tesouras e outros instrumentos perfurantes é uma realidade nesse tipo de crime, muitos deles cometidos na frente dos filhos.
Em uma cultura que valoriza o poder do macho sobre a fêmea, o homem considera a mulher parte de seu patrimônio, objeto do qual pode dispor a seu bel-prazer, inclusive descartando de forma violenta, tal como vemos diariamente nas manchetes dos jornais que trazem relatos de crimes de feminicídio.
As informações de que os casos de estupro e violência doméstica tenham reduzido no período da pandemia, longe de nos tranquilizar e permitir qualquer tipo de comemoração, devem nos servir de alerta. Ocorrendo em sua ampla maioria em casa e sendo cometidos por familiares, esses crimes revelam a extrema condição de vulnerabilidade em que se encontram as mulheres.
O desemprego, a fome, o confinamento, as restrições naturais desse período, o aumento do consumo de álcool e outras drogas, bem como o incentivo por parte do presidente da República à manutenção e valorização de uma cultura machista, patriarcal e violenta, alimentada por instituições religiosas que o apoiam e que pretendem brecar todas as iniciativas de independência e autonomia feminina, parecem servir de substrato para o recrudescimento das violências contra as mulheres.
Sustentados em uma pseudo interpretação de textos bíblicos que destinam às mulheres um lugar de exclusão e submissão, alimentado ao longo da história por instituições que se arvoram serem as comunicadoras da vontade divina aos homens, líderes espirituais implantam uma distopia religiosa autoritária, violenta e hipócrita que alimenta a violência e naturaliza sua ocorrência.
Confinadas em suas casas, meninas e mulheres se veem reféns de seus algozes, sofrendo caladas e sem qualquer possibilidade de reação, não encontrando no Estado o suporte necessário para que possam denunciar e reagir às agressões.
O custo Bolsonaro para as mulheres é o custo do medo que se amplia e da aceitação tácita da impossibilidade de reagir diante da violência cada vez mais intimidatória e assustadora.
O custo Bolsonaro para as mulheres é o custo dos agentes públicos que, com maior despudor, se posicionam ao lado dos agressores defendendo ou justificando suas atitudes.
A decisão da justiça militar que absolveu PMs do crime de estupro em uma viatura no litoral de SP sob o argumento de que a vítima, uma jovem de 19 anos, não resistiu ao sexo, é o resultado de uma cultura validada por um presidente machista, criminoso e que despreza e desrespeita mulheres, autorizando que agentes públicos continuem a cometer crimes dessa natureza.
Necessário lembrar que esse é apenas mais um dos milhares de casos que assistimos todos os dias, em todos os estratos sociais, seja no parlamento, quando senadoras, deputadas e vereadoras são intimidadas por colegas que tentam lhes desqualificar e interditar a palavra, seja nos locais de trabalho, nas periferias das grandes cidades, quando mulheres, pelo simples fato de serem mulheres, são humilhadas vendo sua dignidade ser violada.
O custo Bolsonaro para as mulheres é o custo do retrocesso de anos de lutas e de conquistas feministas que hoje vemos no recrudescimento de um machismo aviltante, vergonhoso e temerário para a democracia e para o Estado de Direito.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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