Não haverá paz para as mulheres enquanto prevalecer o machismo.
Não haverá paz no planeta enquanto o poder masculino for alimentado e valorizado como condição natural de existência.
A fissuração ativa e a desconstrução da cultura machista, estruturalmente consolidada nos aparelhos de Estado, nas famílias, nas igrejas e na sociedade em geral, formando as bases de sustentação das múltiplas desigualdades, é tarefa urgente na busca pela paz.
Não haverá paz para as mulheres enquanto considerarmos natural toda e qualquer forma de dominação masculina, sobre as mulheres, sobre as crianças, sobre os mais vulneráveis e sobre a natureza.
Não haverá paz na terra enquanto os homens se sentirem superiores às mulheres e as compreenderem como seres subalternos responsáveis, exclusivamente, por atender a seus desejos, vontades e ordens.
O machismo, baseado em uma compreensão da superioridade masculina, sustenta-se em um processo de hierarquização familiar e social, no qual as mulheres, responsáveis pelo prazer masculino e pela ordem da casa e dos filhos, devem aceitar de modo passivo, sem contestação, o lugar que lhes está destinado socialmente.
Nessa perspectiva, a mulher, apesar de participar do processo legislativo, podendo votar e ser votada, trabalhar, participar ativamente do sustento familiar, continua sendo um ser cuja vontade e desejos devem permanecer submissos aos desejos de seus maridos, pais, irmãos ou patrões.
Qualquer tentativa de independência e pensamento autônomo pode ser reprimida com violências simbólicas, as mais diversas, constrangimentos morais e sexuais, chegando mesmo a ataques a sua integridade física tendo como ponto final o feminicídio.
O feminismo se contrapõe ao machismo enquanto cultura que privilegia o poder masculino sobre as mulheres. A partir de um convite a que todos reflitam sobres as consequências dessa desigual condição, o feminismo propõe uma sociedade de livres e iguais, em respeito, dignidade e direitos. Dentro dessa lógica, as mulheres não querem ocupar o lugar dos homens ou submete-los às mesmas condições a que estão submetidas. Elas lutam apenas para ter seus direitos garantidos.
É urgente desconstruir a retórica machista, que busca desqualificar as mulheres que manifestam sua discordância com o lugar secundário, de humilhação e de subserviência que lhes foi socialmente destinado, afirmando que o feminismo é um movimento de luta das mulheres contra os homens. Não é. Essa é uma tentativa, dos homens, de desqualificação do movimento feminista com vistas a fragilizá-lo.
Pelo contrário, o feminismo é um movimento que pode e deve, também, ser assumido por homens que compreendem as injustiças perpetradas contra as mulheres ao longo da história e se mostram dispostos a participar de forma ativa do processo de ruptura com o paradigma vigente, ajudando a alcançar um equilíbrio justo de direitos e deveres, que poderá, também, beneficiá-los de alguma forma.
Argumentos utilizados no sentido de enquadrar o feminismo dentro da mesma lógica do machismo, no sentido reverso, além de frágeis epistemologicamente, revelam uma estratégia equivocada e mentirosa no sentido da realidade concreta, apesar de forte no sentido de alcance de resultados, já que consegue inibir mulheres da participação em lutas que poderiam lhes trazer mais igualdade e justiça.
O machismo está sustentado na concepção de que os homens são superiores às mulheres enquanto o feminismo é um movimento social de luta das mulheres por igualdade entre os gêneros, por justiça e por emancipação.
De um modo geral, sob o comando de homens, as instituições, o Estado, as igrejas, as empresas e/ou, até mesmo, as famílias (ainda), organizam-se estrategicamente no sentido de manutenção do status quo, reservando às mulheres lugares secundário ligados, invariavelmente, o serviço, enquanto o poder decisório continua nas mãos de homens que, muitas vezes, não possuem os qualificadores necessários ao exercício desse poder, seja ele familiar, seja no trabalho, seja na sociedade em geral.
Por que o Estado não pune exemplarmente seus representantes que cometem todos os tipos de crimes contra a identidade, a honra, a vida, a saúde e a dignidade das mulheres?
Por que o Estado, em todas as suas esferas de poder, continua a acobertar discursos e práticas, machistas, misóginas, de violência física, emocional e sexual de mulheres, sendo, muitas vezes, ele próprio, o perpetrador das violências?
Porque as mulheres continuam a ser agredidas, humilhadas, violentadas simbólica, emocional e fisicamente, menosprezadas, colocadas em lugar secundário e de exercício do serviço, excluídas dos lugares de decisão, utilizando-se, muitas vezes, o nome de Deus e justificativas baseadas em doutrinas construídas a partir de hermenêuticas direcionadas à manutenção de interesses e privilégios inconfessáveis e incompatíveis com o espírito cristão, com os ensinamentos de Cristo e com o estágio civilizatório em que nos encontramos.
Por que algumas igrejas cristãs criticam e combatem tão veementemente o feminismo e as feministas?
Por que as mulheres são silenciadas e excluídas dos cargos eclesiásticos que definem os rumos e as diretrizes doutrinarias das igrejas?
Porque o feminismo coloca em risco e denuncia a estrutura de poder masculino e de inferiorização da mulher construída por instituições religiosas comandadas por homens que não desejam perder os seu status quo injusto e opressor.
O cristianismo, em si, se contrapõe a essa cultura de religiosidade institucionalizada, masculinizada, fundada em estruturas de poder hierarquizadas.
Ele se sustenta, sim, em uma doutrina libertadora de todos os oprimidos, com compromisso claro e explícito da igualdade entre todos os seres humanos e condenação de toda forma de opressão.
Por que as famílias continuam a se sustentar e perpetuar em um modelo milenarmente ultrapassado e incompatível com o lugar da mulher na atualidade?
Onde estão as mulheres hoje? Elas estão em todos os lugares, executando todos os mesmos tipos de atividades que os homens. Utilizam suas capacidades e potencialidades apesar de todas as dificuldades, entraves e limitações que lhes são impostas pelo simples fato de serem mulheres.
Continuam a ser cobradas com relação ao trabalho doméstico, o cuidado com os filhos, a responsabilidade pela paz em casa, como se não tivessem, no mundo do trabalho e na sociedade, as mesmas responsabilidades que os homens.
O que querem as mulheres neste 8 de março de 2022, Dia Internacional da Mulher?
Querem apenas gozar dos mesmos direitos e deveres que os homens gozam, tendo sobre os seus corpos e seus destinos, a autonomia e o direito de decidir como preferem conduzir a vida.
Querem conviver, amar, trabalhar, compartilhar a história e a vida com homens que lhes enxerguem e respeitem como sujeitos de direitos e deveres, capazes de construir uma sociedade mais justa, livre e uma história socialmente relevante.
Enquanto o machismo permanecer como cultura aceita e naturalizada, sustentada pelo Estado, pela igreja, pelas instituições e por homens e mulheres que se acomodam e compactuam com as injustiças, não haverá paz para as mulheres e não haverá paz na terra.