O ministro da Educação Milton Ribeiro tinha razão ao afirmar que a “universidade não é para todos". Para o governo ao qual ele serve e ao qual subordinou sua consciência em troca de um poder que o desqualifica cognitivamente como intelectual e eticamente como pastor, a universidade não é para todos e o Enem deve estar a serviço da consolidação de um Estado que busca ampliar as desigualdades.
O projeto do atual governo para o Enem, explicitado nas ações de controle e interferência no Inep, bem como em toda as normativas e atuais políticas públicas de educação, alimenta o ideal de que uma massa de despossuídos e sujeitos acríticos é necessária para manter as injustiças sociais que seus representantes e mandatários compreendem como direitos a serem conservados, sendo perpetradas sem questionamentos e com a passividade indispensável à manutenção do status quo.
Dentro desta perspectiva, o Estado e a universidade devem estar a serviço de uma elite cada vez mais privilegiada com as benesses do Estado, distanciando-se do ideal de igualdade constitucional que afirma sermos uma nação de livres e iguais.
O Enem, criado em 1998, no governo Fernando Henrique Cardoso, como política pública de avaliação da qualidade do ensino médio no país, não tinha, a princípio, objetivo de ser utilizado como critério para ingresso no ensino superior ou para obtenção de bolsas de estudo.
A partir de 2004, com a criação do Programa Universidade para Todos (ProUni), lei sancionada pelo então presidente Lula e a utilização da nota do Enem como caminho para garantir mais acesso ao ensino superior, foi observado um aumento significativo de inscrição de pessoas originadas de classes sociais e de renda mais baixas, abrindo espaço para o ingresso delas nas universidades públicas e privadas.
Com o Sistema de Seleção Unificada (SISU) criado em 2010, também no governo Lula, o programa se consolida.
De lá para cá, e associada à política de cotas, a universidade ficou mais colorida e a diversidade começou a incomodar cada vez mais àqueles que entendem ter havido perda de privilégios. No Enem de 2021 o número de negros e pardos diminuiu em relação a 2020. De um total de 61,3% de pretos e pardos em 2020, neste ano o número caiu para 53,8%. Já o percentual de brancos subiu de 35,3% em 2020 para 41,4% em 2021.
Políticas públicas com diretrizes estruturantes que objetivam mudanças na configuração da sociedade provocam reações muitas vezes radicais que têm por objetivo interromper processos emancipatórios.
Desde o início do atual governo ficou evidenciado que a diretriz do Ministério da Educação era desconstruir a inteligência nacional, desmontando todo e qualquer aparato sustentador da ciência, da inovação, da autonomia universitária e da busca por igualdade de oportunidades para os jovens que se preparam para o ingresso nas universidades.
O negacionismo estatal, que comprometeu o futuro da nação de forma radical no setor da saúde, também avançou sobre a educação. No caso em tela, as manifestações do presidente da República e seus ministros da Educação, desde o primeiro até o atual, sempre nos direcionaram a um projeto de descompromisso com a educação e seus ideais libertadores e emancipatórios.
A valorização de pseudointelectuais forjados na autoajuda e nos ideais militares de obediência cega à uma hierarquia embrutecida e acrítica, sustentados em discursos vazios e falsos de uma moralidade desconectada com a existência, era apenas o sinal inicial do que estava por vir.
O Enem de 2021 realmente tem a cara do governo Bolsonaro. O presidente e o ministro da Educação não mentiram nessa parte do discurso. Eles mentem sempre, mas nesse caso não mentiram.
Tivemos, neste Enem, o menor número de inscrições em 15 anos. Foram 3.109.762 pessoas inscritas, o que representou uma queda de 46% em relação a 2020. Tivemos, de forma previsível, considerando o projeto governamental, o menor número de inscrições de pessoas originadas de escolas públicas e, por consequência, no número de pessoas negras.
Ao responsabilizar os professores e os sindicatos para essa queda, o ministro da Educação Milton Ribeiro demonstra sua total falta de compromisso com a verdade e com a grandeza do cargo que ocupa.
Além da baixa inscrição, a menor desde 2005, o Enem de 2021 teve uma taxa de abstenção da ordem de 26% o que representa um processo de exclusão irreparável considerando, inclusive, as perdas já ocorridas em razão da pandemia.
O projeto eugênico do ministro pastor e do presidente da República foi eficiente . O objetivo discriminatório, criminoso e perverso de “limpeza” das universidades está sendo alcançado.
O processo de desinstitucionalização e militarização dos aparelhos do Estado e das agências reguladoras chegou ao ápice com o ocorrido no Inep. O que veio a público não é fruto de denúncias vazias, mas de dados que podem ser facilmente comprovados. Não é preciso ser pesquisador de políticas públicas para ratificar o que aconteceu no Inep relativamente ao Enem 2021.
Foram 37 servidores que se desligaram em razão de denúncias diversas que envolvem assédio moral, ingerências, quebra de protocolos, censuras, constrangimento ilegal, intervenção militar dentre outros instrumentos de coação e intimidação tão conhecidos nesse governo.
O discurso aparentemente inofensivo e cândido do ministro pastor e os vieses discursivos que parecem contrastar com a agressividade ferina e sarcástica do presidente são faces de uma mesma moeda.
O desmonte do Enem é apenas mais um dos projetos excludentes, criminosos, encetados por um governo pactuado com a ignorância, com a perversidade e com o ideação ultraliberalizante da economia, que torna os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais miseráveis e incapazes de reagir à tortura e à desumanização cotidiana de seus corpos e de seu espírito.