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Fome

Festas de fim de ano escancaram a contraditória democracia brasileira

A desigualdade social é alimentadora das injustas condições de vida que submetem pessoas, seres humanos como nós e nossos filhos, a conviverem com a fome rodeadas por alimentos que sobejam das mesas

Publicado em 02 de Janeiro de 2024 às 01:30

Públicado em 

02 jan 2024 às 01:30
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Enquanto a festa rola nos apartamentos e em casas luxuosas, iluminadas por pinheiros multicoloridos com predominância de verde, vermelho e dourado, e com alegres trocas de presentes, regadas, muitas delas, a espumantes que borbulham alegremente em taças de cristal, nas periferias das cidades, milhares se contentam com as sobras que recolhem nas lixeiras que ficam nas calçadas dos principais condomínios da cidade.
Relatório publicado pela ONU em julho de 2023 indica que, no Brasil, cerca de 21 milhões de pessoas não conseguem se alimentar todos os dias.
Isso significa que quase 10% da população brasileira vive em situação de insegurança alimentar grave, fora os que vivem em condição também gravosa, mas não enquadrada como insegurança alimentar grave, que passam necessidade, mas não ficam, necessariamente, sem se alimentar de alguma forma, ainda que em porções reduzidas de alimentos.
Esses número não são uma ficção, fake news ou mero exercício retórico de uma dramatização que tem como objetivo estragar a alegria que invade a alma de muitos nesse final de ano festivo.
Eles são dados produzidos e coletados por meio de rigorosas investigações metodologicamente controladas, conduzidas por pesquisadores renomados pertencentes a organismos internacionais dos mais respeitados e referenciados na comunidade científica mundial.
Os estudos que resultarem nesse importante relatório acerca do estado da segurança alimentar e nutricional no mundo foram conduzidos pela ONU, pela Unicef, pela OMS, pelo Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.
Os números são assustadores e representativos da enorme desigualdade social forjada por um modelo de economia que mantem os mais ricos cada vez mais ricos e os miseráveis cada vez mais miseráveis.
A desigualdade social é alimentadora das injustas condições de vida que submetem pessoas, seres humanos como nós e nossos filhos, a conviverem com a fome rodeadas por alimentos que sobejam das mesas e são desprezados ou exportados para outros países.
O Brasil é o 4º maior produtor de itens agrícolas do mundo e com possibilidade de crescer ainda mais em razão de suas extensas áreas disponíveis para plantio. Enquanto isso, as terras estão cada vez mais concentradas nas mãos dos grandes produtores rurais que concentram suas produções em commodities, como soja, cana de açúcar e milho.
A condição do Brasil de maior exportador mundial de soja, açúcar e carne é incompatível com a fome que se capilariza por todo o rico território nacional.
As políticas econômicas não privilegiam os pequenos e médios produtores.
As festas de final de ano, caracterizadas por mesa farta e muitas delícias sendo consumidas para além do razoável padrão alimentar que nos caracteriza e ao qual estamos habituados, escancaram a contraditória democracia brasileira.
Ceia de Natal em família
Ceia de Natal em família Crédito: Shutterstock
As características conversas mantidas no pós-festas natalinas e de virada do ano, que giram sempre em torno da necessidade de que se adote uma dieta rigorosa depois dos excessos alimentares cometidos, evidenciam como estamos todos contaminados pela naturalização da desigualdade.
É claro que a maioria de nós não possui, para além do voto, a governabilidade necessária para mudar essa realidade que nos envergonha e empobrece como nação, mas refletir sobre ela e assumir nossa parcela de responsabilidade, é uma necessidade urgente.
É, por demais absurdo pensar que a quantidade de alimentos que desperdiçamos todos os dias daria para alimentar mais de oito vezes o número de pessoas que passam fome no país.
Em uma entrevista recente, Wellington Dias, ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome afirmou que erradicar a fome é uma das principais metas do governo para 2024. Não será fácil para o presidente cumprir sua promessa. O governo está, de forma bastante radical, imobilizado pelo controle do Centrão que não solta as rédeas da condução política no país e que vive em estado de permanente gula dos recursos públicos.
O Plano Brasil Sem Fome, um dos principais diferenciais propostos pelo governo federal para enfrentar o problema do retorno do Brasil ao mapa da fome, ocorrido em 2022, envolve mais de 20 ministérios, com metas e estratégias ousadas, transformadas em políticas públicas que radicalizam a virada rumo a um novo status de segurança alimentar no país.
A justiça social e a democracia não podem conviver com a fome e a insegurança alimentar.
Não há problema algum em termos mesas fartas e comemorarmos o Natal e a virada do ano com alegria, comidas gostosas, abraços, espumantes e presentes. O que é inaceitável é entendermos isso como um privilegio a que temos direito sem nos preocuparmos com tudo aquilo que alimenta a fome e a desigualdade.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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