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Feminismo

Júlia Lopes de Almeida: o machismo na história da Academia Brasileira de Letras

Somente depois de 80 anos de sua criação, que ocorreu em 1897, o que representa cerca de quatro gerações, uma mulher ingressou na ABL, como se nada precisasse ser reparado em relação ao passado

Publicado em 26 de Dezembro de 2023 às 01:10

Públicado em 

26 dez 2023 às 01:10
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Descobri, recentemente, mais uma incômoda história do apagamento das mulheres da versão oficial dos grandes feitos que marcaram a existência humana e, nesse caso, na história de uma das instituições mais importantes e reverenciadas da cultura brasileira, a Academia Brasileira de Letras (ABL).
Composta por 40 membros, dos quais apenas quatro são mulheres, o que representa apenas 10%, a ABL é a representação clara da desigualdade de gênero institucionalizada e estruturalmente consolidada, que somente, de forma muito lenta e gradual, vem se revertendo.
Nesse ritmo da caminhada ainda demoraremos décadas para ver a paridade ser estabelecida no desenho institucional brasileiro. Os obstáculos são enormes e difíceis de serem transpostos e, por mais que os movimentos feministas venham lutando para denunciá-los, as barreiras estabelecidas à ascensão feminina estão fortemente consolidadas.
Esses obstáculos, verdadeiros bloqueios graníticos, são aceitos com naturalidade pela sociedade que parece não perceber a real urgência da interrupção desse fluxo de injustiças que impedem a inclusão das mulheres nos espaços públicos, especialmente naqueles onde sua capacidade, suas competências, suas habilidades e protagonismo sejam reconhecidos e valorizados.
O caso da Academia Brasileira de Letras é um caso típico do processo de invisibilidade, ocultamento e apagamento ao qual as mulheres foram sempre submetidas. Passados 126 anos de sua instalação, a história da participação feminina em seu processo de concepção, criação e estruturação continua desconhecida por muitos, como era para mim, até recentemente.
Mesmo aqueles e aquelas que, como eu, estão vinculados à academia, onde essas informações circulam com mais frequência, ou que estão mais ligados à temática da produção literária e da desigualdade de gênero, o assunto ainda é desconhecido, guardado a sete chaves, para evitar os constrangimentos naturais que essas informações parecem ainda produzir.
Celebrei, ainda muito jovem, como muitas outras mulheres, em 1977, a entrada de Rachel de Queirós, na ABL, festejada como a primeira mulher a ingressar na Academia. Não sabia eu, naquele momento, que, na realidade, o ingresso de uma mulher no rol dos imortais representava mais do que um simples avanço rumo à igualdade de gênero. Reparava-se ali, de forma muito tímida e frágil, uma injustiça histórica que ainda precisa ser objeto de intervenção mais robusta.
Somente depois de 80 anos de sua criação, que ocorreu em 1897, o que representa cerca de quatro gerações, uma mulher ingressou na ABL, como se nada precisasse ser reparado em relação ao passado.
Na realidade, uma mulher, Júlia Lopes de Almeida, integrava o grupo de 40 intelectuais que concebeu a academia e que envidou esforços para sua criação. O nome de Júlia, uma escritora importante de sua época, intelectual respeitada entre os intelectuais, fazia parte da lista de 40 fundadores que se tornariam “imortais” a partir dessa criação.
Júlia Lopes de Almeida
Júlia Lopes de Almeida, escritora Crédito: Reprodução
Registra a história que na primeira reunião dos “imortais”, seu nome foi excluído e substituído pelo de seu marido, Filinto de Almeida, “imortal consorte” que ascendeu por obra de um machismo estrutural e institucional, que não tolera mulheres ocupando espaços que, no seu entendimento, seriam exclusivo de homens.
Imagino o sentimento de frustração daquela mulher, intelectual que entendia a injusta decisão, já que as contradições da desigualdade de gênero estavam incluídas em seus escritos, ao ser apagada, jogada à margem para que ascendesse um homem com menores qualificadores do que os dela, ainda que esse homem fosse seu marido.
O prêmio de consolação que lhe foi dado com a substituição de seu nome pelo de seu esposo evidencia a força do sexismo e do apagamento das mulheres nas instituições e na vida pública brasileira.
Optaram os senhores imortais por seguir a tradição francesa de uma academia composta somente por homens. Lamentável intelectualidade, incapaz de refletir sobre a injusta proposta e opor-se a ela. Perderam o protagonismo de romper com a tradição europeia, empobrecedora e limitante do conhecimento humano.
Ao excluir Julia Lopes de Almeida, uma escritora, cronista e teatróloga, que participou ativamente do movimento abolicionista brasileiro, defendendo, em seus escritos, causas consideradas transgressoras em sua época, como o divórcio e a educação formal para mulheres, enfim, uma crítica da sociedade brasileira, os “imortais”, fundadores da ABL, perderam a oportunidade de mostrarem-se, de fato, grandes e inovadores no processo de compreensão e ruptura com as injustiças sociais e com as tradições machistas e misóginas, reducionistas do espírito humano.
Deixaram-se os “imortais” enredar na pobreza reflexiva das contradições humanas, em nome da manutenção de um status quo que os privilegiava, garantindo-lhes regalias e exclusividades às quais não eram merecedores.
Lamentável pensar que entre esses “imortais”, sexistas, encontravam-se pensadores do quilate de Machado de Assis e Olavo Bilac.
Lúcio de Mendonça, o grande idealizador da Academia Brasileira de Letras, esse sim, transgressor das regras patriarcais, incluiu, em um artigo publicado no Estado de São Paulo, em 3 de dezembro de 1896, um ano antes da criação da Academia, o nome de Júlia Lopes na lista dos 40 imortais.
Registra a história que o próprio marido, Filinto de Almeida, Acadêmico Consorte, como era ironicamente chamado em razão de ter ocupado uma cadeira que era de sua esposa, reconhece, em uma entrevista, a injusta exclusão: “Não era eu quem deveria estar na Academia, era ela”.
O ocorrido em 1897 continua a se repetir todos os dias na história das instituições. Ainda hoje, mulheres são excluídas dos espaços públicos de decisão e de evidência intelectual ou de gestão, em nome de uma pseudo inabilidade ou atração, seja pelo poder, seja pela ocupação de lugares de destaque.
As que se arvoram a transgredir a regra são, rapidamente, constrangidas a voltar a seus lugares de insignificância e de silêncio, sob pena de perderem a consideração social, sempre carregada de estereótipos desqualificadores daquelas que se insurgem contra o status quo estabelecido.
Não basta uma cerimônia de reconhecimento, como a ocorrida em 2017, 120 anos depois da fundação da Academia Brasileira de Letras, na qual Julia Lopes foi homenageada como uma das mais importantes intelectuais brasileiras, juntamente com vários outros intelectuais que nunca entraram na academia e que deveriam ter sido. No caso de Júlia Lopes, é preciso pensar em uma reparação mais potente, com restituição, inclusive, da cadeira que lhe foi então usurpada.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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