De crime em crime, o governo Bolsonaro vai se especializando na execução de sua principal política pública, qual seja, o extermínio em massa de pessoas, instituições, valores, sonhos e projetos de futuro.
Foram muitos e variados os ataques empreendidos rumo à consecução de seu projeto de destruição de tudo o que uma nação pode almejar construir, cultivar e sustentar. Os ataques sistemáticos às universidades, aos cientistas, à verdade, às vacinas, ao meio ambiente, ao STF, aos colegiados com representação social e a tudo e todos que representam capacidade de resistência aos ataques às riquezas naturais e culturais, à soberania nacional e aos projetos de emancipação contracoloniais. Todos foram alvo de agressões violentas, impetuosas, brutais e destrutivas.
A democracia e a ciência, colunas indispensáveis à manutenção da sobrevivência humana e componentes essenciais à existência de um projeto de nação pautado no avanço civilizatório, foram os alvos preferenciais escolhidos para a concentração dos ataques empreendidos.
Do primeiro dia de governo ao dia de hoje, no qual expressamos nossa ainda frágil indignação diante do espetáculo circense de horrores a que vamos assistindo todos os dias, o governo demonstrou ser eficiente em seu projeto, muito mais do que o foram os grandes especialistas em políticas públicas, em economia, em gestão, em marketing ou qualquer outra área de competência necessária aos gestores públicos. O presidente e sua trupe de ministros, secretários e tantos que passaram esse tempo na expectativa de cargos e vantagens pecuniárias e de poder demonstraram alta eficiência na capacidade de alcançar seus projetos.
Claro está que o Projeto “Bolsonaro”, negacionista, autoritário, excludente, fascista, racista, homofóbico, misógino, baseado no exercício cotidiano do ódio e da adesão à mentira como modo de ser no mundo, não é uma criação desse ser ignóbil que ocupa a cadeira de presidente, nem de seus seguidores religiosos cegos e fanáticos.
Ele é um servo daqueles que ali o colocaram para o alcance de seus propósitos indefensáveis e inconfessáveis, tendo em vista a necessidade de venda de uma imagem imaculada, pura, solidária, cristã, de pessoas e instituições que se vendem como filantrópicas, caritativas, religiosas, humanitárias, justas, meritocráticas e que afirmam hipocritamente desejarem o desenvolvimento da nação.
Bolsonaro, uma criatura que saiu do controle de seus criadores, transita hoje no limite da distopia, com seus tentáculos alcançando todas as esferas de ruptura da racionalidade possível à manutenção da vida e da lógica, ainda que da lógica ultraneoliberal que se constitui no antiestágio da dignidade e da razoabilidade de qualquer inteligência mediana.
Não há como tirar Bolsonaro porque ele ainda não concluiu o projeto para o qual foi alavancado à presidência da República e porque os que ali o colocaram parecem não mais conseguir o controle da marionete.
Os órgãos do sistema de Justiça, Judiciário, Ministério Público, Procuradorias, Defensorias, entre outros, alicerces da democracia, únicos, fora o Legislativo, com poder estatal para a tomada de medidas radicais para a interrupção do espetáculo, não estão dispostos a se movimentarem como poderiam, tendo em vista os autos custos que medidas dessa natureza podem acarretar.
Essas instituições continuam a prestar relevantes serviços à sociedade, e isso não há como negar. Poderiam, entretanto, ressignificar seus valores e suas missões, abrindo, talvez, mão de privilégios que os distanciam do povo a serviço de quem deveriam atuar.
Ainda que, em sua maioria, seus exercentes sejam pessoas íntegras e com intencionalidades eticamente abonáveis, não estão conseguindo, como instituições, impor suas condutas de forma a interromper políticas eticamente reprováveis.
A pergunta incômoda que cada vez mais emerge nos diálogos críticos acerca do Estado é: a quem servem hoje os órgãos do sistema de Justiça?
Há disputas internas nessas instituições que não lhes permitem atuar como deveriam, e poderiam, à luz da Constituição e de nosso rico aparato normativo. Por comodismo, falta de bravura ou forças para enfrentar o que precisa ser enfrentado, o certo é que estamos, todos, paralisados, sem tomar as medidas necessárias e urgentes.
Diferentemente dos representantes legislativos, eleitos como resultado, muitas vezes, de conluios e negociatas políticas nas quais o povo não é chamado sequer a opinar, os representantes do sistema de Justiça, não eleitos pelo povo, ali se encontram em razão de suas lutas e vitórias em concursos públicos. Há uma relativa independência que poderia, neste momento, ser utilizada, caso o desejassem.
O povo e as instituições sociais estão imobilizados, seja por medo, seja pelos tsunamis diários nos quais tiveram sua energia indignatória consumida.
A perda de confiança nas lutas democráticas fragilizou toda e qualquer expectativa de combate. O sentimento é de impotência e de falta de clareza e compreensão do que é possível e razoável fazer. Nostalgia do passado, fantasia do futuro.
Cada dia uma bomba mais mortífera. Cada dia um espetáculo mais distópico, de privação de sonhos, de desespero e de opressão.
A Nota Técnica, publicada em 21 de janeiro, assinada pelo Sr. Hélio Angotti Netto, Secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde do Ministério da Saúde, e que causou indignação nacional e internacional, é apenas mais um dos crimes cometidos pelos prepostos do presidente República e por ele mesmo.
Deveriam todos, Jair Bolsonaro, ministro Queiroga e Helio Angotti responderem judicialmente por mais esse crime contra a saúde pública e invasão de competências.
Contrariando todas os resultados de pesquisas produzidas no Brasil e no mundo, Helio Angotti, um médico com doutorado, em estado de servidão absoluta ao presidente, pulveriza seu nome e sua carreira para agradar àquele que o elevou ao altíssimo e “valorizadíssimo” cargo, temporário, de Secretário no Ministério da Saúde.
Ao afirmar a eficácia da hidroxicloroquina para o tratamento da Covid-19 e a ineficácia da vacina para a prevenção da doença, o Sr Helio demonstra seu estado terminal de cegueira e de vassalagem ao presidente, aliás, diga-se de passagem, um presidente também em estágio terminal, equilibrando-se, como pode, para preservar-se e a seus filhos, do triste destino dos criminosos contra a humanidade.
Quando pensávamos que a triste história do “Kit Covid”, que tantas vidas ajudou a ceifar, estivesse enterrada, aguardando apenas o julgamento de seus mentores, surge um novo personagem, até então desconhecido, que ocupa as mídias e as redes sociais com seu espetáculo macabro. Queiroga e Bolsonaro, escondidos atrás das cortinas, vendo seu preposto trabalhar e aparentemente “brilhar”.
A aparente contradição entre a Nota Técnica e as ações de Queiroga, e do próprio Angotti, incentivando a vacinação e a testagem da população é estratégia, apenas, mais uma tática usada para criar confusão e dúvidas nos mais desavisados.
Crime se combate com justiça. Há aparato normativo capaz de responsabilizar todos aqueles que têm desafiado o Judiciário, o Ministério Público, a Polícia Federal, a Anvisa, o povo e suas forças sociais.
A democracia e a ciência ainda resistem, apesar de todos os ataques. Com o tensionamento chegando ao limite, talvez vejamos as instituições e seus representantes, se levantando para dizer “basta”, não dá mais para suportar esse show de horrores e de violações de direitos.
Somos uma nação e um povo, com capacidade, ainda, de se levantar para preservar sua dignidade e recuperar o direito a projetar o futuro.
A Nota Técnica do Ministério da Saúde nada mais representa do que uma ODE ao obscurantismo e à limitação cognitiva e afetiva daqueles que a promoveram.
Viva a Democracia! Viva a Ciência ! Viva o SUS! Viva o povo que se organiza e que começa a se levantar contra as barbáries.