Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Religião

O Natal e o nosso contraditório modo de viver o cristianismo

Ao tempo em que nas igrejas o aniversário de Jesus é anunciado com músicas, aleluias e louvores, referindo-se ao Deus que nos amou com amor infinito, religiosos vociferam contra aqueles que têm a coragem de pensar diferente

Publicado em 12 de Dezembro de 2023 às 01:40

Públicado em 

12 dez 2023 às 01:40
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Em breve comemoraremos o nascimento de Jesus, “o Deus que se fez homem e habitou entre nós”. Em todo o mundo as pessoas se mobilizam investindo esforços e recursos volumosos em sua celebração.
As cidades estão enfeitadas de verde e vermelho com luzes posicionadas nas árvores e nas decorações de parques e ruas. As vitrines das lojas estão ornamentadas com grandes “papais-noéis” que evidenciam um convite explícito para que todos adentrem para contemplar as novidades e se lembrar de amigos e pessoas queridas que “precisam” ser presenteadas, como sinal de que foram lembradas.
No interior das casas há belas árvores de Natal com enfeites multicoloridos e, nas fachadas dos prédios, iluminações feitas com pisca-piscas que anunciam alegremente que vivemos tempos de comemoração.
Há um aparente clima de amor e paz envolvendo a todos que se abraçam e se presenteiam. Os restaurantes e bares estão cheios e o vinho parece alegrar os corações dos comensais.
As manifestações de solidariedade se multiplicam e aparecem em grupos que se reúnem para presentear os mais carentes que, provavelmente, nada receberiam nesse dia.
São inúmeras as cantatas ensaiadas nas escolas por crianças de coração singelo e sincero que entoam belas e significativas músicas que se referem ao Deus menino que nasceu em uma manjedoura na cidade de Belém há, provavelmente, 2023 anos, filho de pais pobres e que tiveram de sair de seu país para não serem mortos ou terem seu filho sacrificado pelo poder estabelecido.
Refugiados sim, rejeitados por todos, sacrificados da casa e do trabalho, tendo Maria que parir em uma manjedoura, hoje embelezada e limpa nos presépios glamourizados, como se o odor e os excrementos dos animais ali não estivessem presentes. Manjedoura esterilizada e adornada para chegar às nossas casas sem nos causar incômodos e repulsa.
Nada contra que o espírito natalino nos envolva em um convite amoroso à paz e ao amor. Nada contra os abraços e ao compartilhar da mesa para festejar e celebrar o nascimento de Jesus e o Natal. Nada contra a solidariedade e a tentativa de minimizar o sofrimento de alguns pela falta do presente.
De fato, a falta de dinheiro para presentear faz sofrer alguns que não podem seguir a ordem natural dos acontecimentos que exigem de todos comemorar o Natal dentro dos ritos estabelecidos por um comércio voraz e potente.
Segundo previsão da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, o comércio natalino deve movimentar, este ano, em torno de R$ 65 bilhões, o que representará um crescimento de 5,6% nas vendas. Os números são animadores no quesito economia em ascensão no país.
O triste é pensar que em 2022 a União empenhou apenas R$  128 bilhões para a Educação. Isso representa que gastaremos no Natal, em apenas um mês, com presentes, festas e diversões, 50% desse valor. A mesma correlação pode ser feita com os valores empenhados pela União na saúde, onde tivemos um empenho de apenas R$ 155 bilhões.
Em um raciocínio simplificado, sem considerarmos que esses valores movimentam a economia, o que exigiria mais espaço de reflexão, podemos assumir que estamos em uma contradição em termos.
Ficar sem os presentes do Natal não comprometeria o nosso futuro, mas sem a saúde e a educação nosso futuro está sim, significativamente, comprometido.
Essa inversão de valores e de perspectiva representa, por exemplo, entre outras avaliações possíveis, nosso contraditório modo de viver o cristianismo.
Neste ano, a tradicional troca de presente de natal acontece na última segunda-feira de dezembro.
Presentes no Natal Crédito: Divulgação
Ao tempo em que nas igrejas o aniversário de Jesus é anunciado com músicas, aleluias e louvores, referindo-se ao Deus que nos amou com amor infinito, religiosos vociferam contra aqueles que têm a coragem de pensar diferente ou que, ao menos, tentam questionar os dogmas, frutos, muitas vezes, de um cristianismo inautêntico e de hermenêuticas comprometidas com interesses escusos.
O Jesus adorado pelos cristãos não expulsou as prostitutas, nem teve preconceito de ouvi-las e de conversar com elas. Não há relatos bíblicos de que tenha rejeitado os gays, que certamente existiam em seu tempo.
Ele conversou com Zaqueu, um corrupto e almoçou em sua casa. Não foi um Deus preconceituoso, violento, excludente e amigo dos poderosos. Foi um Deus dos pobres e dos necessitados, que não se envolvia com os poderes constituídos, mas, antes, pregava que se desse a Cesar o que era de Cesar e a Deus o que era de Deus.
Os relatos bíblicos indicam que a convivência utilitarista de líderes religiosos que se imiscuem e se sujam com o poder político com a finalidade de angariar privilégios nunca esteve no projeto de Deus.
Enquanto o cristianismo está baseado no amor, na paz e na liberdade, o medo do inferno e da ira de Deus é usado para manter encabrestados cristãos desavisados, mantidos na ignorância por conveniência de lideranças religiosas inescrupulosas que enriquecem enquanto os cristãos são mantidos na miséria.
Enquanto o cristianismo fundamenta suas bases no amor, na verdade, na igualdade e na justiça social, muitos cristãos vivenciam práticas de violência, fake news, acumulação de riquezas e injustiça social.
Entendem, muitos deles, absurdamente, que os pobres existem para que possamos exercitar nossa misericórdia com as sobras daquilo que acumulamos e que não nos interessa mais.
Celebremos o Natal de Jesus lembrando que ele era pobre, refugiado, possivelmente negro e que pregou o amor, a não violência, a liberdade e o respeito mútuo.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Gina Strozzi no Fórum da CEPAL 2026
Pesquisadora do ES participa de Fórum dos Países da América Latina e do Caribe sobre Desenvolvimento Sustentável
Atropelamento deixa motociclista e pedestre feridos em Castelo
Atropelamento deixa motociclista e pedestre feridos no Centro de Castelo
Paulo Folletto
Após recuo, Folletto avalia candidatura a deputado estadual

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados