Os recentes ataques às escolas no Brasil têm desencadeado uma onda de medo e de busca por soluções capazes de garantir a segurança de nossos estudantes, em especial crianças e adolescentes.
As estratégias são muitas e variadas, e começam a tomar a forma de políticas públicas de garantia de segurança por meio da liberação de recursos e da elaboração de projetos que possam enfrentar um problema de magnitude inimaginável. As soluções, entretanto, nem sempre são condizente e compatíveis com a natureza e as origem de um problema que se apresenta sob a forma de ataques localizados, mas que se expandem e espalham pelo país.
O pânico parece ter tomado conta das próprias crianças que, em uma inocência perdidas, seja em razão das vivencias cotidianas de violência mais acentuadas e visibilizadas nas periferias e morros das cidades, seja em razão das notícias apavorantes escutadas nos noticiários ou nos diálogos sussurrados no meio da família e na escola, já começam também a encontrar seus próprios meios de defesa e preservação da vida.
Os relatos são diversos e as soluções mirabolantes, mostrando que não se sentem protegidas e que entendem ser necessário agir de modo a proteger-se do mal que se aproxima cada vez mais delas.
A escola, lugar de acolhimento, segurança, diversão, aprendizado, compartilhamento de saberes e de afetos, vai, aos poucos, se transformando em lugar de medo e de busca de estratégias de luta, de autodefesa e autoproteção.
Relatos de agulhas, tesouras e outros objetos escondidos nas mochilas começam a aparecer. Sejam incentivados por pais angustiados, desesperados e sem a real dimensão dos riscos que essas medidas de autodefesa podem acarretar, sejam imaginados pelas próprias crianças em sua ingenuidade pueril, o certo é que a violência vai se alastrando de forma incontrolável e se tornando padrão culturalmente aceito e validado socialmente.
As informações são de que já temos 22 estados brasileiros com politica autorizada de policiamento armado nas escolas. A militarização, entretanto, longe de representar uma solução para o problema, pode representar o agravamento dele.
Investir em uma cultura armamentista para o combate a violência nas escolas pode se transformar em dos maiores equívocos políticos da segurança e da educação brasileira. O medo não pode determinar a política pública. Política pública de segurança se estabelece com estratégia e inteligência e não com armamento de guerra.
Não há policiamento capaz de enfrentar uma cultura de valorização das armas, da violência, das disputas de narrativas e de estímulo diário ao ódio ao diferente, ao pobre e a todos que, de alguma forma, parecem interferir em meus projetos de poder e de realização de interesses meramente pessoais, sem qualquer compromisso coletivo.
A paz é o único caminho alternativo para o enfrentamento da violência. E essa afirmativa, registre-se, em nenhuma sentido desmerece as alternativas vinculadas à fé e ao espírito cristão. Muito pelo contrário. As igrejas comprometidas com o projeto cristão de paz deveriam envolver-se em projetos implicadas com o estabelecimento de relações de respeito à dignidade, ao amor, à solidariedade e à paz. A igualdade é condição necessária à paz. Enxergar o outro como igual a quem desejar os mesmos direitos e respeito que a si próprio.
Para os que defendem que o enfrentamento do problema passa, necessariamente, pelo policiamento armado ostensivo em cada uma das escolas brasileiras, sugiro pensar que a educação é um projeto complexo, multidimensional, sustentado em ideais de vida, paz e amizades. Aprender é um fenômeno envolvido e banhado em linguagem comprometida com o outro com quem compartilho a vida, os projetos em construção do presente e dos sonhos de futuro.
Desarmar os espíritos, desarmar a sociedade e envolver a vida de sonhos transformados em realidade de que saúde, educação, alimentação saudável, água potável, cultura, dignidade, felicidade, paz e muitos outras coisas que julgamos terem sido conquistadas com os nossos próprios esforços de trabalho, são direitos a serem gozados por todos em uma sociedade que se almeja livre, democrática e justa.