Assisti, sem qualquer espanto, ao pronunciamento presidencial, no qual, ao comentar a contratação de cerca de 100 mil docentes pela ex-presidente Dilma Rousseff, Bolsonaro declara que o Brasil tem excesso de professores e que isso atrapalha.
Ele está corretíssimo! Professores atrapalham o projeto que vem sendo executado, com bastante sucesso, que visa à inviabilização da construção de uma nação de homens livres e iguais.
Executado no Brasil, ao longo de toda a nossa história, da colônia à República, o projeto brasileiro conviveu com breves períodos de tentativas de rompimento e insurreição, nos quais o povo reivindicou, com alguma possibilidade de sucesso, a reversão desse cenário de manutenção do escravagismo moderno, maquiado de Direitos Humanos, mas violados de forma sistemática e rigorosamente na medida necessária à conservação de “tudo como dantes no quartel do Abrantes”.
A afirmativa do presidente é, assim, perfeitamente coerente e compatível com sua natureza. A pobreza de espírito e de mente não pode conviver com a grandeza, a beleza e os riscos do conhecimento e do saber humano que transformam o mundo e nos encaminham para um projeto civilizatório de respeito à dignidade e à vida.
A escuridão, com seu véu encobridor da realidade carregada de distopias, abomina a luz que ilumina as contradições e tudo aquilo que se deseja manter oculto e que possa causar indignação, revolta e possível insurreição.
A estratégia de ocultamento das mazelas humanas por meio da manutenção do povo na ignorância sempre foi, e ainda é, a principal tática utilizada para a conservação do status quo, da concentração de renda e da permanência no poder.
Não há nada de novo na fala presidencial. Ele apenas repete, de forma tosca, rústica e sem maquiagens aquilo que tantos outros o fizeram de forma a falsear a realidade, com discursos de uma necessária e dissimulada austeridade fiscal com vistas a equilibrar as contas públicas e não onerar o Estado com despesas maiores do que pode suportar.
Estranho seria se fizesse diferente, investindo nas universidades, na ciência e em professores. Em sua ignorância, destrutiva e devastadora, o presidente foi capaz de, em pouco mais de dois anos de governo, aniquilar o pouco que havia sido conquistado e construído com a luta, o sacrifício, a resiliência e a dedicação de tantos professores que conseguiram manter uma produção de qualidade, e em quantidade muito superior à possível, diante das condições adversas oferecidas à inteligência de nosso país.
O presidente é o que há de mais disforme, distópico e tosco que o Brasil já teve em termos de comando da nação. Os que ainda conseguem afirmar que ele é o “melhor presidente que o Brasil já teve”, ou possuem interesses escusos que ainda não foram completamente atendidos ou estão entorpecidos em suas inteligências e capacidade de olhar e pensar a realidade por meio dos mecanismos neurais que transformam a observação do mundo natural e social em pensamento crítico e reflexivo.
PAULO FREIRE
Os 100 anos de Paulo Freire: a tentativa de desconstrução de seu legado para a humanidade faz parte desse projeto de manutenção do povo na ignorância para que a opressão e a exploração permaneçam sempre nos mesmos patamares.
O projeto libertário e emancipador da proposta educacional freiriana é incompatível e insuportável aos donos do poder. Ele nega a neutralidade e assume as contradições. Educar é, em si mesmo, um ato político. Um convite ao questionamento da realidade e ao descobrimento do outro, seja em sua condição de opressor ou de oprimido.
A simples possibilidade de que o trabalhador ou qualquer homem comum do povo se descubra explorado, ludibriado, oprimido e se revolte contra isso é um risco que os donos do poder não querem correr.
A proposta de Paulo Freire de uma pedagogia da autonomia, da liberdade e da esperança é insuportável e inaceitável, tanto para a parcela atrasada da elite econômica que se afirma democrática, mas que compreende a democracia de modo restritivo, apenas para a consecução de seus projetos de poder e de manutenção da desigualdade, quanto para parcela das elites militares que distorcem o projeto militar democrático e sonham com regimes militares autoritários, sangrentos e vergonhosamente perversos e corruptos.
O presidente, uma marionete útil, colocado na cadeira presidencial para cumprir uma agenda específica, já extrapolou todos os limites possíveis do razoável, até para aqueles que ali o colocaram.
Confirmou a tese freiriana de que “quando a educação não é libertadora, o sonho de todo oprimido é se tornar um dia opressor”. O presidente, homem de origem humilde, não pertencente aos núcleos centrais da elite econômica. Em sua limitação intelectual e crítica, típica da educação bancária, proselitista e catequética que certamente teve, Bolsonaro não consegue perceber que seus arroubos antidemocráticos, aplaudidos por fundamentalistas ultraliberais, que o abandonarão em breve, são fruto de uma falta de consciência crítica que o faz acreditar pertencer a um grupo que o rejeita e de si faz escárnio, chacota e opróbrio.