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Pandemia

Ômicron é a dura lição do vírus: a desigualdade coloca o mundo todo em risco

Não teremos paz, vida e futuro enquanto as nações ricas, ditas civilizadas, não entenderem que a vacina não pode ser produto mercantil a tornar a indústria farmacêutica ainda mais poderosa e lucrativa

Publicado em 30 de Novembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

30 nov 2021 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Quando tudo parecia voltar ao normal, com as pessoas e os governos se preparando para novos projetos pautados na liberdade e no lazer, com a liberação do uso de máscaras em locais públicos e a possibilidade de voltarmos a nos aglomerar, inclusive para a realização de festejos como o carnaval, a maior festa brasileira, o mundo volta a agonizar diante da possibilidade de uma nova onda da pandemia.
Às primeiras notícias de que uma mutação do vírus havia sido identificada na África do Sul, na última sexta-feira (26), o mundo reage no sentido de se autoproteger, com as nações mais ricas e poderosas do mundo fechando suas fronteiras para voos originados dos países sul-africanos.
Os cientistas que, de forma civilizada, científica e transparente, tornaram pública sua descoberta, fruto de cuidados com o controle da transmissão, acabaram penalizando seus países, já tão afligidos pela desigual condição de sua população no que diz respeito à imunização.
O fechamento de fronteiras, com tentativas de bloqueios, impedindo que a nova variante se espalhe pelo mundo, ainda que seja medida sanitária relevante para o adiamento da capilarização do vírus, constitui medida temporária, que evidencia e aprofunda a intensa desigualdade na qual estamos mergulhados, e anestesiados, diante de uma sociedade altamente concentradora de renda e de direitos.
A vacina que sobra em países ricos como EUA, Alemanha, Reino Unido, entre outros, ficando à disposição de todos que a desejarem, falta em países pobres, especialmente nos africanos, onde apenas 6,6 % da população já se encontra vacinada.
As bolsas de valores de Nova York, Tokio, Rio e Janeiro e São Paulo, que quase convulsionaram, na última sexta-feira, com a notícia da descoberta da variante, reagiram da única forma que o capital/mercado sabe reagir: fechando-se e protegendo-se daqueles que, supostamente, de forma preconceituosa, avaliam serem os transmissores originais do vírus.
A culpabilização da pobreza e da miséria que eles mesmo fomentaram e alimentaram com seu insaciável apetite por lucro, que ignora todos que não se encontram nos patamares superiores da escala social.

ACESSO IGUALITÁRIO A VACINAS

Os países ricos deveriam ter compreendido que, no mundo globalizado, de fronteiras fluidas, de nada adianta terem a maioria de seus cidadãos alimentados e vacinados, se o mundo também não tiver acesso a esses mesmos direitos.
O vírus é altamente democrático e viajante frequente, não dependente de dólares e euros para se deslocar. Não reverencia aos poderosos e não se submete a fronteiras, barreiras físicas, ideais de raças e de classes.
Ele se infiltra também nos hotéis de luxo e nos palácios, ainda que altamente protegidos por barreiras sanitárias somente disponibilizadas aos avantajados economicamente.
A democratização da vacina, se não for fruto de uma solidariedade humanitária, que respeita e compreende os Direitos Humanos como direitos universais, a serem disponibilizados a todos indistintamente e não apenas positivados em convenções internacionais, que demonstram o estágio civilizatório de uma nação, precisa ser fruto de uma inteligência política e econômica média, que compreende os riscos da concentração radical de renda.
Não teremos paz, vida e futuro enquanto as nações ricas, ditas civilizadas, não entenderem que a vacina não pode ser produto mercantil a tornar a indústria farmacêutica ainda mais poderosa e lucrativa.
As centenas de variantes que surgirem nos países com baixa vacinação em razão das condições de miséria e de falta de solidariedade internacional, irão, sempre, se espalhar pelo mundo, tirando a paz, a saúde, a vida e a sanidade mental de todos.
A África, colonizada e escravizada, que produziu as riquezas dos colonizadores brancos, precisa ser ressarcida de algum modo, seja por reconhecimento da miserabilidade imposta pela exploração, seja pela constatação de que a desventura produzida para alimentar a luxúria um dia cobrará a conta.
A bolha produzida para proteger os cidadãos cujas vidas consideram dignas de serem vividas está prestes a estourar. O vírus não se retrai diante de barreiras, ainda que aparentemente intransponíveis.
Os que ficarem do lado de fora da bolha, temporariamente cegos pelos discursos fáceis de manipulação das consciências, poderão vir a ser iluminados pelo extremo desencanto com a condição cruel, desumana e vexatória com que são tratados e conduzidos à morte lenta e agonizante, enquanto espumantes borbulham nas taças transparentes de uma elite atrasada e embrutecida pela ganância e pelos sonhos de poder.
Pode ser que, em breve, vejamos milhões de esfomeados e não vacinados se levantando, não mais para reivindicar a quebra das patentes ou a doação de vacinas e alimentos.
Pode ser que a revolta tenha atingido níveis tão altos que não seja mais tempo de negociar ou de aceitar migalhas em troca da dignidade.
Os Direitos Humanos são essenciais, inalienáveis, inegociáveis e irrenunciáveis, não se destinando apenas a grupos específicos. Eles têm que ser efetivos, concretizados no aqui e agora da existência humana.
O direito à saúde e à vida, aos quais a vacina é indispensável, são Direitos Humanos Fundamentais. As desigualdades e em especial, neste momento, a desigualdade vacinal colocam em risco o futuro da humanidade.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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