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Covid-19

Pandemia dos não vacinados: vergonha, dor e responsabilidade criminal

Tarde demais para muitos que, por acreditarem em inverdades, colocaram suas vidas em risco, não tendo agora mais tempo para se arrependerem

Publicado em 08 de Fevereiro de 2022 às 02:00

Públicado em 

08 fev 2022 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Vacinas servem como escudo para proteção contra doenças
Vacinas servem como escudo para proteção contra doenças Crédito: Pexels
Mais cedo do que imaginávamos a verdade prevaleceu sobre a mentira e a ciência preponderou sobre a ignorância.
Do modo melancólico, para sofrimento, dor e vergonha de muitos, os números desvelaram o que alguns preferiam ver ocultado no véu da ignorância que se alastra pelo país, mediado pelo fanatismo religiosos de alguns e pelos interesses privados, econômicos e de poder de outros.
Em pouco mais de um mês de recrudescimento da pandemia e avaliados os estragos produzidos pela variante Ômicron, as estatísticas expõem os resultados das estratégias dos pertencentes aos movimentos antivacinas, bem como dos fanáticos religiosos e dos fieis seguidores do presidente da República, que continuaram a se manifestar contrários à vacinação, reafirmando serem as vacinas ineficazes e o tratamento precoce, eficaz.
Utilizando-se de fake news e de táticas diversas de convencimento de muitos, inclusive por meio de instituições antes comprometidas com a ciência e a verdade, tais como o Conselho Federal de Medicina, o Ministério da Saúde e tantas outras, convenceram milhares de pessoas a não se protegerem com a vacina, colocando suas vidas em risco e expondo-se ao caricato papel de ignorância e incapacidade cognitiva, tendo em vista as evidências amplamente divulgadas das vacinas e a ineficácia da hidroxicloroquina.
Tarde demais para muitos que, por acreditarem nessas inverdades, propagadas a partir de interesses muitas vezes privados, colocaram suas vidas em risco, não tendo agora mais tempo para se arrependerem, haja vista terem perdido suas vidas, ou comprometido sua saúde, passando a conviver, a partir de agora, com sequelas, tantas vezes incapacitantes e limitadoras de uma vida plena e funcionalmente produtiva.
As estatísticas estão aí para fundamentar o reconhecimento por parte daqueles que se tiveram a oportunidade e o tempo de ainda voltar atrás e se vacinarem. Dados divulgados pelo Hospital Emílio Ribas, de São Paulo, confirmam a eficácia das vacinas de modo direto e objetivo, independente de pesquisas mais aprofundadas, que, certamente, ainda serão realizadas. 85% dos mortos por Covid-19 no último trimestre não estavam com a vacinação completa.
Da mesma forma, a Rede D’or, um dos maiores conglomerados de hospitais privados do país, afirmou em depoimento recente de seu vice-presidente que a maioria das pessoas com gravidade na internação pertenciam ao grupo dos não vacinados ou com ciclo vacinal incompleto.
No Espírito Santo, as taxas de mortalidade para Covid-19 em janeiro de 2022 confirmam aquilo que todas as instituições sanitárias mais importantes e respeitadas do mundo já afirmavam, qual seja, as vacinas são eficazes, reduzindo o número de óbitos e de complicações graves naqueles que forem infectados.
No ES, enquanto 130 por 100 mil pessoas não vacinadas foram a óbito, apenas 2,4 por 100 mil entre os vacinados com todas as doses tiveram o mesmo destino. A diferença é 56 vezes menor para aqueles que seguiram a ciência e se vacinaram. Mesmo aqueles que tomaram apenas a primeira dose contaram com alta proteção, ficando na faixa de 4,3 por 100 mil.
O certo é que o custo da ignorância e da irresponsabilidade de muitos foi alto o suficiente para causar um estrago nacional.
Os que sobreviveram terão a possibilidade de rever suas decisões e, a partir de agora, aceitarem as evidências científicas, buscando a única alternativa realmente eficaz de controle do vírus.
Conviverão, certamente, com a vergonha, o descrédito e escárnios indevidos, que, neste momento tão grave, deveriam ser silenciados. Outros, entretanto, muitos aliás, que perderam seus familiares, haverão de conviver com a dor e o desconforto de saber que tudo isso poderia ter sido evitado com um simples ato de se vacinarem e respeitarem os determinantes científicos como modo de condução de suas vidas e de sua saúde.
A questão que fica, para além dessas estatísticas que evidenciam a produção intencional de mortos e de sequelados da Covid, com seus elevados custos econômicos, sanitários e sociais, é quem será responsabilizado pela condução de tantos a essa situação.
As instituições e pessoas que divulgaram informações inverídicas, disseminando e validando condutas de risco, serão responsabilizadas criminalmente por seus atos?
Os dados estão aí para sustentar argumentações de responsabilização dos entes públicos por crimes sanitários inegáveis. As instituições e os atores responsáveis pela adoção de medidas judiciais ficarão em silêncio ou se posicionarão em defesa da sociedade?
A prevaricação, crime preferido dos brasileiros, será mais uma vez adotada, com silêncio conivente e passividade, construindo no imaginário social a descrença na Justiça e no Direito?
Terá chegado a hora na qual a sociedade se movimente em indignação e revolta contra aqueles que por meio de mentiras e manipulações a levaram ao estado de calamidade pública, de dor e de vergonha internacional no qual nos encontramos?
Quem pagará a conta dos custos das fake news, dos desmandos originados dos órgãos estatais, das instituições como o Conselho Federal de Medicina, dos atores estatais e sociais que alimentaram esse estado de coisas que nos levaram à quantidade de mortos e sequelados que poderiam ter sido evitados?

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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