Mais cedo do que imaginávamos a verdade prevaleceu sobre a mentira e a ciência preponderou sobre a ignorância.
Do modo melancólico, para sofrimento, dor e vergonha de muitos, os números desvelaram o que alguns preferiam ver ocultado no véu da ignorância que se alastra pelo país, mediado pelo fanatismo religiosos de alguns e pelos interesses privados, econômicos e de poder de outros.
Em pouco mais de um mês de recrudescimento da pandemia e avaliados os estragos produzidos pela variante Ômicron, as estatísticas expõem os resultados das estratégias dos pertencentes aos movimentos antivacinas, bem como dos fanáticos religiosos e dos fieis seguidores do presidente da República, que continuaram a se manifestar contrários à vacinação, reafirmando serem as vacinas ineficazes e o tratamento precoce, eficaz.
Utilizando-se de fake news e de táticas diversas de convencimento de muitos, inclusive por meio de instituições antes comprometidas com a ciência e a verdade, tais como o Conselho Federal de Medicina, o Ministério da Saúde e tantas outras, convenceram milhares de pessoas a não se protegerem com a vacina, colocando suas vidas em risco e expondo-se ao caricato papel de ignorância e incapacidade cognitiva, tendo em vista as evidências amplamente divulgadas das vacinas e a ineficácia da hidroxicloroquina.
Tarde demais para muitos que, por acreditarem nessas inverdades, propagadas a partir de interesses muitas vezes privados, colocaram suas vidas em risco, não tendo agora mais tempo para se arrependerem, haja vista terem perdido suas vidas, ou comprometido sua saúde, passando a conviver, a partir de agora, com sequelas, tantas vezes incapacitantes e limitadoras de uma vida plena e funcionalmente produtiva.
As estatísticas estão aí para fundamentar o reconhecimento por parte daqueles que se tiveram a oportunidade e o tempo de ainda voltar atrás e se vacinarem. Dados divulgados pelo Hospital Emílio Ribas, de São Paulo, confirmam a eficácia das vacinas de modo direto e objetivo, independente de pesquisas mais aprofundadas, que, certamente, ainda serão realizadas. 85% dos mortos por Covid-19 no último trimestre não estavam com a vacinação completa.
Da mesma forma, a Rede D’or, um dos maiores conglomerados de hospitais privados do país, afirmou em depoimento recente de seu vice-presidente que a maioria das pessoas com gravidade na internação pertenciam ao grupo dos não vacinados ou com ciclo vacinal incompleto.
No Espírito Santo, as taxas de mortalidade para Covid-19 em janeiro de 2022 confirmam aquilo que todas as instituições sanitárias mais importantes e respeitadas do mundo já afirmavam, qual seja, as vacinas são eficazes, reduzindo o número de óbitos e de complicações graves naqueles que forem infectados.
No ES, enquanto 130 por 100 mil pessoas não vacinadas foram a óbito, apenas 2,4 por 100 mil entre os vacinados com todas as doses tiveram o mesmo destino. A diferença é 56 vezes menor para aqueles que seguiram a ciência e se vacinaram. Mesmo aqueles que tomaram apenas a primeira dose contaram com alta proteção, ficando na faixa de 4,3 por 100 mil.
O certo é que o custo da ignorância e da irresponsabilidade de muitos foi alto o suficiente para causar um estrago nacional.
Os que sobreviveram terão a possibilidade de rever suas decisões e, a partir de agora, aceitarem as evidências científicas, buscando a única alternativa realmente eficaz de controle do vírus.
Conviverão, certamente, com a vergonha, o descrédito e escárnios indevidos, que, neste momento tão grave, deveriam ser silenciados. Outros, entretanto, muitos aliás, que perderam seus familiares, haverão de conviver com a dor e o desconforto de saber que tudo isso poderia ter sido evitado com um simples ato de se vacinarem e respeitarem os determinantes científicos como modo de condução de suas vidas e de sua saúde.
A questão que fica, para além dessas estatísticas que evidenciam a produção intencional de mortos e de sequelados da Covid, com seus elevados custos econômicos, sanitários e sociais, é quem será responsabilizado pela condução de tantos a essa situação.
As instituições e pessoas que divulgaram informações inverídicas, disseminando e validando condutas de risco, serão responsabilizadas criminalmente por seus atos?
Os dados estão aí para sustentar argumentações de responsabilização dos entes públicos por crimes sanitários inegáveis. As instituições e os atores responsáveis pela adoção de medidas judiciais ficarão em silêncio ou se posicionarão em defesa da sociedade?
A prevaricação, crime preferido dos brasileiros, será mais uma vez adotada, com silêncio conivente e passividade, construindo no imaginário social a descrença na Justiça e no Direito?
Terá chegado a hora na qual a sociedade se movimente em indignação e revolta contra aqueles que por meio de mentiras e manipulações a levaram ao estado de calamidade pública, de dor e de vergonha internacional no qual nos encontramos?
Quem pagará a conta dos custos das fake news, dos desmandos originados dos órgãos estatais, das instituições como o Conselho Federal de Medicina, dos atores estatais e sociais que alimentaram esse estado de coisas que nos levaram à quantidade de mortos e sequelados que poderiam ter sido evitados?