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Religião

Papa Francisco e a coragem de enfrentar as contradições da Igreja Católica

A coragem de pensar e de agir diferente de tudo o que foi construído e sustentado pelo papado ao longo dos séculos certamente tem um preço e, pelo visto, o papa Francisco está disposta a pagá-lo

Publicado em 08 de Agosto de 2023 às 00:10

Públicado em 

08 ago 2023 às 00:10
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Papa Francisco no Rio de Janeiro, em 2013
Papa Francisco  Crédito: Folhapress
Desde que assumiu o papado em 2013, o papa Francisco vem provocando profundas mudanças e fissuras em uma das instituições religiosas cristãs mais importantes do mundo, a Igreja Católica Romana.
A coragem de pensar e de agir diferente de tudo o que foi construído e sustentado pelo papado ao longo dos séculos certamente tem um preço e, pelo visto, o papa Francisco está disposta a pagá-lo, sabendo que não há mais tempo possível para adiar o enfrentamento das contradições e distopias que maculam e desonram aquela que é a maior e mais reverenciada instituição cristã do planeta, com influência em todas as áreas e setores, na política, na economia, no campo da moral e da justiça, enfim, em todos os âmbitos da vida.
Mesmo os governos reconhecidamente não católicos guardam profundo respeito ao papa como chefe de Estado e não apenas como chefe da Igreja Católica.
O incômodo causado na cúria romana e em alguns setores conservadores da Igreja Católica com as declarações e com os hábitos simples começou desde o início de seu papado, quando Francisco abriu mão do luxo e da ostentação vivenciados no Vaticano e fez opção por estar perto daqueles com os quais se identifica como simples pastor de ovelhas.
Ao abdicar dos aposentos luxuosos do Palácio Apostólico que lhe estavam destinados, ele mostra a que veio e assume sua condição de homem igual a todos os demais apenas colocado em um lugar para servir e não para ser servido.
Ao abolir a emblemática sessão de “beija-mão” denotativa de submissão e obediência dos fiéis, Francisco demarca uma mova modelagem papal, um rompimento perturbador e incômodo para os conservadores pertencentes a uma igreja que se distanciou dos fiéis e se encastelou nos palácios papais, longe da dor, do sofrimento e do cheiro do povo.
Ao trocar o anel de ouro usado por todos os demais papas anteriores, passando a usar um simples anel de prata, Francisco se compromete, simbolicamente, não mais com o fausto e o esplendor do ouro palaciano, lapidado à custa da miséria e da escravidão, típico dos reis, para assumir sua real condição de pescador de homens em nome do Cristo.
Romper com ritos e tradições institucionalizados e sacralizados na igreja provocaram incômodos e rupturas difíceis de serem compreendidas por aqueles que optam por reverenciar costumes, mesmo que já ultrapassados e carentes de sentido na atualidade.
Aos destinatários de sua real missão, aqueles a quem os pastores devem se dedicar, Francisco indica sinais fortes de que a igreja está mudando, não mudando no sentido de se “modernizando”, como afirmam alguns críticos e defensores dos costumes e tradições, mas voltando ao primeiro amor, aquele ao qual foi efetivamente vocacionado.
Um abraço no papa é mais carregado de simbolismo do que um anel de ouro beijado em um ritual de servidão, submissão e obediência irrestrita a um homem que precisamos considerar apenas como alguém com uma missão em prol do evangelho e não um representante de Deus na terra.
Ao beijar as mãos dos cardeais do Vietnã e da China, Franciso inverte a lógica e tenta repetir o ensinamento de humildade de Cristo quando lavou os pés dos discípulos.
Foram muitos os sinais enviados por Francisco de que as tradições devem estar subordinadas ao amor e a compaixão. Nos últimos dias ele potencializa essa mensagem vivida de que o amor deve ser a marca do cristão e não a pompa e as tradições.
Convidar os fieis ao amor concreto e não abstrato é a prova maior de um revolucionário em uma igreja cristalizada em tradições pouco afeitas aos ditames do cristianismo. Amar como Cristo amou implica em afastar o “asco da pobreza dos outros” e sujar as mãos na miséria e nas chagas que se avolumam na penúria construída e fomentada pela ganância que mata e destrói a vida e a dignidade.
Francisco anuncia o evangelho a partir dos mais frágeis e miseráveis e dos compromissos de solidariedade social e pessoal. Não é um comunista no sentido estrito da palavra como o acusam alguns.
É apenas um cristão comprometido com os ensinamentos do Cristo. Cristãos que hoje são tachados por muitos, que se afirmam hipocritamente como cristãos, como comunistas.
Amor no concreto para Francisco é agir no concreto em defesa dos mais pobres e vulneráveis. Sujar as mãos na miséria, na doença e nas chagas é viver o verdadeiro amor de Cristo.
Chamar ao amor concreto é convidar aos compromissos de uma vida vivida com o outro, respeitando sua dor, seu sofrimento e sua miséria e, quem sabe, aprendendo a viver com menos para que todos possam igualmente usufruir dos bens da vida com dignidade.
O convite de Francisco a assumirmos um amor concreto e não abstrato não é um convite religioso, é um convite a todos comprometidos com a justiça, com a paz e com uma vida digna para todos e para todas.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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