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Pandemia

Pazuello tem a solidão como companhia na CPI da Covid

Esqueceu-se Pazuello de que a história é implacável com aqueles que descem do pedestal ou que não mais servem aos interesses da corte. Na realidade, ele nunca esteve no pedestal enquanto ministro da Saúde

Publicado em 11 de Maio de 2021 às 02:00

Públicado em 

11 mai 2021 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello estava sem máscara em shopping de Manaus Foto: Reprodução/Instagram
Ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello foi flagrado sem máscara em shopping de Manaus Crédito: Reprodução/ Instagram
A solidão e o medo sentidos por Pazuello, neste momento, têm muito a ensinar, especialmente àqueles que se encantam com o poder e que dele se inebriam.
A sedução dos holofotes, dos cliques das máquinas fotográficas, do assédio da imprensa, dos “tapetes vermelhos” dos gabinetes ministeriais, das cerimônias oficiais na capital federal, da bajulação de uma vassalagem aparentemente sofisticada e elegante, com seu teatral charme refinado que atraem os desavisados, parece colocar em risco não apenas os incautos e ingênuos, mas tantos que têm se visto capturados pelo desejo de fama e de ostentação em seus currículos dos cargos de ministros.
Pazuello, até então desconhecido para a maioria dos brasileiros, certamente gozava do respeito e da credibilidade entre os pertencentes ao seu núcleo mais próximo, sustentado nas honrarias e distinções com que são tratados os generais. Reconhecido como especialista em logística, devia ser admirado pelos seus subordinados que almejavam desfrutar das mesmas regalias que o generalato proporciona a alguns poucos que ingressam na carreira.
Mesmo com todas as evidências apontando no sentido de que o perigo existia e de que estava colocando em risco sua imagem de autoridade, competência, confiabilidade e credibilidade, o general decidiu arriscar sua biografia imaginando-se, quem sabe, mais capaz do que os que o antecederam no Ministério da Saúde, cogitando realizar o grande feito de emplacar seu nome na história como condutor eficaz da pior crise sanitária que o mundo já vivenciou.
Tinha, certamente, sobre si, um conceito maior do que realmente haveria de demonstrar no comando da pasta. Exonerou técnicos, especialistas nas mais diversificadas áreas e rodeou-se de militares vassalos que pouco tinham a lhe acrescentar na ignorância técnica que precisava camuflar.
Encheu-se de ousadia, sustentado na afoiteza arrogante do presidente Bolsonaro, acreditando-se invencível e insuperável no seu discurso tipicamente militar, nunca contestado, sustentado no silêncio da hierarquia institucional.
Afirmou e negou informações e ordens com a mesma face serena dos grandes generais do passado, nunca questionados e sempre bajulados, fosse pelo respeito, fosse pelo medo.
Autorizou a utilização de vacinas que deveriam ter sido guardadas para a segunda dose, imaginando que, a uma ordem sua, China, Índia ou qualquer outro país do mundo se apressaria a atender e proceder com o encaminhamento de insumos para produção das doses necessárias. Mobilizou aviões e suas tripulações sem os planejamentos necessários a uma operação desse porte e natureza.
Envergonhado, o general se humilhou diante do capitão que o havia desautorizado, cancelando o protocolo de intenções para a compra de 46 milhões de doses da vacina Coronavac e, com um sorriso amarelo, afirmou: "É simples assim, um manda e o outro obedece".
Esqueceu-se Pazuello de que a história é implacável com aqueles que descem do pedestal ou que não mais servem aos interesses da corte. Na realidade, Pazuello nunca esteve no pedestal enquanto ministro da Saúde. Foi sendo ridicularizado a cada dia vendo suas fragilidades expostas pela imprensa e pelo descaso e desrespeito com que era tratado por Bolsonaro.
Alarmado com os rumos que a CPI da Covid vem tomando, o general agora treme de medo e, assustado e abandonado, esconde-se vergonhosamente na trincheira, agora não mais um espaço de defesa e preparação para o ataque inimigo enquanto de pé aguarda estrategicamente a hora de agir, mas na trincheira rasa, humilhado, esperando o momento de ser preso ou enterrado.
Abandonado pelo presidente e por seus pares, Pazuello será agora tratado na CPI, pelos parlamentares, como senhor Pazuello e não mais como ministro ou general.
Sozinho, abandonado na construção estratégica de sua quase impossível defesa, haverá de enfrentar o teatro da CPI, instrumento democrático constitucional dos mais potentes, mas, sem dúvida alguma, palco importante nas disputas pelos holofotes rumo às eleições, estas sim, sempre, o interesse maior da classe política brasileira.
Saindo preso ou não, sairá de seu depoimento como testemunha com sua honra maculada, com sua imagem conspurcada, com suas entranhas evisceradas, com a dor da solidão e do abandono, com a vergonha de ter tremido de medo diante da nação e fugido do embate com o inimigo como um frágil soldado acusado de deserção.
Humilhado diante de seus pares e da tropa, envergonhado diante da família e dos amigos, respondendo a processos judiciais e correndo o risco de, ao tentar proteger-se, deixar emergir um inimigo com a potência malévola de Bolsonaro, Pazuello haverá de sentir saudades dos tempos tranquilos da caserna onde transitava com seu uniforme carregado de medalhas, admirado e invejado por muitos e amado, certamente, por alguns.
Pobre Pazuello. Pobres todos aqueles que têm se deixado tragar, afundando em águas profundas, atraídos pelo canto da sereia.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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