A comemoração do Dia Internacional da Mulher, ocorrido no último dia 8 de março, nos chegou carregada com um misto de sentimentos aparentemente contraditórios e difíceis de serem retratados com a objetividade e a clareza que a situação exige.
Manifestações pelo mundo afora, capitaneadas por mulheres, evidenciam que há riscos superlativos de que os retrocessos em andamento nos façam retroagir a patamares de direitos anteriores a este século.
Por todo o mundo mulheres se manifestaram denunciando os recuos e os riscos a que estão submetidas, não apenas em países de tradição radical quanto ao lugar da mulher na sociedade, mas, inclusive, em países de democracias consolidadas, nas quais as mulheres vinham avançando, ainda que a passos lentos, em busca da igualdade.
As passeatas ocorridas na França e na Alemanha são emblemáticas da insatisfação das mulheres com o avanço da extrema direita que coloca em risco não apenas seus direitos, mas suas próprias vidas.
Os protestos são taxados, inclusive por mulheres progressistas, de serem radicais. Afirmam algumas, ingenuamente, reproduzindo o discurso dominante, patriarcal, machista e misógino, que as mulheres devem lutar por direitos, mas que devem fazê-lo sem radicalismos, buscando instâncias de negociação.
Vi, recentemente, uma mulher independente, que ocupa um importante cargo de gerência, afirmar que acha um absurdo mulheres saindo às ruas sem sutiã como fizeram as feministas do século passado.
Esquecem-se elas, ou não sabem, que o lugar que ocupam hoje só foi possível porque mulheres que nem mesmo se reconheciam como feministas, mas o eram em essência, tiveram a coragem de tomar as ruas em busca de igualdade, respeito e dignidade.
É necessário que saibam que os direitos que lhes permitem, hoje, gozar dessa independência, liberdade e respeito não foram frutos de negociações pacíficas, foram resultado de lutas consideradas radicais tanto por homens quanto por mulheres daquela época. Lutas muitas vezes sangrentas que lhes custaram, inclusive a própria vida.
Foram as 15 mil mulheres americanas que foram às ruas de Nova York em 1908 exigir menos horas de trabalho, melhores salários e direito de votar. Foram as 146 trabalhadoras da fábrica em Nova York que morreram queimadas ao lutarem por melhores salários. Foram as mulheres europeias que em 1914 saíram às ruas lutando contra a Primeira Guerra Mundial. Foram as 400 ativistas americanas que foram às ruas em 1968 sem sutiãs e os queimaram para protestar contra a ditadura da beleza.
Foram as mais de 20.000 mulheres brasileiras do campo que em 2000 marcharam em Brasília, dando início à Marcha das Margaridas, reconhecida, hoje, como uma das maiores ações das mulheres no Brasil. Inspirado na memória de Margarida Maria Alves, líder sindical assassinada em 1983, o movimento reivindica reforma agrária, políticas de sustentabilidade, justiça social e igualdade de gênero.
É inegável que foram muitos e significativos os direitos conquistados pelas mulheres. Entretanto, dois problemas, dentre muitos outros, precisam ser analisados.
O primeiro é que esses direitos não foram concretizados para todas as mulheres em todo o mundo de forma igualitária, Há milhões de mulheres que, ainda hoje, vivem sob o jugo absoluto do poder autoritário de homens, sejam eles pais, irmãos, maridos, companheiros, patrões e, até mesmo, líderes religiosos inescrupulosos.
O segundo é que a reação masculina às conquistas das mulheres segue vigorosa e vem tomando força cada vez maior por meio de duas estratégias, com alto poder de obter resultados nefastos que podem e já estão nos levando a retrocessos significativos, quais sejam: o fundamentalismo religioso e o avanço da extrema direita em todo o mundo.
O fundamentalismo religioso vem tomando força em todo mundo e no Brasil em particular. No segmento das igrejas evangélicas neopentecostais, a princípio, depois chegando às denominações ditas tradicionais, com maior aporte educacional e teológico, como as batistas, presbiterianas, metodistas e luteranas, o fundamentalismo foi se capilarizando, chegando hoje a termos denominações tradicionais nas quais, anteriormente, mulheres pregavam e oravam em público, mas passaram a ter suas vozes silenciadas, tendo em vista o falso e hipócrita discurso teológico de que mulheres só podem falar em casa e que não podem exercer nenhum tipo de liderança ou influência sobre homens.
A submissão feminina toma espaço teológico de mesma dimensão normativa do que as igrejas cristãs consideram pecado capital. Essas igrejas pregam mais sobre a submissão feminina do que sobre o amor que o cristão deve ter por Jesus e pelos seus irmãos. É preciso manter as mulheres cativas sob um argumento religioso para que o poder do macho que vem sendo fragilizado pela presença poderosa e qualificada das mulheres no espaço público não lhes tome a primazia. Devem elas continuar a trabalhar e dividir as contas, mas absolutamente submissas a seus maridos.
A segunda estratégia é o avanço vigoroso da extrema direita que hoje já se manifesta de maneira mais livre e despudorada do que no passado. Esse avanço significa que viveremos tempos difíceis não apenas para as mulheres, mas para todos os grupos minorizados, marginalizados e vulnerabilizados.
As mulheres, reprodutoras por excelência, na perspectiva capitalista, da força de trabalho, mantenedoras do exército de vulneráveis para a manutenção do patriarcado e do capitalismo radical, tornam-se, cada vez mais, objetos a serviço do macho, tendo seus corpos controlados e manipulados ao bel prazer de homens, estejam eles em que condição estiverem, seja de detentores de poder econômico, político, religiosos ou familiar, seja de, eles mesmos, submissos ao poder econômico que a tudo controla.
O fundamentalismo religioso e o avanço da extrema direita, que seguem se ampliando, capilarizando e alastrando com suas poderosas e envolventes teias, colocam em risco as conquistas, os direitos e a vida das mulheres.
Talvez seja necessário que, mulheres que hoje se encontram em lugares relativamente confortáveis de autonomia e independência, olhem para as demais mulheres que ainda não alcançaram patamares mínimos desses direitos e se coloquem na trincheira das lutas feministas que podem parecer radicais a alguns, mas que são necessárias.
Assim como os direitos, quando conquistados, são destinados a todas, independente de terem participado das lutas, os retrocessos também atingirão a todas.
O que hoje pode parecer radical a algumas pode ser o único caminho possível para a manutenção dos direitos já conquistados e ao avanço, ainda que tímido, rumo à igualdade e dignidade da mulheres.