Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Assédio sexual

Silvio Almeida: a força e as estratégias do patriarcado

A academia está de luto. Vamos passar os próximos anos nos perguntando o que fazer daqui para a frente com sua obra? O autor e sua obra estão definitivamente ligados?

Publicado em 09 de Setembro de 2024 às 16:29

Públicado em 

09 set 2024 às 16:29
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Estamos todos de luto, tomados pelo desalento, paralisados pelo estupor, pela dor e pela impotência. Não foram um homem e uma mulher, um ministro e uma ministra de Estado, um assediador e uma vítima, um caso isolado de assédio sexual no mar de assédios que cotidianamente acontecem pelo Brasil afora.
Foi muito mais do que isso. Foi um sonho bom que alimentamos e que se tornou um pesadelo, uma crença e uma esperança que desabaram, um projeto que ruiu e que nos faz avaliar, mais uma vez, aquilo que já sabíamos, mas que sempre buscamos esquecer para sobreviver. O patriarcado se impõe até mesmo sobre aqueles que, como Silvio Almeida, compreendem sua morfologia, sua estrutura, seu poder e suas estratégias.
Ele está fortemente enraizado, entrelaçado em teias que se conectam e que lhe dão o caráter de solidez cultural, naturalizado, validado socialmente ou até mesmo negado por seus representantes, na medida em que se vê questionado ou desnudo.
O patriarcado resiste como um bloco granítico difícil de se deixar fissurar, explodir. O patriarcado se moderniza e se reinventa todas as vezes que alguma tentativa de resistência lhe é imposta.
O espetáculo é cruel e duro de digerir. Silvio Almeida - um intelectual refinado, base teórica de tantos pesquisadores e pesquisadoras de nosso país, participante, com sua obra “Racismo Estrutural”, do processo epistemológico de construção de um saber relevante, necessário, potente academicamente falando, que tantas vezes nos permitiu elaborações intelectuais ricas de sentido e de aplicabilidade – deixou-se, provavelmente, enredar nas próprias teias de um fenômeno cheio de labirintos, que conhece como ninguém.
A academia está de luto. Vamos passar os próximos anos nos perguntando, como fizemos quando das denúncias contra o professor Boaventura de Sousa Santos, o que fazer daqui para a frente com sua obra? O autor e sua obra estão definitivamente ligados? Continuaremos a dar espaço, em nossas pesquisas, ao seu pensamento?
Perdemos todos, indistintamente, homens, mulheres, negros, brancos, miseráveis e ricos. O país está mais pobre, o mundo acadêmico perdeu uma de suas mais importantes referências no estudo do racismo e seus mecanismos estruturantes.
Você perdeu a grande chance de sua vida, a janela de oportunidades que lhe foi aberta, não por benesse do governo, mas por lutas dos movimentos sociais. Você estava aí representando não a você mesmo, mas a tantos que sofremos séculos de discriminação e violações.
Silvio Almeida foi um ministro de Estado, negro, que chegou ao topo do escalão de um governo legitimamente eleito por força das lutas sociais contra o racismo, o patriarcado e a miséria.
Um ministro negro, instalado no Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, dos mais importantes ministérios, para sustentar e alavancar a ruptura com o paradigma machista e patriarcal, traiu a si mesmo, a sua história, a história de seus ancestrais e, sobretudo, a luta de uma sociedade formada em sua maioria por pessoas negras e por mulheres que em você depositou esperanças de um futuro com mais igualdade e justiça.
O Ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), Sílvio Almeida
O Ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), Sílvio Almeida Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil
O movimento negro está sofrendo. Há um sentimento de luto, de céu acinzentado, de nuvens carregadas a amedrontar com promessa de tempestades. Mas, de fato, a tempestade já aconteceu. O que mais pode vir na esteira das tragédias que parecem não permitir que haja paz na República?
Séculos de violações e a esperança de um ministro que representasse e lutasse suas lutas.  Sua traição foi muito forte, doída, dor na alma e esparramada nos corpos, mentes e corações de muitos.
Vamos todos sentir, por muito tempo, a dor dos sonhos irrealizados, da frustração íntima, da compreensão de que a luta é muito maior do que pensávamos. Você é um homem do seu tempo, forjado no patriarcado, que vê os corpos femininos como propriedades suas. Você não foi capaz da grandeza de honrar as esperanças que lhe foram depositadas.
A academia está de luto. Perdemos nosso intelectual. As mulheres estão de luto. Elas acreditaram que você era um homem defensor dos Direitos das Mulheres e não um violador delas. Os negros, seus companheiros de luta, que passaram por humilhações seculares, estão de luto.
Contra todas as evidências, às vezes me pego pensando em uma possível inocência sua e na perpetuação das discriminações contra pessoas negras. Discriminações reais! Não deve ter sido fácil para você manter-se em um ministério que, provavelmente, ainda tem os tentáculos do governo anterior, silenciosos, mas atuantes.
Não dá para negar que o racismo existe e está fortemente enraizado em todos os espaços públicos e privados. Mas, ainda que sua inocência venha a ser provada, você, “ingênua” ou perversamente, utilizou-se das mesmas e seculares estratégias adotadas pelo patriarcado para continuar vivo, ativo e mantendo o status quo, qual seja, desconstruir a imagem das vítimas, vitimizando-as ainda mais, como forma de manter todas em silêncio e submissas aos desejos do macho, que se vê como superior e proprietário dos corpos femininos.
Você terá o direito garantido ao devido processo legal e à defesa. Nós, mulheres, lutaremos por isso. Lutaremos para que você tenha um julgamento justo. O feminismo e a luta das mulheres por igualdade não é uma luta contra os homens. As mulheres querem, simplesmente, viver de forma plena seus direitos, assim como é facultado aos homens. Elas não lutam contra os homens. O feminismo não é o antônimo do machismo. Enquanto o último quer dominar as mulheres e continuar subjugando-as, o primeiro busca apenas igualdade de direitos e de dignidade.
A análise do lamentável episódio nos leva às seguintes conclusões: a) não basta positivar leis de defesa das mulheres, fundamentadas na garantia de direitos e deveres, pois, isoladamente, elas nada representam; b) o conhecimento aprofundado sobre um determinado tema não é garantia de um agir racional; c) o patriarcado é forte e opera por meio de sofisticadas estratégias baseadas no poder disciplinar e na docilidade dos corpos femininos; d) toda e qualquer mudança virá do povo.
Assim, é a sociedade civil que definirá seus rumos. É ela que precisará, talvez, com a ajuda da academia, de traçar suas estratégias de enfrentamento ao machismo e à cultura de violação dos corpos femininos. Práticas educativas de caráter emancipatório deverão sustentar e direcionar estratégias capazes de desconstruir o patriarcado, erigido sobre estruturas aparentemente invioláveis, fortalecidas, institucionalmente, por meio do próprio Estado e seus aparelhos ideológicos, assim como pelas igrejas e pela família.
O machismo e o patriarcado, cristalizados nos séculos, milênios, melhor dizendo, de exercício inquestionável de poder, com baixa resistência, precisarão ser atacados pela força estratégica das mulheres, unidas no mesmo projeto de garantia de suas vidas e dignidade.
O presidente Lula agiu com rapidez e precisão, tanto ao exonerar Silvio Almeida quanto nomear Macaé Evaristo.
Ao ter em suas mãos o poder de designar a pessoa que ocuparia o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, talvez o mais importante de seu governo, ele não tergiversou e nem se deixou abater pela profunda crise na qual o governo mergulhou a partir da denúncia.
Essa cadeira não poderia ser objeto de negociações. Ali só caberia mesmo uma mulher negra, potente, de história ilibada e comprometida com as lutas históricas dos mais vulneráveis, sensível às dores do nosso povo, porque também as sentiu.
Ao contrário do que imaginam tantos, não deve ter sido fácil a escolha. Assim como Macaé Evaristo, muitas outras mulheres negras se enquadravam no perfil necessário nesse momento histórico.
Escolheu bem o presidente. Uma mulher negra, de sua inteira confiança, respeitada por sua história de lutas em defesa da democracia, da justiça social, das minorias e das maiorias minorizadas.
Enfim, senhor presidente, uma mulher de estofo moral capaz de resgatar a dignidade e a grandeza do cargo.
Viva Macaé Evaristo. Viva a luta das mulheres por respeito, igualdade e dignidade.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem BBC Brasil
Governo Trump manda delegado da PF que ajudou ICE a prender Ramagem deixar os EUA
Agência do Banco do Brasil em Baixo Guandu voltou a funcionar normalmente
Agência do Banco do Brasil volta a abrir em Baixo Guandu
Viatura da Polícia Militar
Criminosos invadem obra e causam prejuízo de R$ 50 mil na Praia da Costa

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados