O espetáculo gospel no qual tem se transformado as negociatas entre parcela da Igreja Evangélica e o governo brasileiro chegou às raias da comicidade, tipo espetáculo teatral no qual os gêneros humor e tragédia se encontram de tal forma jungidos que não é mais possível separar o que é mundo real e o que é mundo paralelo.
O show de dança e manifestação sobrenatural com fala em língua estranha, protagonizado pela primeira-dama brasileira, Michelle Bolsonaro, em um espaço público, sala do Senado, comemorando, com diversos senadores da República e com o novo ministro eleito para o STF, evidencia que chegamos a uma fronteira ao romper os últimos liames daquilo que entendemos, e temos ensinado nos cursos de Direito de nosso país, acerca do que seja Estado Democrático de Direito.
O que deveria fazer corar de vergonha a qualquer representante do povo, que jurou fidelidade à Constituição, como deputados e senadores, em um Estado que assumiu a laicidade como princípio, e a qualquer legítimo representante de igrejas evangélicas comprometidas com o verdadeiro cristianismo, naturalizou-se como prática aceita e validada institucionalmente.
Fazem, com tranquilidade, acordos a partir de jogos de poder articulados nos subterrâneos de reuniões não passíveis de publicização, por contrariarem os princípios elementares da ética cristã, da moralidade pública e da moralidade média aceita por cidadãos probos e com capacidade mínima de compreensão daquilo que consideramos como Estado e Democracia.
Nada contra as manifestações de alegria, os vivas naturais em qualquer processo de vitória em disputas eleitorais, jogos de futebol, aniversários, comemorações diversas.
Nada contra manifestações religiosas que divirjam das minhas, que, eventualmente possam me parecer estranhas do ponto de vista litúrgico. Sou amplamente favorável, e respeitosa, às manifestações legitimas da fé genuína, inclusive aquelas que são muitas vezes ridicularizadas por pessoas intolerantes, que não sabem respeitar o Direito inalienável de qualquer cidadão de praticar a sua fé da forma como desejar, desde que respeite também os limites constitucionais de um Estado que se decidiu pela laicidade como princípio constitucional.
A compreensão da distinção entre o que é espaço público e espaço privado, espaço de manifestação da fé e espaço de manifestação da política no respeito às leis e à constituição, precisa ser objeto de posicionamento límpido e cristalino para todos.
Respeito à diversidade religiosa, tolerância e direito de exercício pleno da fé precisam ser a aprendidos desde a infância. Há, entretanto, um ritual litúrgico a ser assimilado nesse processo de amadurecimento cultural rumo a um processo civilizatório que nos iguale a todos como cidadãos de um Estado laico.
Michelle Bolsonaro, André Mendonça e todos os parlamentares que se aglomeraram naquela sala para torcer juntos por um projeto de poder que imiscuiu no mesmo “balaio de gato” o pior da política e o pior dos evangélicos se esqueceram que o poder tem compromissos, que vão para além dos desejos individuais e das negociações que são feitas entre entes públicos com vistas a consecução de interesses privados.
André Mendonça é um pastor presbiteriano de denominação considerada histórica, tradicional e equilibrada, distante das manifestações típicas do neopentecostalismo, com características por eles criticadas como sendo de frágil ortodoxia, com cultos barulhentos e a ideia de profecias e uso de línguas estranhas. Agora, diante da possibilidade de chegar ao STF, Mendonça e alguns de seus pares se esquecem das críticas e do orgulho sempre repetido como sendo um diferencial entre as denominações.
Esquecem-se dos discursos elitizados e críticos das práticas que antes reprovavam e às quais agora se associam. Triste sina daqueles que se apaixonam pelo poder. Serão desacreditados por suas incoerências e manipulações discursivas para chegarem aonde julgam poder exercer sua fé de forma eficaz.
A liturgia pública estatal, em qualquer nível, não comporta manifestações comprometidas com grupos religiosos específicos. André Mendonça não poderá ser o representante exclusivo dos evangélicos.
A eleição de André Mendonça, ao contrário do que ele afirmou, foi um grande passo para um pequeno homem. Para além disso, foi um insignificante e empobrecedor passo para os evangélicos brasileiros que se apequenaram diante dos poderosos que deveriam denunciar quando legislassem e implementassem políticas públicas contra os mais vulneráveis e a favor dos poderosos e de seus projetos escusos.
Jesus Cristo não precisa de cargos para a manifestação de seu poder salvador. Jesus Cristo não precisa de homens que vendam sua dignidade em troca de postos nos quais tenham que fingir ser o que não são, compactuando com práticas espúrias e contrárias aos princípios bíblicos.
Jesus Cristo não precisa de homens que se rebaixem e se humilhem diante dos poderosos declarando serem eles profetas, quando, na realidade são homens que conspurcam o cristianismo, afirmando-se fieis a Deus quando, na realidade, adoram a outros deuses como o dinheiro, o poder e outros que não nos cabe apontar.
Pelas obras os conhecereis, afirmam as escrituras. O atual presidente da República é conhecido por suas obras e elas são más, cruéis, destruidoras, associadas a projetos de morte e de violência.
Cristãos sinceros, coerentes e amantes do Cristo deveriam agir como profetas que denunciam suas práticas, jamais associando-se a eles. Ainda que não estejam diretamente associados a seus projetos iníquos estarão por eles maculados.
Como disse, nada contra manifestações religiosas com fiéis falando em línguas estranhas, dançando e pulando em nome de Deus. Cada um louva como quer e não me cabe julgar ninguém que assim se manifesta.
Entretanto, tudo contra o uso público dos espaços estatais para manifestações que não sejam exclusivamente legitimadoras dos princípios constitucionais e do Estado Democrático de Direito.
No interior de seus corações, cristãos autênticos podem e devem conduzir suas vidas pessoais e profissionais no sentido de fidelidade aos princípios bíblicos. Caso suas crenças entrem em conflito com seu compromisso constitucional e com o arcabouço jurídico brasileiro, deverão assumir os ônus da desobediência civil, abrindo mão, se for o caso, de seus cargos e privilégios.
Manter os dois, impondo aos demais, em razão do poder de deliberar sobre o destino alheio, a sua fé, além de inconstitucional, é imoral, incompatível com a ética cristã e contrário aos princípios bíblicos.
Uma análise, ainda que superficial, de Estados teocráticos na modernidade, nos permitirão concluir qual será o futuro da nação brasileira, caso venhamos a sucumbir sob o julgo, não de Deus, esse ser amoroso, bondoso e justo, mas de homens perversos, apaixonados pelo poder, ainda que em nome de Deus. Homens que subjugam mulheres, crianças, pobres e não cristãos, como se estivessem em uma cruzada religiosa, que todos nós conhecemos o fim.