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Fim de ano

Um Natal sem Jesus, sem justiça e sem paz

De fato o Natal vem perdendo força como a festa, por excelência, do povo cristão. Poucos se lembram dos sentidos do Natal. Jesus, o salvador da humanidade, no máximo aparece nos presépios de algumas casas

Publicado em 21 de Dezembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

21 dez 2021 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Copo de cerveja com presentes de Natal e chapéu de Papai Noel
Festa e consumo dão o tom do Natal Crédito: Shutterstock
Há décadas venho ouvindo, repetidas vezes, nas cerimônias religiosas comemorativas do Natal, que as pessoas se esqueceram de Jesus, o aniversariante, para se dedicar a Mamon, o deus do dinheiro, envolvendo-se em um consumo desenfreado, que nada possibilita trazer à memória o mais transcendental, místico e fantástico fenômeno ocorrido na história da humanidade.
As críticas sempre são feitas no sentido de que transformamos um momento de comemoração do nascimento de Jesus em uma festa da troca, quase obrigatória, de presentes que movimenta trilhões de dólares e nos envolve em uma atordoante corrida contra o tempo para podermos presentear a todos aos quais nos sentimos obrigados a fazê-lo, especialmente as crianças.
Crianças, diga-se de passagem, que, não fosse a sedução do apelo comercial e da cultura do consumo, trocariam presentes, por mais maravilhosos que fossem, por uma bola feita de papel ou trapos, sendo jogada em um campinho de terra, cercadas de amor, escola, família e saúde.
Os abastados fazem, deste momento, uma festa sem fim, com maravilhosos e sofisticados pratos, mesas lindamente decoradas, casas adornadas com pinheiros, luzes e bolas coloridas.
A mesa farta, a música envolvente e as bebidas estimulantes da alegria não abrem espaço para a lembrança do Jesus de Nazaré, pobre, provavelmente preto e que pregou a paz, a justiça e a igualdade.
O Jesus — que nasceu em um estábulo, descansou em uma manjedoura, de uma família de imigrantes perseguida pelo rei, que tinha como amigos e seguidores, pobres e incultos pescadores — não combina com o cristianismo pregado aos gritos e vociferado por irreverentes e violentos pastores, associados a práticas abusivas contra os miseráveis, contra as mulheres, contra os negros e contra os pobres.
Pastores acostumados à exploração da fé, fomentadores da miséria, destruidores de pontes, que se apropriam das consciências para, sob a ameaça do inferno, transformar homens, à imagem e semelhança de Deus, em uma grei de incapazes de por si mesmos pensar e de modo livre e emancipado tomar decisões autônomas.
A festa do vermelho, verde e doutorado, a reluzir nas bolhas do mais fino espumante, que convida a risos e manifestações de apreço e intimidade, não é ambiente propício a refletir sobre a humanidade que padece.
Não há nessas festas, espaço e nem interesse, em pensar nas quase 20 milhões de pessoas que passam fome no Brasil, nas mais de 100 milhões que vivem em condição de insegurança alimentar, nas crianças abandonadas e órfãs pelos pais que morreram pela Covid-19 em razão de um projeto perverso de produção de miséria para ampliar a concentração de renda e de morte, de um seguimento considerado sem direito a viver.
Entre os menos favorecidos, mas ainda assim com alguma condição de consumo, na busca pelo cumprimento da ritualística da festa, muitos se comprometem com dívidas que lhes tirarão a paz por meses a fio.
Prestações infindáveis vão, aos poucos, transformando um instante de alegria, passageiro em si mesmo, em uma angústia permanente, de um endividamento desnecessário.
De fato o Natal vem perdendo força como a festa, por excelência, do povo cristão. Poucos se lembram, nesses momentos, dos sentidos do Natal. Jesus, o salvador da humanidade, no máximo aparece nos presépios, decorativos de algumas casas.
Do Jesus que veio ao mundo para libertar, emancipar e salvar, poucos se lembram. Do maravilhoso presente de Deus ao homem, ao qual o dia 25 de dezembro nos remete, pouco sobrou na memória dos cristãos.
A pensar a história do Natal como a festa da cristandade, do amor, da paz, da justiça social, da verdade, da eternidade, da esperança e da fé, deveríamos, talvez, acreditar que o milagre é possível, a partir de um compromisso pessoal, que denuncia a injustiça e que se compromete com o serviço ao outro.
Independentemente da fé em Deus, da crença no Cristo feito homem que habitou entre nós, há um chamado à paz, ao amor, à retidão que pode unir os homens e mulheres de bem, independente de seu sistema de crenças, em torno de um projeto de nação no qual todos os homens sejam livres e iguais em dignidade, honra e direitos.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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