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Dois mundos distintos

Um papa humilde e acolhedor e um presidente arrogante e hostil

O episódio precisa ser considerado em uma dimensão mais real e menos fantasiosa. Trump não estava brincando. Trump não brinca nem quando tenta fazer piada

Publicado em 06 de Maio de 2025 às 02:00

Públicado em 

06 mai 2025 às 02:00
Elda Bussinguer

Colunista

Elda Bussinguer

elda.cab@gmail.com

Jamais saberemos, de fato, que razões levaram Donald Trump a postar em suas redes sociais e nas redes oficiais do governo norte-americano uma foto sentado na cadeira papal, vestindo batina branca, o crucifixo de ouro, a mitra ( chapéu de bispo) e o dedo indicador em riste.
Esse desconhecimento acerca dos verdadeiros motivos que o levaram a ser fantasiar de papa e afirmar em tom jocoso que poderia, ele mesmo, ser o próximo papa, não pode, entretanto, ser minimizado e justificado como uma brincadeira de alguém com senso de humor e que leva a vida com leveza, como quiseram fazer crer alguns de seus apoiadores, todos eles militantes ou simpatizantes da extrema direita que tenta dominar o mundo.
O episódio precisa ser considerado em uma dimensão mais real e menos fantasiosa. Trump não estava brincando. Trump não brinca nem quando tenta fazer piada. Tudo nele é grotesco, rude, arrogante, megalomaníaco e desprovido de humanidade. Suas manifestações e suas expressões faciais são sempre carregadas de sua natureza mórbida, ávida de poder e de domínio.
Donald Trump em imagem gerada por IA na qual aparece como papa
Donald Trump em imagem gerada por IA na qual aparece como papa Crédito: Reprodução/X
Não há nele nada que inspire verdade, sinceridade, honestidade e humanidade. Ele ama a si mesmo e se vê como um deus. O papado é pouco para ele. Trump quer ser o deus que destrói o universo, a natureza, que domina o mundo e o reconstrói ao seu próprio gosto.
O mundo precisa prestar mais atenção às manifestações de Trump. Ele representa um risco para a humanidade e esse risco não se restringe ao tarifaço e aos arroubos políticos e econômicos que se manifestam como estratégias de poder e de retomada dos EUA ao seu lugar de proeminência internacional.
Trump quer ter todos aos seus pés repetindo seus mantras dogmáticos e enlouquecidos. Não será surpresa se, em breve, tivermos cânticos sendo repetidos, todos os dias, nas escolas e nas repartições públicas norte-americanas, cantadas por crianças, jovens e adultos, entorpecidos pelo poder tirano que almeja apenas ocupar as mentes, os corações e o trono do universo.
Não é brincadeira. Ele se regozija no luto, na dor, na tristeza coletiva, na miséria e no sofrimento daqueles que ele despreza com todas as suas forças. Ele não se importa com a fé, seja dos católicos que sofrem com a perda do papa, seja dos evangélicos, que utiliza e manipula para alcançar seus objetivos. Nem mesmo os protestantes, batistas, aos quais diz pertencer, importam para Trump. Ele é autocentrado, autorreferente, ensimesmado.
Há uma crueldade intrínseca, uma insensibilidade natural. Não é brincadeira. Ele oscila entre desejo e zombaria. Jamais saberemos qual prevalece. Ele usa não apenas seu site pessoal, o Truth Social de Trump, mas a conta oficial X da Casa Branca, deixando claro que não há brincadeira. É oficial. Ele confunde, misturando aquilo que é público com aquilo que é privado. A pós-verdade é sempre assim: afirmo hoje e, dependendo das reações, desconstruo o que declarei, alegando ser brincadeira ou qualquer outra coisa.
A Igreja Católica, e seus fieis, foi aviltada, objeto de escárnio público internacional. Cardeais, bispos e o Estado do Vaticano, assim como o próprio Papa Francisco, foram objeto de chacota.
Trump quer ser papa. Trump quer ser Deus. Trump quer ser rei. Trump não é um conservador nos costumes e nem na economia. Para ele não importa uma matriz, uma teoria política e econômica traçada na academia. Ele afronta toda e qualquer teoria, seja ela liberal ou não. Ele constrói sua própria teoria e a partir dela estabelece suas estratégias políticas e baixa seus decretos.
Ele afronta a moral cristã que diz defender, seja na vida pessoal, seja na vida pública. Ele compra as consciências e a liberdade. Ele ridiculariza todos que se indispuserem contra suas vontades ou tentarem se interpor aos seus projetos. Não há nada nem ninguém que ele respeite ou que goze de sua admiração. São todos objetos, descartáveis, dependendo de seus interesses mais imediatos.
O papa morreu? Vamos ao velório negociar com Zelensky. O conclave vai se reunir para escolher um novo papa? Hora de ridicularizar as cardeais para que se sintam pressionados a escolher um papa de acordo com seus interesses, um papa que compreenda a importância e o lugar de supremacia dos EUA. Um papa alinhado com seus projetos de supremacia branca.
A obsessão pelo poder e os delírios de grandeza de Donald Trump afundam cada vez mais a credibilidade americana e evidenciam que o limite do aceitável já foi ultrapassado.
Entre Francisco e Trump duas visões de mundo se contrapõem: um papa humilde, acolhedor, humano e respeitoso da dignidade do homem e do planeta e um presidente que quer ser Deus, arrogante, hostil, debochado e desrespeitoso da dignidade humana.

Elda Bussinguer

Pos-doutora em Saude Coletiva (UFRJ), doutora em Bioetica (UnB), mestre em Direito (FDV) e professora universitaria

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