O celular talvez seja o único objeto de desejo compartilhado, na mesma dimensão e intensidade, igualmente por todos, independentemente da idade. É cada vez mais comum vermos crianças e adolescentes utilizando o celular como sua principal atividade lúdica ou fonte de “conhecimento”.
Estamos, todos, literalmente, viciados nas incontáveis ofertas desse pequeno, mas poderoso instrumento de controle de nossos corpos e de nossos desejos. Somos atraídos irresistivelmente pelo brilho da tela e pela rapidez com que as noticias nos chegam e invadem nosso cotidiano, a um toque dos dedos.
Estamos banhados por milhares de informações, que nos chegam em turbilhão, a maior parte delas inúteis, dispensáveis e supérfluas, que nos roubam toda e qualquer capacidade de reflexão mais aprofundada.
De alguma forma perdemos o controle e a gestão do nosso tempo e da nossa capacidade de concentração e de metabolização dos conteúdos, alguns deles relevantes e, sim, necessários ao nosso desenvolvimento profissional e pessoal, mas que se perdem no emaranhado de notícias, luzes, imagens, que nos invadem a retina e nos deixam capturados, incapazes de perceber o que se passa ao nosso redor. Alheios das pessoas e do mundo que nos cerca. Conectados nas redes sociais, nos amigos virtuais, nos jogos e nos produtos da inteligência artificial e desconectados do outro, nosso companheiro de caminhada, de carne e osso.
Apesar de estarmos todos, crianças, adolescentes e adultos, submetidos aos mesmos riscos inerentes ao uso descontrolado e desmedido desses aparelhos, não podemos ignorar que as consequências desse vicio terão maior ou menor gravidade dependendo da idade e do desenvolvimento neural de cada um.
Crianças e adolescentes, ainda em processo de formação, serão afetados em dimensão muito superior aos adultos, isso é inegável. O processo de formação educacional exige foco, concentração, tempo, capacidade de controle e elaboração sofisticada e complexa do pensamento.
O processo pedagógico, por mais lúdico e criativo que possa e deva ser, exige esforço, concentrado e atenção. Toda e qualquer forma de intervenção que cause distração e dispersão do pensamento pode trazer consequências nefastas dificultando ou inviabilizando a aprendizagem.
Educadores de todo o mundo começam a se preocupar com a questão que se constitui, certamente, em um controverso dilema a ser enfrentado no campo da formação infantil e nas políticas educacionais.
Considerando o grau de dependência da maioria, pais e alunos, a resistência a qualquer medida restritiva de uso de aparelhos móveis por crianças na escolas poderá encontrar oposição, o que já acontece em países como os EUA, caracteristicamente defensor de liberdades individuais, ainda que as mesmas possam comprometer o bem comum.
Não é possível ignorar que o celular passou a se constituir um elemento fundamental no equilíbrio, inclusive da paz familiar. Filhos são trabalhosos e exigem atenção e tempo que muitos pais não têm hoje, envolvidos que estão na luta pela sobrevivência e nas correrias do cotidiano.
Nesse sentido, o celular acabou por se tornar um instrumento poderoso de docilização dos corpos infantis, sempre ávidos por novidades. O celular acalma e libera os pais para suas atividades. Também em escolas e creches o aparelho acabou por ser incorporado às atividades pedagógicas, o que pode não ser de todo negativo.
Em muitas escolas, o horário do recreio, antes tempo de socialização e construção de vínculos e afetos que permaneciam, muitas vezes, por toda a vida, passaram a servir como momento para “zapear” pelas redes sociais ou pelos milhares de joguinhos à disposição.
A perda da capacidade de concentração, a superficialização e simplificação das elaborações mentais e as dificuldades inerentes ao processo de socialização são, certamente, consequências irrecuperáveis da utilização indiscriminada de celulares por crianças e adolescentes.
A gestão do conhecimento e da formação infantil passam e passarão por mudanças profundas, ainda mais acentuadas com as revoluções 4.0 e 5.0 na educação. As conquistas humanas devem ser celebradas, mas avaliadas, cada uma delas, a partir do que podem ajudar a melhorar ou piorar a vida humana.
A digitalização da vida nos impôs compreender a avaliar o papel da tecnologia na educação. Professores do mundo inteiro e de todos os níveis de ensino se viram obrigados a incorporar tecnologias, as mais diversas. A internet das coisas, os games e a inteligência artificial invadiram o cotidiano das instituições de ensino, gerando oportunidades e angústia para professores que tiveram que virar de ponta-cabeça tudo que haviam aprendido em matéria pedagógica.
Agora precisam rever suas propostas pedagógicas pensando em como remodelar os processos de forma a não perder o que há de mais rico na educação humana, que é construir conhecimento, ao mesmo tempo em que se estimula e potencializa a criatividade e o desenvolvimento de relações ricas e plenas, permitindo a construção de uma sociedade justa, equilibrada e mais feliz.
A ciência pode nos ajudar a decidir se a proibição radical do uso de celular para crianças, seja na escola, seja em casa, é ou não a solução para um problema já identificado. O certo é que o equilíbrio não será fácil de ser alcançado e pode exigir medidas drásticas que alguns parecem não estar dispostos a se submeter.
Corpos docilizados são um risco que não devemos correr. A perda da criatividade humana, do potencial e da capacidade de nos indignarmos com as injustiças e transformarmos o mundo no qual vivemos é um preço que não podemos pagar.