Hoje, conclamo a todas e todos os cidadãos capixabas a se manifestarem em defesa da democracia em todo país, por nosso direito de voto, que representa nossa participação popular nas urnas.
Como reitora eleita da única universidade pública de nosso Estado, com votação expressiva por toda comunidade acadêmica e escolhida para ser a primeira mulher a ocupar o mais alto cargo da instituição, conheço na pele e na alma a afronta à democracia por meio da coerção política cometida pelo governo federal.
Assim como ao ataque às instituições do Estado brasileiro, que não pertencem a governos transitórios, mas ao povo, esse governo tem sistematicamente encontrado brechas para diminuir as instâncias representativas e enfraquecer nossas vozes. Um dos exemplos foi a utilização da prerrogativa de nomear candidatos derrotados pela consulta universitária e que compõem a lista tríplice.
Essas instituições, ao terem em seu comando gestores derrotados nas urnas, viram-se em um dilema democrático, ético e moral. Mesmo os gestores que foram nomeados, se do lado da democracia precisaram reconhecer o ataque, o enfraquecimento e o desrespeito ao voto da comunidade universitária. E se colocarem ao lado da comunidade acadêmica na luta pela nomeação dos representantes democraticamente escolhidos pela comunidade.
Nossa Ufes, em especial, sofreu em 2020 esse ataque. É fundamental que se reconheça e que se registre para a história a razão de ele ter acontecido, o que se configura no enfraquecimento da democracia.
A razão pelo meu nome ter sido preterido pelo governo federal, com apoio de outros setores, após sair vencedora nas urnas, é exatamente por tudo que represento e pelo que sempre lutei: a igualdade de direitos sem distinção. Em um governo onde as mulheres são preteridas no espaço político, onde as pautas feministas são vistas como afronta e onde o lugar destinado às mulheres é restrito ao lar, ser uma mulher que luta, se coloca no espaço político e vence nas urnas é um grande inconveniente. Deixar de ser nomeada por aquilo que acredito politicamente se configurou, portanto, em uma violência política contra a primeira mulher democraticamente eleita na Ufes.
Estou convencida que a participação das mulheres na política é fundamental para consolidar o Estado Democrático de Direito. Na Ufes, somos mais de 50% do corpo discente, dos técnicos administrativos e dos docentes. Temos o direito de sermos representadas e exercer o mandato legitimamente conquistado. Só haverá democracia plena quando nossa cidadania e as nossas escolhas nas urnas forem reconhecidas.
Por isso, defender a democracia significa respeitar a escolha e defender o resultado nas urnas pela sociedade, quando ela me beneficia ou quando essa escolha me desfavorece. Essa deve ser a luta que nos une!
Aceitamos o resultado nas urnas na eleição presidencial de 2018, após um vigoroso movimento denominado #elenao, quando o atual presidente foi eleito e antecipávamos os ataques ao direito das mulheres. Exigimos o mesmo respeito para com o resultado das próximas eleições, uma vez que representará a vontade geral. Não permitiremos que se deslegitime nossos votos, o processo máximo do exercício democrático.
Hoje, as universidades públicas do país se reúnem e convocam a sociedade para a defesa da democracia, para a leitura pública da “Carta pelas liberdades democráticas”. Esse processo é importante para nossa reflexão. E a motivação de estarmos nos mobilizando não foi ao acaso, mas decorrente de uma série de pequenos ataques, que naqueles períodos históricos podem ter passado como pequenos ou inofensivos. Todavia, não foram! E agora estamos em um dilema: ou estamos ao lado da democracia ou a favor do autoritarismo/tirania, não há meio termo. O que está em jogo é o projeto de país que queremos.
É o momento de levantarmos nossas vozes e nos colocarmos ao lado da democracia. O silêncio não pode ser uma opção. A defesa da democracia é que nos possibilita lutar por um Brasil mais justo, onde todas e todos tenham as mesmas oportunidades.