As últimas duas semanas foram cercadas de eventos que deixaram as famílias muito confusas sobre a vacinação de adolescentes. Inicialmente, o Ministério da Saúde recomendou a vacinação, que seria iniciada a partir do dia 15 de setembro. Entretanto, no dia 14, uma coletiva com o ministro e assessores orientou que os adolescentes não fossem vacinados, inclusive com apelo às mães para não levar seus filhos e filhas às salas de vacinação.
Esse posicionamento específico, vindo de uma autoridade sanitária, foi extremamente inapropriado, irresponsável e preocupante. Primeiro, porque nossas autoridades devem se basear nas melhores evidências científicas para a proteção de nossas vidas. Quando uma autoridade se pronuncia baseando sua recomendação em opiniões e pedidos de pessoas sem nenhum preparo em ciências da saúde, estamos em um cenário da maior gravidade.
Nessa mesma coletiva, o governo apresentou um caso cuja investigação ainda estava em andamento para justificar a paralisação da vacinação desse grupo de adolescentes, como se houvesse uma relação da vacina e do óbito, fato que foi posteriormente descartado pela vigilância epidemiológica e pela Anvisa.
No entanto, a campanha antivacina vindo da autoridade sanitária máxima do país exigia retratação. Dias depois, acompanhamos a manifestação da câmara técnica do Programa Nacional de Vacinação contra Covid, afirmando que se não houvesse recuo do governo, todos os profissionais abandonariam o programa. Somente a partir daí, a recomendação da vacinação de adolescentes foi retomada. Para alguns, infelizmente, o estrago já havia sido feito.
Como pesquisadores e divulgadores científicos na área, enfrentamos dias de muita batalha para orientar os familiares da necessidade de vacinar os adolescentes. É fundamental destacar que a vacina oferece mais benefícios que os riscos raros de miocardite, o principal evento adverso pós-vacinal visto nessa faixa-etária. Importante, no entanto, pontuar que a miocardite (inflamação do musculo do coração) é quatro vezes maior em adolescentes que têm a Covid-19, que em adolescentes vacinados.
Em face às muitas demandas da vacinação em adultos, seria muito mais correto que o Ministério da Saúde colocasse que a quantidade de vacinas disponíveis no momento não seria suficiente para completar as prioridades de primeira dose, finalizar o esquema vacinal com duas doses na população de 30-59 e iniciar o esquema de dose adicional em idosos e pessoas imunossuprimidas.
Assim, no momento, dado o menor adoecimento e óbito no grupo dos adolescentes, eles ficariam para depois. Seria mais responsável assumir que a compra das vacinas atrasadas nos fez ter que escolher quem vacinar, do que levantar falsas questões sobre a segurança das vacinas no grupo dos adolescentes.
Provavelmente, em algum momento, todos precisarão de reforço vacinal. Até agora, nossa atenção se volta para os maiores de 65 anos (10% da população brasileira) que receberam há mais de 6 meses a sua segunda dose, visto que já está comprovada a diminuição da resposta imune por idade. Os imunocomprometidos, por comorbidades. Por fim, os profissionais de saúde, pelo alto grau de exposição.
À medida que as pesquisas avançam, a faixa etária entre 50-64 anos, principalmente com comorbidades, deverá ser a próxima para receber a terceira dose. É sempre importante pontuar que restabelecer a resposta imune dos maiores de 50 anos auxiliará a manter o grupo responsável por 90% dos óbitos mais protegido.
Mesmo diante de toda a confusão das últimas semanas, temos razões para comemorar. Alcançamos uma redução de 80% dos óbitos em comparação ao nosso pior momento da pandemia. Grande parte dos elegíveis com mais 12 anos já receberam pelo menos a primeira dose. Estamos perto de alcançar a marca de 50% da população brasileira com esquema vacinal completo.
A vacina vai, assim, comprovando o que tem sido falado por cientistas desde o início: em uma pandemia de vírus respiratório, nossa melhor chance de vencer e controlar a pandemia é com a vacina. Ainda assim, a vacinação sozinha não basta. Precisamos continuar com as medidas de prevenção não farmacológicas (máscara, distanciamento e higienização das mãos).
Por fim, não custa lembrar: vacine-se. Procure a segunda dose. Se estiver no grupo elegível, busque a dose adicional. Leve seu adolescente para vacinar. Assim, contribuiremos para controlarmos a pandemia no Brasil e no mundo.