Quando fui convidada para participar do grupo de consultores para a campanha de vacinação contra a Covid-19, imediatamente respondi ao chamado acreditando que, na atual crise gerada pela pandemia, não havia nada mais que fosse tão importante e que eu deveria dedicar meu tempo.
Foram horas de estudo e muitas reuniões, até que, em dezembro, fomos surpreendidos pela falta de respeito e comprometimento com a ciência que se revelou no envio de um plano ao STF, em que constavam nossos nomes como responsáveis por um plano de imunização que nem sequer tínhamos visto.
Ainda assim, a motivação principal da minha saída foi a falta de planejamento de compra das vacinas. O governo federal queria que trabalhássemos apenas com o acordo já existente da AstraZeneca/Oxford, que não forneceria as doses necessárias para vacinar a população acima de 18 anos, ou seja: não havia previsão de vacinas para 70% da população. Nossa saída, buscando espaço com imprensa e o Ministério da Saúde, gerou uma pressão para que novos acordos fossem feitos, mas naquele momento ainda tímidos.
Com o início da campanha e ainda sem um acordo formal com o Butantan, as pressões foram se intensificando, culminando na abertura posterior da CPI, a saída do ministro Eduardo Pazuello e o desvelamento de muitos problemas nas negociações de compra das vacinas para a população.
Com a entrada do novo ministro, as iniciativas de compra de vacinas avançaram, mas o estrago à campanha e o não planejamento dos passos seguintes se consolidaram e culminaram, inclusive, com a saída da coordenadora do Plano Nacional de Imunização. Cada Estado já estava tomando suas decisões de forma independente, dada a morosidade e até mesmo a inatividade do PNI.
Nesse mesmo período, as pesquisas ganharam força e trouxeram novas evidências. No entanto, o PNI esteve sempre reagindo tardiamente às decisões que já vinham sendo incorporadas pelos Estados, como vacinação de gestantes, intercambialidade de doses e diminuição de intervalo entre as doses.
No mês de agosto, evidências trazidas pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, e por Israel informavam a necessidade de doses adicionais da vacina para grupos com doenças imunossupressoras e em idosos, ao mesmo tempo que instituições de pesquisa no Brasil também produziam evidências científicas da necessidade de vacinação adicional no público da terceira idade.
Já sabíamos que, com o aumento da vacinação com a AstraZeneca, a segunda dose dessa vacina exigiria, com rigor, um ótimo planejamento. Isso seria mandatório para que não faltassem imunizantes necessários para completar o esquema vacinal dessa fabricante. Infelizmente, como aconteceu durante toda a campanha, onde o planejamento tem falhado de diversas formas, houve agora a previsão de falta de doses da AstraZeneca, pois o público vacinado com a primeira dose dessa vacina é o maior até o momento.
Diante do problema que se avizinha, se faz necessário que o PNI, Estados e municípios se adiantem e repensem suas estratégias. A seguir, indico alguns caminhos que podem auxiliar na tomada de decisão.
Já sabemos pelos estudos que a CoronaVac tem uma melhor resposta em pessoas abaixo dos 50 anos. Portanto, para a priorização desse momento, a primeira ação seria vacinar o grupo mais jovem com a primeira dose desse imunizante.
Em segundo lugar, deixar as doses de AstraZeneca e Pfizer para grupos específicos que só podem receber essas vacinas, mas principalmente para priorização da segunda dose. Essa deve ser nossa meta, principalmente frente às novas variantes. Ter o esquema completo no maior número de pessoas é fundamental.
Para aqueles vacinados com AstraZeneca, em um período de 8 a 12 semanas após primeira dose, vacinar novamente com AstraZeneca. Caso essa vacina não esteja disponível, usar a intercambialidade de doses e fornecer a segunda dose da vacina Pfizer, como está previsto na NT 06/2021 do Ministério da Saúde.
A terceira ação é o início da vacinação com a dose de reforço em idosos, seguindo nota técnica do Ministério da Saúde, usando a Pfizer. Caso esta não esteja disponível, usar AstraZeneca ou Janssen.
Em seguida, iniciar o esquema vacinal em adolescentes com comorbidades, utilizando a Pfizer e por último, havendo doses de Pfizer disponíveis, continuar a vacinação dos adolescentes.
Essa ordenação de prioridades é fundamental, pois se ancora na possiblidade de iniciar o esquema com uma vacina que não está competindo com outras ações, na ampliação da cobertura vacinal com esquema completo e na diminuição da gravidade da doença em grupos específicos.
Usar as evidências cientificas em favor da vida, propondo as ações para estar um passo à frente do vírus, deve ser nossa meta. Assim, juntos vamos vencer esse momento com vacina, ciência e uma boa dose de bom senso.