Recentemente, escrevi um tuíte que, na linguagem das mídias sociais, “viralizou” na internet. Foi compartilhado por personalidades do mundo político, artístico e da comunicação, além de muitas pessoas no Brasil e em outros países. Minha publicação dizia, basicamente, o seguinte:
“Vacina não é remédio. Vacinação é estratégia coletiva. Se você comprar e se vacinar e todo seu entorno não vacinar, o vírus pode fazer uma mutação e sua vacina não servir para nada. Dinheiro jogado fora. Sabe por que a OMS trabalha para que todos os países se vacinem? Porque se alguém em algum lugar ficar sem vacinação, e o vírus fizer uma mudança em sua estrutura, todo o esforço será perdido. Repetindo para que todos entendam: Vacina é estratégia coletiva. Precisamos do maior número em todos os lugares vacinados. Imunidade coletiva.
Nossa briga deve ser pelo acesso universal às vacinas e não 'eu tenho dinheiro e posso pagar para me salvar'. Ninguém se salva sozinho se não salvar todos. Essa é a lição do vírus, ou entendemos, ou afundamos juntos”.
Repetindo para que todos entendam: vacina é estratégia coletiva. Volto a falar sobre isso, pois tramita um Projeto de Lei (PL 948) que pretende garantir que pessoas que possam pagar tenham o direito de furar a fila da vacinação. Não entenderam a mensagem e, portanto, preciso reforçá-la: “Vacina não é remédio. Vacinação é estratégia coletiva”.
Ainda nesse Projeto de Lei, há o constrangimento de que as vacinas podem ser compradas sem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A Anvisa tem como função primordial a promoção da saúde da população, atuando no controle sanitário de diversos produtos, como medicamentos e vacinas. Esse órgão regulatório existe para nossa proteção, para a proteção da saúde de todos os brasileiros e brasileiras.
Permitir a compra e administração de produtos que não estejam devidamente autorizados e, portanto, não tenham garantia de segurança e eficácia, é colocar em risco a saúde de todos. Isso compromete a estratégia de saúde coletiva, visto que se torna impossível garantir que haverá diminuição de infecção, de adoecimento e, consequentemente, de transmissão da doença. Dessa forma, a dispensa dessa regulamentação põe todos nós em risco.
Não é verdade que a vacinação no país seria mais acelerada caso a iniciativa privada pudesse comprar as vacinas. A imunização no Brasil não está lenta por problema de dinheiro ou de compra, mas pelo fato de que o país recusou ofertas de vacinas quando podia comprar e no momento não há vacinas no mercado. Nem para o governo e nem para a iniciativa privada.
Caso houvesse, todas as vacinas deveriam ser adquiridas pelo governo, assim como estão fazendo todos os países, inclusive os mais liberais, por entenderem que a vacinação é uma estratégia coletiva. Só chegaremos à imunidade de rebanho (ou coletiva) quando atingirmos mais de 70% da população vacinada com as duas doses (no caso de vacinas de 2 doses). Vale também dizer que o Brasil tem capacidade de aplicação de 10 milhões de doses por dia, mas não há vacinas a serem aplicadas, porque recusamos a oferta de comprá-las enquanto o restante do mundo as negociava para os seus cidadãos.
Com o pouco investimento em pesquisa e inovação, somos dependentes da China para a produção do insumo farmacêutico ativo (IFA) e sem ele não há vacinas. Felizmente, o governo decidiu investir nas nossas instituições de pesquisa e teremos a produção da IFA no Brasil no segundo semestre. Até lá precisamos da China. Mais uma lição da pandemia: investir em pesquisa e inovação é investir em soberania nacional.
Outro ponto que merece destaque é que a definição dos grupos prioritários tem embasamento científico em dois critérios principais: são pessoas que estão sob o maior risco de infecção e adoecimento e aqueles que estão sob o maior risco de morte. Com o surgimento de novas variantes e a preocupação com o acometimento de doenças mais graves entre os jovens, não podemos perder de vista que deveríamos vacinar praticamente todos os maiores de 18 anos ainda em 2021. Além disso, é imperioso que os estudos avancem para a comprovação de segurança e eficácia em crianças e adolescentes.
Garantir a estratégia coletiva, vacinando os grupos prioritários e ganhando em escala para a vacinação de todos deve ser nossa prioridade, para que o Brasil deixe de ser a ameaça global que se tornou. E assim retomarmos a confiança da comunidade internacional em nossas estratégias de controle da pandemia.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta