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Atualidade

Na pandemia e na guerra, seja a pessoa que você gostaria de ter ao seu lado

O mundo ainda nem curou suas feridas deixadas por esta que está sendo a maior pandemia do século, e não podemos tolerar o oportunismo do momento para decretos de guerra

Publicado em 03 de Março de 2022 às 02:00

Públicado em 

03 mar 2022 às 02:00
Ethel Maciel

Colunista

Ethel Maciel

ethel.maciel@gmail.com

Quando a pandemia se iniciou, eu acreditava que três conceitos que se interlaçam e fazem parte de nossas vidas iriam ganhar novos significados e sairíamos dessa pandemia melhores que entramos apesar de toda dor. Fariam parte de nossa vida de forma mais contundente: a solidariedade, a cidadania e a coletividade.
A solidariedade, essa compreensão da dependência mútua, esse sentimento que leva alguém a tentar ajudar o outro ou a compartilhar o seu infortúnio, deveria ser a primeira a se manifestar nesse momento de dor. Depois, a cidadania deveria se apresentar como um bálsamo para curar as feridas expostas pelas perdas de tantas vidas. Colocar o bem comum em primeiro lugar e atuar sempre que possível para promovê-lo, nesse sentido, como um processo contínuo, uma construção coletiva que almeja a realização gradativa dos Direitos Humanos e de uma sociedade mais justa.
Assim, abrindo as portas para as estratégias coletivas, a compreensão do uso da máscara para proteger o outro, a vacinação para proteger a todos e principalmente, os vulneráveis, entenderíamos por fim a necessidade dos três conceitos e aprenderíamos mais facilmente a usá-los.
Infelizmente, fomos compreendendo nos primeiros momentos que nosso progresso ético como sociedade se desenvolveu em descompasso de nosso desenvolvimento tecnológico. À medida que a ciência e a tecnologia iam fornecendo subsídios para que lutássemos contra o vírus, a ignorância humana se interpôs com indiferença, omissão e individualismo.
Vimos manifestações de grupos desrespeitando profissionais de saúde e famílias enlutadas. Vimos pessoas negando a pandemia e a necessidade de estratégias de controle e vimos grupos que pensavam exclusivamente em si próprios.
E quando acreditávamos que a pandemia poderia estar perto do fim, a humanidade foi surpreendida com uma guerra. É preciso dizer e reafirmar que ainda que motivações para o conflito possam existir de ambos os lados, a raça humana deveria ter aprendido que o melhor caminho é a paz, o diálogo e a preservação de vidas. Não há mais espaço nesse século para reavivamentos de páginas do passado, sede de glória e poder descomedidos que implicam o custo de muitas vidas.
O mundo ainda nem curou suas feridas deixadas por essa que está sendo a maior pandemia do século, e não podemos tolerar o oportunismo do momento para decretos de guerra.
O mundo merece líderes melhores e que compreendam o valor do futuro para próximas gerações. O aprendizado dessa pandemia será o legado que entregaremos para nossos descendentes. E até o momento, esse legado não está sendo o melhor dos exemplos.
Ainda que não possamos mudar os rumos da guerra, precisamos falar da necessidade da paz. Da importância da solidariedade, de ações que visem o bem comum e da compreensão que a coletividade precisa se sobrepor ao individualismo em suas múltiplas vertentes.
Repense no seu pequeno micro espaço e reveja onde esses conceitos podem ser mais bem aplicados. Cuide sobretudo para que as futuras gerações compreendam que durante esse tempo de dor, você contribuiu para cuidar das feridas. Lembre-se sempre: nada supera o poder do exemplo, portanto, nesta pandemia seja a pessoa que você gostaria de ter ao seu lado.

Ethel Maciel

É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

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