Talvez nenhum outro país poderia sediar as Olimpíadas com tanto rigor quanto o Japão, mas nem mesmo ele foi capaz de impedir o crescimento dos casos de Covid-19. A contenção do número de casos depende das ações governamentais e também do comportamento em sociedade.
Aderir aos protocolos de biossegurança, mesmo aos mais rígidos, pressupõe que pessoas possam cumprir determinações sanitárias e evitar as contaminações. Infelizmente, até 30 de julho já havia 174 atletas e membros da equipe técnica contaminados, e os números de casos na cidade de Tóquio, principal sede das Olimpíadas, cresceu substancialmente desde o início dos jogos.
Nas Olimpíadas, as orientações do comitê com os protocolos foram bem rigorosas. Testes diários, orientações para não deixarem a vila olímpica e não saírem de suas bolhas, oferta de álcool em gel e máscara em todos os locais e principalmente: na maior parte dos países, houve oferta da vacina para os atletas. Ainda assim, esbarramos no mesmo problema: o comportamento errático de pessoas.
Vimos muitos atletas que não estavam em competição sem máscara ou com máscara usada de forma inadequada. Vimos e ouvimos gritos de pessoas nas arquibancadas, vimos pessoas sem máscara. Vale ressaltar que, para ter uma ação efetiva, a máscara deve cobrir o nariz e a boca, preferencialmente com boa capacidade de filtragem.
Os jogos mostraram uma sequência de erros nessa parte. Com a não obrigatoriedade da vacinação, muitos decidiram não tomar a vacina, inclusive aproximadamente 10% da delegação brasileira, mesmo tendo a possibilidade de receberem. O bom exemplo vem do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), que embarcará em agosto, com a garantia de que a delegação estará 100% imunizada.
O Comitê Olímpico Internacional (COI) informou que os que não se vacinaram teriam um protocolo mais rígido a cumprir, mas na prática o espírito olímpico já havia sido derrotado antes dos jogos se iniciarem. Quando um atleta que parte para os jogos olímpicos, que visa a comunhão entre os povos através do esporte, recusa-se a auxiliar o mundo, no meio de uma pandemia, é aí que jaz, moribundo, o espírito olímpico.
Aquele espírito olímpico, que faz com que os jovens comecem a sonhar com a possibilidade de serem melhores através de seus ídolos, aqueles a quem consideram heróis e heroínas. Mas, nesta pandemia, alguns perderam a oportunidade de ensinar a milhões de crianças os valores do respeito à vida e à coletividade.
Alguns atletas perderam, inclusive, a chance de ajudarem seus países, não porque não trouxeram medalhas, mas porque falaram pouco sobre a pandemia, sobre a necessidade de cuidados e a importância da vacinação. Outros utilizaram suas redes sociais para conscientizar as pessoas, mas infelizmente foram minoria.
Uma olímpiada no meio de uma pandemia deveria ter uma comunicação diferenciada. Deveríamos ter aproveitado a oportunidade única para melhorarmos a comunicação sobre o risco de adoecimento e óbito. Em outros tempos do Programa Nacional de Imunização do Brasil, nossos atletas teriam em seus uniformes o símbolo do Zé Gotinha e da vacina. O Brasil perdeu a chance de mostrar que pode ser melhor e que está disposto a ajudar o mundo. Os jogos olímpicos ficaram nos devendo. Perdemos todos!
A vacina é a medida de prevenção que tem a maior capacidade de impactar os indicadores da doença, exatamente porque depende menos de comportamentos individuais. Ainda assim, necessita de uma atitude: a adesão das pessoas. A importância da vacinação vai muito além da prevenção individual. Ao se vacinar, você está ajudando toda a comunidade a diminuir os casos de determinada doença. Esse, sim, é o maior espírito olímpico que podemos pedir para qualquer pessoa. Quando chegar a sua vez, vacine-se!