Da mesma família dos vírus responsáveis pelas varíolas humana e bovina, o MPXV foi descoberto em 1958, quando pesquisadores investigavam um surto infeccioso em primatas oriundos da África que estavam sendo estudados na Dinamarca. Pesquisas confirmaram logo em seguida que os macacos eram tão vítimas como os humanos, que o principal reservatório da doença eram animais roedores, no entanto, o nome da doença já estava registrado e, como eram poucos casos restritos no continente africano, a doença ganhou pouca atenção desde sua descoberta.
No entanto, com as mudança que o vírus fez, tornando-se mais adaptável à espécie humana, e com o crescimento da transmissão de humano para humano, a doença já se espalhou pelo mundo. E o nome varíola dos macacos, além de pouco adequado pela falsa ideia de que esses animais possam transmitir a doença, ainda pode contribuir para o preconceito, dado o falso entendimento de que pessoas podem ter doença de macacos.
É urgente que a OMS renomeie a doença para melhorar a informação sobre sua transmissão e minimizar qualquer estigma ou preconceito.
Enquanto não temos um novo nome para a doença, a Monkeypox precisa estar no centro de nossa preocupação como ameaça à saúde global. Todos não vacinados estão vulneráveis à infecção pelo vírus. Até o momento, a doença apresentou menor gravidade e uma letalidade de menos de 1%.
Assim como outras infecções, a preocupação deve ser focada para a proteção dos menos aptos a responder a ela, como crianças, pessoas com imunossupressão, gestantes, entre outros.
Diante dessa nova preocupação de emergência há muito a ser feito e o tempo mais uma vez está contra nós e a favor do vírus. Um artigo de opinião foi publicado pela comissão de Epidemiologia da Abrasco chamando a atenção para a necessidade de ações efetivas para que possamos evitar casos graves e fatais.
À medida que a doença avança no mundo, vimos como repetimos as mesmas ações (ou a falta delas), esperando resultados diferentes, o que é um problema de difícil solução.
Países ricos que investem em pesquisa e tecnologia detêm patentes e produtos e, portanto, em situações de emergência global estão mais protegidos. Antes mesmo do decreto de emergência pela OMS, países da Europa e os EUA estavam vacinando pessoas em grupos de risco. Esses países, por financiarem as pesquisas com vacinas, detêm a maior parte da produção mundial e se julgam no direito a fazer jus ao lema: “Eles primeiro”.
Se esses países ricos usassem o conhecimento produzido por eles para resolver o problema da saúde global, talvez a doença não tivesse saído do continente africano e não ameaçasse a saúde no planeta, mas infelizmente o mundo só passou a conhecer a doença quando ela desembarcou na Europa. É sempre assim.
O Brasil, como outros países periféricos sem tradição em pesquisa e com pouco investimento em produção tecnológica, ficarão à mercê das sobras e do que conseguirem nos acordos feito pelas agências internacionais.
Não aprendemos a lição com a Covid e estamos repetindo o erro com a Monkeypox. Só para lembrar que a primeira ação do governo federal após comprar vacinas de produtores internacionais foi finalizar o contrato com o Butantan, quando deveria ter ampliado o investimento para produção da vacina contra Covid e também no estudo de outras vacinas de interesse nacional.
Investir de forma sustentada em pesquisa e desenvolvimento é o melhor caminho para enfrentarmos essas e outras doenças infecciosas que sempre estarão entre nós. Construirmos instituições fortes e que sejam capazes de pesquisar, produzir e distribuir medicamentos, insumos e vacinas é o caminho para uma sociedade mais saudável.
Compreender isso é o primeiro passo para que nossos governantes possam finalmente seguir em direção ao século 21 e inserir a pesquisa em Saúde como prioridade nacional. Sem saúde não há desenvolvimento e, onde há doença, há escassez de recursos, de materiais ou de pessoas. A ciência na saúde deve ser uma das principais bandeiras da soberania nacional.