A morte do ex-reitor Rômulo Penina encerra uma longa história da política da nossa Universidade Federal do Espirito Santo (Ufes). Penina foi um defensor da nossa Ufes, mesmo em momentos muito duros da democracia em nosso país. Sua morte nos deixa um vazio, mas também inúmeras lições.
Penina foi reitor duas vezes e foi também responsável por influenciar varias candidaturas que se seguiram a sua. Teve apenas uma derrota, mesmo depois de ter saído da universidade, e essa foi para o reitor Penedo. Estivesse ele na Ufes, certamente estaríamos em lados opostos, mas sempre com muita elegância e respeito. Nunca votei nos candidatos apoiados ou alinhados com Penina, mas nem por isso minha admiração por ele é menor, pelo contrário.
Nesta singela homenagem a esse ex-reitor de nossa instituição, cito um episódio em 2018 quando as eleições presidenciais já estavam bem acirradas e ele estava na instituição privada da qual era um dos fundadores. Nas minhas redes sociais, eu estava defendendo a Ufes de alguma acusação que viria a ser mais tarde chamada de “balbúrdia “ por um ministro da Educação. Uma pessoa da faculdade da qual ele era um dos fundadores foi bastante rude em um ataque, era uma quarta à noite, e mais tarde nesse mesmo dia a pessoa apagou as mensagens. Não sei bem como ele soube do ocorrido, mas no dia seguinte a esse episódio havia flores na minha mesa na reitoria e um pedido de desculpas. Liguei para agradecer a gentileza. E não nos falamos mais.
O tempo passou e, logo após a minha eleição como a primeira reitora da Ufes, ele veio a público defender minha nomeação e em seu artigo publicado na Gazeta prova mais uma vez sua grandeza. Como já falei, estivesse ele na Ufes, eu seria sua opositora. Bem, nesse artigo ele recorda o terrível fantasma da ditadura e fala da importância da defesa da democracia e da escolha da comunidade universitária. Ele não tinha nenhuma obrigação de fazer isso, mas fez a defesa não apenas em meu nome, mas pelo respeito à instituição.
No artigo ele também recorda o terrível episódio ocorrido durante a não nomeação de Penedo (que era seu opositor) e de como a universidade ganhou depois da correção que foi feita e da nomeação de Penedo, inclusive o elogia pelo feito da construção do Teatro Universitário, um marco da cultura em nosso estado e no Brasil.
Em um momento tão difícil pelo qual passa nosso país, ter pessoas que defendem a democracia, como o ex-reitor Penina, mesmo quando essa escolhe candidatos que estariam em campos opostos ao seu é uma grande lição. A democracia não está aí para atender aos nossos gostos e preferências, ela deve ser respeitada apesar de sermos derrotados nas urnas. Essa é uma importante lição que ele nos deixa. E desse legado devemos nos orgulhar.
Eu nunca o conheci pessoalmente, e ao escrever essa homenagem me dirijo à família de Penina, com admiração e profundo respeito. Escrevo esta coluna, pois estou fora do Brasil e não poderei prestar as homenagens pessoalmente, mas deixo meu respeito e admiração por sua luta em defesa da Ufes e da educação.
Penina nos ensinou sobretudo que, para divergir, o respeito é fundamental, nós divergimos das ideias e não das pessoas. Que sua lição nos inspire a defendermos a democracia e o respeito às urnas tão imprescindíveis neste momento no Brasil.