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Patrimônio do crime

Descapitalização de organizações criminosas é a única forma de vencê-las

Força-tarefa de Segurança Pública vai agir de forma coordenada, investigando e mirando o patrimônio dos grupos criminosos no Estado

Publicado em 25 de Setembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

25 set 2021 às 02:00
Eugênio Ricas

Colunista

Eugênio Ricas

eugenioricas@hotmail.com

Polícia Federal
Sede da Polícia Federal em São Torquato, Vila Velha Crédito: Carlos Alberto Silva
Uma matéria jornalística publicada nesta semana traz números assustadores sobre o tamanho e a estrutura do Primeiro Comando da Capital (PCC). A reportagem, que se baseou em documentos do Ministério Público de São Paulo, aponta para a existência de cerca de 112 mil pessoas filiadas à organização. A estimativa consta em um processo movido contra membros do PCC.
Outros dados também chamam a atenção. Vale citar, por exemplo, a estrutura hierárquica do grupo. Com um modelo que funciona nos moldes de uma empresa, o PCC possui atualmente doze líderes (com atuação semelhante a de diretores), cerca de mil a 2 mil chefes regionais (espécie de gerentes responsáveis por bases territoriais), 10 mil soldados (responsáveis pela execução das ações da organização criminosa) e cerca de 100 mil associados, que contribuem mensalmente com recursos para a facção. É um complexo modelo de gestão criado pelo grupo criminoso.
A denúncia também faz menção à expansão territorial do PCC. Além de tentáculos em inúmeros Estados do Brasil, a quadrilha tem conexões em países como Paraguai, Bolívia e até mesmo em países da Europa.
Ainda segundo a matéria, um processo em tramitação na 1ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da Capital (SP) conta com uma planilha que indica que o PCC fatura cerca de R$ 1 bilhão anualmente com o tráfico de drogas. Obviamente, não se pode esquecer também dos valores obtidos com as outras modalidades criminosas praticadas pela quadrilha, como assaltos, tráfico de armas, roubo a bancos, carros fortes etc.
Todo esse volume de recursos precisa ganhar aparência de licitude. Para isso, o PCC tem se valido de doleiros que cuidam da lavagem de dinheiro. Imóveis, veículos, embarcações, aeronaves, postos de combustíveis e outras empresas têm recebido recursos do PCC que busca, com isso, esconder a origem criminosa e sangrenta do dinheiro obtido com o crime.
Se em São Paulo a situação já parece fora de controle aqui, no Espírito Santo também temos razão para nos preocuparmos. Matéria jornalística publicada em maio deste ano, baseada em dados do GAECO/MP, de São Paulo, aponta para a existência de mais de 200 criminosos ligados ao PCC, no Espírito Santo. Além disso, a matéria também menciona a existência do PCV (Primeiro Comando de Vitória) e do Trem Bala, duas outras organizações criminosas com atuação no ES.
Não à toa, temos sofrido com a escalada da violência na Grande Vitória. A recorrência de tiroteios e a apreensão de armas de guerra, como fuzis e granadas, apontam para a força atual dos criminosos que atuam por aqui.
Preocupados com esse cenário e buscando alternativas que viabilizem o enfrentamento qualificado às organizações criminosas, estamos propondo a criação de uma força-tarefa de Segurança Pública. Serão cerca de 20 profissionais trabalhando em conjunto, de forma coordenada, investigando e mirando o patrimônio dos grupos criminosos no Estado. O modelo já foi amplamente testado e deu certo em outros países e, também, em Estados como Minas Gerais, Mato Grosso e Roraima.
Se por um lado os números do PCC assustam, por outro indicam claramente o caminho a ser seguido no necessário enfrentamento das organizações criminosas. A única forma de se vencer essa batalha é descapitalizando os criminosos. É isso que faremos no Espírito Santo! Com a união de todas as forças de segurança e lançando mão de inteligência e da tecnologia disponível, vamos reverter o quadro atual.

Eugênio Ricas

É superintendente regional da Polícia Federal no Espírito Santo, ex-secretário da Justiça e ex-secretário de Controle e Transparência do Espírito Santo, mestre em Gestão Pública pela Ufes

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