Oruam é um nome que tem ganhado cada vez mais espaço nas plataformas digitais, nos palcos e nas ruas e, recentemente, ganhou mais visibilidade por aparecer, também, nas páginas policiais. Com letras e músicas marcadas pela rotina das periferias, denúncia e ostentação, Oruam tem sido visto pelos críticos como representante de uma nova geração do trap e do rap nacional. Sua trajetória é, por si só, um retrato complexo das contradições brasileiras: talento e criatividade nascem muitas vezes em cenários de exclusão, violência e desigualdade.
É preciso afirmar, com todas as letras: a arte precisa ser respeitada. Oruam, como tantos outros artistas de comunidades marginalizadas, utiliza a música como instrumento de expressão, resistência e transformação. Ignorar isso é fechar os olhos para a potência cultural das favelas e o papel da arte como válvula de escape, crítica social e até mesmo sobrevivência.
É inegável que muitos se enxergam nas letras de Oruam, sentem-se representados por sua história e se inspiram em sua ascensão. Isso é bom e serve, inclusive, para afastar jovens do crime. Assim como o esporte, a arte pode ser um caminho que afasta as pessoas do mundo da violência, abrindo novas portas e oferecendo oportunidades.
É fundamental, no entanto, que a sociedade saiba diferenciar o que é arte e o que é crime. A música pode falar da realidade do crime sem promovê-lo. Pode denunciar a violência sem romantizá-la. Pode retratar a vida dura nas favelas sem transformar criminosos em heróis. A linha entre o retrato cru da realidade e a exaltação de condutas ilícitas é tênue — e é aí que mora o desafio ético da criação e do consumo cultural.
Quando a fronteira entre arte e crime se apaga e criminosos passam a ser idolatrados como modelos de sucesso, corremos um risco grave: o de comprometer os valores coletivos que sustentam a vida em sociedade. O problema não é o artista cantar sobre o crime; o problema surge quando o público, a mídia e o mercado começam a premiar comportamentos criminosos como se fossem sinônimos de autenticidade ou coragem. Crime não é sinônimo de coragem — é ruptura com a lei, com os direitos dos outros e com a paz social.
Quando, em 2024, a polícia prendeu o conhecido traficante Marujo falei sobre isso em uma das entrevistas que dei, ainda como secretário de Segurança. Na ocasião, afirmei que a sociedade precisa parar de idolatrar criminosos e reconhecer o valor daqueles que, efetivamente, trabalham em prol de todos, como policiais, professores, médicos e outros tantos profissionais.
É preciso responsabilidade. Dos artistas, dos empresários, dos influenciadores, dos consumidores. Quando a sociedade transforma o criminoso em ídolo, ela paga caro por isso: banalização da violência, perda de referências éticas, corrosão da confiança pública nas instituições, dentre outras mazelas.
Oruam é um artista que conquistou notoriedade em certos círculos, mas isso não pode servir como cortina de fumaça para os crimes que vem, reiteradamente, praticando — e isso precisa ser reconhecido, apurado com rigor e, se comprovado, devidamente punido pela Justiça.
Nenhuma projeção pública, por maior que seja, deve servir de salvo-conduto para práticas criminosas. Cabe também à sociedade fazer sua parte: não é aceitável naturalizar, relativizar ou idolatrar figuras ligadas ao crime, sob pena de se contribuir para a corrosão dos valores que sustentam a convivência civilizada.